domingo, fevereiro 27, 2022

Carnaval privado em Salvador tem turistas e até Farol da Barra cenográfico


por João Pedro Pitombo / Folhapress

Carnaval privado em Salvador tem turistas e até Farol da Barra cenográfico
Foto: Valter Pontes / Secom

O cantor Durval Lelys empunhou sua guitarra no centro do palco e, de pronto, os foliões levantaram os braços para o alto. Mas não foi para a coreografia da "Dança da Manivela": eles erguiam seus telefones celulares para fotos e vídeos que logo seriam postados em redes sociais na internet.
 

Um público de cerca de 1.500 pessoas tomou a área externa do Clube Espanhol neste sábado (26) para uma espécie de simulacro de Carnaval, festa suspensa pelo segundo ano consecutivo em Salvador por causa da pandemia da Covid-19.
 

O Baile Barra-Ondina, realizado em um dos clubes mais tradicionais da capital baiana e com ingressos de até R$ 400, teve ares de camarote: grupos ao redor de pequenas mesas com bebidas mergulhadas em baldes de gelo, mulheres de salto alto, homens vestindo calça, nenhuma fantasia e raros adereços.
 

Não fosse o axé music de Durval Lelys e de Tuca Fernandes, que comandaram o primeiro dia do baile, nada faria lembrar a festa que em condições normais aconteceria naquela mesma avenida. No fundo do espaço do shows, um Farol da Barra cenográfico completava o cenário.
 

O público, restrito a 1.500 pessoas por causa do decreto estadual da pandemia, era formado sobretudo por turistas que vieram de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí e Rio Grande do Norte.
 

O comerciante Fábio Garcia, 34, veio de Minas para passar o Carnaval em Salvador pela primeira vez. Mesmo sem a festa na rua, disse que não se arrependeu: "Queria um esquema mais tranquilo mesmo, está sendo ótimo".
 

A administradora Juliana Sobrinho, por outro lado, era uma veterana. Desde 2012, a carioca de 38 anos vem para Salvador em todos os Carnavais e quase sempre desfila no bloco "Me Abraça", comandado por Durval Lelys.
 

Confiante de que o Carnaval aconteceria depois da queda de casos de Covid-19 no segundo semestre do ano passado, ela já havia comprado a passagem e a hospedagem para vir para Salvador.
 

Mesmo com o cancelamento da festa, oficializado em dezembro, ela decidiu manter a programação e vir para Salvador. Quando soube do baile com Durval Lelys, comprou o ingresso: "A festa foi uma surpresa, eu pensei que não fosse ter nada".
 

O casal Nilton Araújo, 29, e Otília Rodrigues, 30, que veio de São Raimundo Nonato (PI), viveu a mesma situação: já havia comprado as passagens para vir para Salvador quando a festa foi cancelada. Não só mantiveram a viagem como já compraram ingressos de um camarote para o Carnaval de 2023.
 

No palco, Durval Lelys enfileirava seus sucessos e relembrava antigos Carnavais: "A essas hora a gente estava ligando as turbinas", disse o cantor, antes de emendar com "Me Abraça, Me Beija", música que se tornou uma espécie de tema informal de seu bloco.
 

Tuca Fernandes subiu no palco na sequência e, com voz e violão, abriu o show com "Baianidade Nagô", música de Evandro Rodrigues, sucesso da Bamdamel e um dos hinos do Carnaval de Salvador.
 

Em conversa com a Folha, Tuca Fernandes defendeu o modelo de festas privadas como um paliativo frente à suspensão do Carnaval: "Foi uma solução para que a gente não passasse em branco de novo como foi ano passado".
 

O cantor ainda disse que o cancelamento do Carnaval de rua, que reúne centenas de milhares de pessoas, foi uma decisão acertada. E destacou a importância do controle das medidas sanitárias.
 

Assim como outras festas de Carnaval privadas em Salvador, o Baile Barra-Ondina exigiu o passaporte com comprovação de ao menos duas doses da vacina contra a Covid-19 para quem fosse entrar na festa.
 

Do lado de dentro, contudo, as regras sanitárias iam aos poucos sendo deixadas de lado. Tão logo os foliões entravam, as máscaras de proteção saíam dos rostos e eram presas nos braços ou iam para os bolsos. Quando começou o show, quase 100% do público estava sem o equipamento de proteção.
 

Em meio ao público, ao menos dois casais permaneceram usando o equipamento de proteção conforme as regras sanitárias. Outra foliã que também manteve a máscara devidamente enfeitada com lantejoulas coloridas.
 

Do lado de fora da festa, dois homens com colares havaianos bebiam cerveja sem a intenção de pagar por um ingresso. Meia dúzia de amb


Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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