terça-feira, novembro 30, 2021

O "momento Moro" é passageiro ou duradouro?




A confirmação de que pretende disputar a presidência e as articulações que ele iniciou com outros partidos gerou uma reação dos adversários e teve um reflexo nas últimas pesquisas que sem dúvida criaram o que se pode chamar de "momento Moro". 

Por Diogo Schelp 

Alguém pode, com certa razão, já de saída questionar o título acima. "Momento Moro"? Pode-se falar isso de um pré-candidato à presidência que aparece apenas em terceiro ou quarto lugar nas intenções de voto, a depender da pesquisa, e cerca de 20 pontos percentuais atrás do segundo colocado, o presidente Jair Bolsonaro?

Sergio Moro, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro que há três semanas filiou-se ao Podemos, realmente está longe de ser favorito na corrida eleitoral. Mas a confirmação de que pretende disputar a presidência e as articulações que ele iniciou com outros partidos gerou uma reação dos adversários e teve um reflexo nas últimas pesquisas que sem dúvida criaram o que se pode chamar de "momento Moro".

Se não, vejamos. Depois de o Podemos lançar seu nome e após o ex-juiz começar a conceder entrevistas em série, a chamada terceira via, o bololô de candidatos que se apresentam como alternativa à polarização Lula-Bolsonaro, levou um chacoalhão.

Primeiro, por causa do efeito do momento Moro nas pesquisas. Em algumas delas, ele até aparece com dois dígitos de intenção de voto, com certa vantagem em relação ao quarto colocado, Ciro Gomes (PDT), fora da margem de erro. Os analistas mais afoitos chegaram até a falar em uma possível desistência de Ciro.

Segundo, porque Moro engatou em conversas com outros partidos, em busca de alianças: Cidadania, Patriota (o partido do senador Flávio Bolsonaro), Novo, Republicanos (ao qual o presidente Bolsonaro cogitou se filiar) e, mais importante, o União Brasil, fusão de PSL e DEM. A nova sigla nasce com a maior bancada na Câmara dos Deputados e um dos maiores nacos do fundo eleitoral, além de um ótimo tempo para propaganda gratuita em rádio e TV.

Ou seja, Moro mal entrou na corrida e já está mais adiantado naquilo que outros nomes da terceira via ainda sofrem para fazer: unir esforços em torno de uma candidatura única.

Terceiro, porque essas conversas já renderam até uma desistência que o favorece (outras podem se seguir). O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que era cogitado como candidato do União Brasil para a presidência e pontua 2% de intenção de voto nas pesquisas, avisou aos correligionários que não vai concorrer mais e recomendou o apoio a Moro. Há uma articulação para lançar Mandetta, que ganhou projeção durante a pandemia e até a simpatia de uma parcela da centro esquerda, a vice de Moro.

Quarto, porque a entrada de Moro no que podemos chamar de corrida de classificação motivou a adesão de nomes importantes. O Podemos anunciou a filiação do general Carlos Alberto de Santos Cruz, também um ex-ministro de Bolsonaro, em um movimento que pode servir de incentivo para outros militares entrarem no barco morista, incluindo o vice-presidente Hamilton Mourão, que já foi descartado por Bolsonaro em sua chapa para 2022.

O partido deve receber na próxima semana o ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol. Até a deputada estadual Janaína Paschoal, do PSL em São Paulo, que chegou a ser aventada como vice de Bolsonaro em 2018, em entrevista na semana passada, não descartou a ida para o partido de Moro. O Podemos está aproveitando o momento Moro.

A questão é saber se o momento Moro pode ser duradouro ou apenas fogo de palha. Por enquanto, sua conversão definitiva em político é novidade. Suas entrevistas e discursos ganham atenção no noticiário. As críticas dos adversários, que ora o chamam de "comunista", ora de "agente da CIA", dão ainda mais ênfase ao seu nome.

No entanto, com o passar do tempo, quanto mais ele se arrisca da falar de outros assuntos, como economia e questões comportamentais, mais os seus pontos fracos se tornarão conhecidos.

O momento Moro pode passar e, em vez de se refletir em crescimento nas pesquisas, resultar em estagnação. Se isso ocorrer, outras forças políticas terão menos incentivo ou ímpeto para engajar-se em conversas para unificar a terceira via em torno de Moro.

O resultado da confusa prévia do PDSB e a estratégia a ser adotada por Ciro Gomes a partir de agora podem ter um impacto para estancar o momento Moro, mas não muito. No fundo, o fator primordial será se o ex-juiz conseguirá criar uma persona política que vá além da temática anticorrupção.

Gazeta do Povo (PR)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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