domingo, fevereiro 27, 2022

Recordando Aron: A era do radicalismo vazio.




Raymond Aron foi, durante boa parte do século XX, o modelo por excelência do intelectual avesso ao fanatismo, ainda que também à indiferença e à banalização da política. E é talvez por isso que tenhamos a aprender muito com ele. 

Por Fernando Schüler* (foto)

Talvez seja só uma impressão, mas vem crescendo o número de pessoas que simplesmente cansaram do radicalismo vazio e da histeria que foi tomando conta, em nossa época, do universo da política. Seu ambiente natural são as redes sociais e seu imenso besteirol, mas o problema é muito mais amplo. Observe-se o debate eleitoral, que mal começou. Lula chama Bolsonaro de “miliciano” e Sergio Moro de “juiz canalha”. Bolsonaro chama Lula de “bandido” e “cachaceiro”. Sugere que alguém pode estar querendo “manipular as eleições”, na Justiça Eleitoral, enquanto o ministro Barroso, em seu discurso de despedida do TSE, acusa o presidente de uma incrível sequência de golpes contra a democracia, que vão desde aquele desfile com o tanque da fumacinha, na Esplanada, até uma suposta ordem para que jatos da Força Aérea quebrassem vidraças do STF.

O curioso disso tudo é perceber que se trata, em boa medida, de um radicalismo inteiramente vazio. Teremos nossa nona eleição presidencial, neste ano, desde a redemocratização, sob regras decididas no Congresso. Os partidos têm um caminhão com 5 bilhões de reais, sacados do bolso dos contribuintes, para gastar nas campanhas, vamos debater política até a exaustão, e no final a faixa presidencial estará lá, esperando pelo vencedor. Tem sido assim, nos últimos trinta ou quarenta anos. A política feita nos limites da democracia liberal, com seus erros e acertos.

Se isso é verdade, então por que a retórica grandiloquente sobre temas prosaicos, como se vivêssemos, a cada novo mexerico em Brasília, a um passo do abismo? Dias atrás li que estas eleições põem em jogo o “futuro de nossa democracia”; que decidiremos se “queremos ser uma Cuba ou Venezuela”. Um colega me enviou uma mensagem dizendo que “temia pelo pior” e que via muitas semelhanças entre o Brasil de hoje e a “Alemanha dos anos 30”. O.k., é possível que ninguém acredite de verdade nessas coisas. Mas tenho a impressão de que até no exagero estamos nos acostumando a exagerar.

Pensar sobre essas coisas me fez lembrar de um intelectual que viveu o auge da Guerra Fria, em um mundo onde o radicalismo era muito mais intenso e de certo modo “verdadeiro” do que hoje, pois implicava o conflito real entre modelos de sociedade. Seu nome: Raymond Aron. Aron foi, durante boa parte do século XX, o modelo por excelência do intelectual avesso ao fanatismo, ainda que também à indiferença e à banalização da política. E é talvez por isso que tenhamos a aprender muito com ele.

Em 1955, ele publicou O Ópio dos Intelectuais. O livro traduz, antes de qualquer coisa, seu espanto com a adesão de boa parte da intelligentsia francesa ao comunismo soviético. Sartre havia recém-voltado da União Soviética e declarado ter visto por lá “a mais ampla liberdade de crítica”. Aron foi na contracorrente. O ópio dos intelectuais não era apenas o marxismo, mas sua propensão ao dogmatismo. Essa posição “morna e confortável” de quem se fecha à contradição e “não enxerga simplesmente porque não quer enxergar”. A posição desses intelectuais “tão ciosos da ideia de liberdade, aqui na França”, mas indiferentes a essas mesmas liberdades “quando cruzam a cortina de ferro”.

Aron apreciava o debate político inglês, seu pragmatismo e apego às questões reais de políticas públicas. Era cáustico com a intelligentsia francesa e sua “vocação para o absoluto”. Sua mania de “associar a si mesma com as emoções e sonhos da humanidade”. É a mesma constatação feita por Hannah Arendt comparando a grandiloquência dos jacobinos franceses ao debate pragmático e constitucional dos pais fundadores da democracia americana. Daí sua desconfiança com a “poética ideológica”. Não tinha nada a oferecer que se comparasse à “utopia total” de seus adversários comunistas. Sua crença sempre foi na democracia liberal, com suas imperfeições e delicado equilíbrio institucional. Sociedades abertas envolvem múltiplos objetivos e valores sociais. É preciso aceitar sua legitimidade. Combinar modelos de mercado com a proteção social, por exemplo. Aceitar que há gente de “direita”, favorável à liberação do uso de armas, e gente de “esquerda”, na direção contrária. Talvez seja por isso que me lembro de Aron, nos dias que correm, quando vejo um tribunal censurando pessoas em nome da “verdade”, e o teatro da política por vezes reduzido a um dualismo banal entre “civilização e barbárie”.

Aron não se identificava à esquerda ou à direita. Gostava de se dizer um “incorrigível liberal”. Peitou a direita francesa, ao defender a independência da Argélia, e os dogmatismos de esquerda quase a vida inteira. Na prática, antecipou um tema que se tornaria onipresente com a queda do Muro de Berlim: o fim das ideologias. As sociedades do pós-guerra, dizia, são “imperfeitas e injustas”, mas o aumento na qualidade de vida que elas vêm alcançando é suficiente para que “reformas soem mais promissoras do que a violência”. Além disso, não fazia mais sentido pensar em sociedades puramente liberais ou sob controle do Estado. Estamos condenados às “utopias de médio alcance”, que se fazem no dia a dia das grandes democracias.

A mensagem de Aron prossegue tremendamente atual. O comunismo se foi, ainda que alguns de seus fantasmas continuem por aí. O que surpreenderia Aron, imagino, se pudesse vislumbrar por um momento este tempo confuso, seria a sobrevivência do radicalismo e da estridência política mesmo nesta era de ideologias mortas. Vivemos uma época em que o fanatismo pode ter perdido a intensidade da Guerra Fria, mas se espalhou pela cultura. Desconfio que veria nisso o pior dos mundos: o radicalismo movido a coisa nenhuma. A raiva desvinculada da paixão pelas grandes utopias, mas temperada pela mesquinharia do dia. A política reduzida a um tipo de entretenimento de massas, cujo epicentro é o mundo digital, mas cuja lógica vai muito mais além.

Vargas Llosa diz que Aron só perdeu a linha uma vez, quando se exasperou no maio de 68, que apelidou de “psicodrama revolucionário”. A recusa juvenil de hierarquias e autoridade, sob a estética de uma revolução inexistente e impossível, que nada tinha de objetivo a propor. No auge da confusão parisiense, Sartre publicou um artigo na revista Le Nouvel Observateur dizendo que os estudantes deveriam carregar Aron nu, pelos corredores da Sorbonne. Jean Daniel, editor da revista, chegou a hesitar sobre sua publicação, mas terminou ao lado de Sartre. “Melhor estar errado com Sartre do que certo com Aron”, teria dito, na famosa frase. Era perigoso ficar ao lado daquele intelectual algo cético, “ideólogo do common sense”, como muitas vezes foi chamado, e que se recusou, a vida inteira, a distinguir entre bons e maus campos de concentração.

À época em que Jean Daniel disse aquela frase era Sartre quem dominava o centro do palco, mas a história é longa e cobra o seu preço. Observando meio século depois, quando o Muro de Berlim, e toda a loucura que ele representou, não passa de uma lembrança triste, é difícil não pensar que teria sido melhor estar com Aron, e não Sartre, durante todo aquele tempo.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja
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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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