domingo, fevereiro 27, 2022

Putin está jogando na América Latina e no Brasil há tempo




Por meio de sua estatal nuclear, a Rosatom, Putin busca expandir sua influência na Bolívia, Argentina, Paraguai e mais recentemente no Brasil. 

Por Leonardo Coutinho 

Moscou está a 11.171 quilômetros de Brasília. A distância geográfica gera a ilusão de que os planos de Vladimir Putin se restringem ao expansionismo nas bordas de seu país. Há quem diga que o conflito, além de distante geograficamente, é também politicamente. Nem o Brasil, nem a América Latina têm a ganhar preocupando-se ou posicionando-se em relação aos planos de Putin, que nesta semana invadiu a Ucrânia. Quem dera o mundo fosse compartimentado assim.

Moscou está mais perto do que parece. Um fato inegável é que as ondas de choque da invasão da Ucrânia que atingirão o Brasil terão impacto no preço dos combustíveis, alimentos e no possível rompimento da promessa de enviar mais fertilizantes para Brasil – razão pela qual, contrariando a razão, Jair Bolsonaro foi à Rússia no pior momento possível para se encontrar com Putin em retribuição à promessa russa de ampliar a oferta do insumo.

É incompreensível a relutância em assumir ou pelo menos se esforçar para entender que Moscou não está lá longe e que o movimento das peças no tabuleiro da geopolítica não seguem regras de fronteiras e não se medem por meio de hodômetros ou medidores de Hobbs. Putin está jogando na América Latina e no Brasil há tempos. Cada vez que ele avança algumas casas em seu terreno, há reflexos em seus movimentos na nossa região.

O exemplo mais reluzente é seu papel da Rússia na Venezuela. O regime de Nicolás Maduro só se mantém de pé pela combinação da economia do ilícito – que nutre as máfias e enche os bolsos de políticos e militares – e pela ação direta e decisiva de potências extrarregionais que dão apoio diplomático, oferecem canais para evasões de sanções e proporcionam a cobertura necessária para as operações do Estado, sejam elas formais ou não. Além da China, Irã e Turquia, a Rússia é um dos parceiros que permitem ao regime venezuelano sobreviver.

Enquanto Putin coloca suas tropas para marchar sobre a Ucrânia, seus militares operam radares de espionagem na Venezuela, próximo à fronteira com a Colômbia. Segundo o Ministério da Defesa da Colômbia, são pelo menos cinco equipamentos interceptando comunicações.

Nem Chávez, nem Maduro jamais fizeram questão de esconder a presença militar russa em seu país. Sempre que pode, o ditador atual faz um discurso ou posta no Twitter que chegaram militares russos ao seu país. Na última década, a Venezuela recebeu por três vezes a visita de bombardeiros Tupolev, capazes de transportar armas nucleares. Não se sabe se estavam armados. Caso sim, teria sido o retorno desse tipo de armamento no continente desde a crise dos mísseis em 1962, quando a então URSS instalou um arsenal nuclear em Cuba.

Em 2019, quando Maduro esteve em seu momento mais crítico, Putin desembarcou em Caracas nada menos que cem militares uniformizados que desfilaram para as câmeras do regime. Foram enviados para “dar uma mão”. Dar assistência técnica na manutenção do arsenal russo – que é a base do material de defesa da Venezuela – e para orientar as Forças Armadas Bolivarianas. E pelos relatos de gente que sabe muito do que acontece nas entranhas do regime, essa “ajuda” segue até hoje.

A Venezuela tem o maior arsenal russo na América Latina. A história de aquisição das armas russas pelo regime chavista tem uma relevância extra para entender a quebradeira da Venezuela. Em 2006, depois de ser impedido de comprar armas americanas, devido a uma proibição imposta pelo Congresso dos Estados Unidos, Hugo Chávez não pestanejou. Correu para os braços de Putin. A lista de armas e equipamentos é longa. Os venezuelanos compraram 100 mil fuzis de assalto, 38 helicópteros multiuso Mi-17, três helicópteros de transporte M1-26, dez helicópteros de combate Mi-35 e 24 caças Sukhoi Su-30MK2.

Apesar de naquele momento a Venezuela estar nadando nas receitas do petróleo, Chávez fez as compras, que totalizam US$ 6 bilhões, no crediário. Quando a economia da Venezuela se esfacelou, ficaram as dívidas. O Brasil conhece bem essa história, pelo calote que eles deram no BNDES. No caso das armas russas, foi bem diferente. Dependentes de Putin para sobreviver como regime, os chavistas entregaram parte importante de sua produção e reservas de petróleo para a Rússia, como parte do pagamento.

Além de ganhar uma bela fortuna com a operação, os russos usam o fluxo petroleiro para ajudar Maduro a evadir das sanções que lhe são impostas e empurram petróleo venezuelano nas transações internacionais. Há relatos de que é cobrada uma comissão que pode superar 20% do valor das operações.

Não faz muito tempo, quando a invasão da Ucrânia ainda era uma possibilidade e o Ocidente pensava que a retórica conteria os russos, Putin mandou um recado para os Estados Unidos. Disse que se a Otan não parasse de avançar sua influência junto aos países que fazem fronteira com a Rússia, ele poderia enviar forças para a Venezuela e Cuba. A Casa Branca tratou o caso como bravata. Mas Putin parece não ser um bravateiro.

Além de ser sócio na Venezuela de Maduro, o presidente russo fincou “bases” na Nicarágua, onde mantém tropas que “auxiliam” os carniceiros de Daniel Ortega com o treinamento de “combate ao narcotráfico”. Por meio de sua estatal nuclear, a Rosatom, Putin busca expandir sua influência na Bolívia, Argentina, Paraguai e mais recentemente no Brasil.

No final do ano passado, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, foi à Rússia negociar o aumento do envio de fertilizantes para o Brasil. A viagem do presidente Bolsonaro a Moscou foi uma espécie de gesto de cortesia brasileira com o parceiro que estendeu a mão em um momento crítico. Mas Putin não nos ajuda por amor. A depender da evolução da crise, sequer é possível esperar o cumprimento das promessas.

Muita gente não entende ou não quer entender. Suspeito que Bolsonaro não condenou a Rússia porque não pode, ou talvez ache que não é conveniente. O Brasil depende de Putin.

Como se vê, a Rússia não é tão distante assim.

Gazeta do Povo (PR)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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