segunda-feira, novembro 29, 2021

Avanço da agenda transgênero ameça o direito dos pais




O argumento de que a disforia de gênero (a percepção de que o sexo biológico difere da identidade de gênero) é inevitável e incorrigível tende a causar uma relativização dos direitos dos pais sobre filhos menores de idade. 

Por Gabriel de Arruda Castro 

O avanço da agenda radical no campo da identidade de gênero tem preocupado muitos pais; boa parte deles teme, com razão, que os filhos sejam expostos a um conteúdo inadequado em sala de aula. Mas, a depender do precedente aberto por alguns países, há outras razões para se preocupar: o argumento de que a disforia de gênero (a percepção de que o sexo biológico difere da identidade de gênero) é inevitável e incorrigível tende a causar uma relativização dos direitos dos pais sobre filhos menores de idade.

O raciocínio é esse: se a "identidade de gênero", na verdade, ideologia de gênero, é determinada por fatores sobre os quais a família não tem qualquer controle, e se a transição de gênero é a única forma de dar dignidade às pessoas com disforia de gênero, a consequência lógica é de que os pais não podem ter a palavra final no assunto - assim como os pais não têm o direito de impedir que um filho com alguma doença grave receba tratamento.

Na realidade, os números mostram uma realidade mais complexa: cerca de 80% dos casos precoces de disforia de gênero desaparecem naturalmente com o tempo, quando o jovem volta a se "identificar" com o sexo biológico. Além disso, a influência social parece ter uma influência significativa: especialistas têm identificado um aumento repentino no número de adolescentes que afirmam ter disforia de gênero, com indícios de uma espécie de epidemia alimentada pela pressão de grupo e pelas redes sociais.

Ainda assim, em alguns países os pais têm encontrado problemas ao tentar impedir que seus filhos menores de idade sejam submetidos a procedimentos de redesignação de gênero. Foi o que aconteceu com Robert Hoogland, no Canadá. Além de se opor ativamente à transição de gênero iniciada por sua filha de 15 anos, ele se recusa a chamá-la utilizando pronomes masculinos. Resultado: foi afastado do convívio com a garota (ele é divorciado da mãe da menina) e acabou preso.

Nos Estados Unidos, onde a agenda transgênero também avança rapidamente, alguns estados têm aberto brechas para reduzir os direitos dos pais. A situação é especialmente delicada quando a criança ou adolescente tem pai e mãe divorciados.

No Texas - estado mais conservador do que a média - um pai luta para impedir que seu filho, hoje com 9 anos, inicie a transição para o gênero oposto. Ele tem sofrido sucessivas derrotas na Justiça. Em agosto deste ano, Jeffrey Younger perdeu a custódia da criança para a esposa, uma pediatra que apoia a transição de gênero da criança.

Outro campo em que os pais têm perdido autonomia é o do sistema educacional. Cada vez mais, os governos têm adotado políticas que permitem a crianças e adolescentes adotarem uma "nova identidade" sem que os pais sejam informados. No estado americano de Nova Jersey, um manual elaborado pelo governo estadual prevê o seguinte: "Um distrito escolar deve aceitar a identidade de gênero declarada de um aluno; o consentimento dos pais não é necessário. Além disso, um aluno não precisa atender a nenhum critério de diagnóstico ou requisitos de tratamento para ter sua identidade de gênero reconhecida e respeitada pelo distrito, escola ou funcionários da escola."

As escolas públicas de Los Angeles, na Califórnia, também possuem um manual que orienta os profissionais a lidar com estudantes nessa condição. Um dos capítulos trata de pais que não “cooperam” com o processo. “Em alguns casos, a escola pode decidir não tocar no assunto se houver preocupação de que os pais ou responsáveis possam reagir negativamente”, diz o documento.

Conforme o debate avança, entretanto, outros estados americanos têm ido na direção contrária e criado barreiras à transição de gênero em crianças e adolescentes. O Arizona, por exemplo, aprovou em março uma lei que impede a adoção de terapias irreversíveis (envolvendo hormônios ou cirurgias) para menores de 18 anos.

Brasil

No Brasil, não há lei tratando da transição de gênero em menores de idade - ou em qualquer idade. O tema é disciplinado por resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM). O órgão define a questão como “o reconhecimento de cada pessoa sobre seu próprio gênero”. A norma mais recente, de 2020, define que a cirurgia só pode ser feita em pacientes com pelo menos 18 anos.

A hormonoterapia cruzada (a ingestão de hormônios masculinos por meninas ou vice-versa) é permitida a partir dos 16 anos. Nesse caso, o paciente deve ser acompanhado por uma equipe composta por pediatra, psiquiatra, endocrinologista, ginecologista, urologista e cirurgião plástico. Já o uso de bloqueadores de puberdade pode acontecer muito antes (8 anos de idade para garotas e 9 para garotos).

A norma do CFM estabelece que, em menores de idade, o tratamento hormonal seja feito com o consentimento “do responsável legal pelo adolescente”. Acontece que, por não ser uma lei, a regra do Conselho Federal de Medicina é frágil. Nada impede que o Supremo Tribunal Federal (STF) modifique as normas sob o argumento de que o Congresso Nacional se omitiu sobre o tema. Não seria a primeira vez.

Em 2018, por exemplo, a corte determinou que transexuais têm o direito de usar o nome social que preferirem e de serem oficialmente identificadas com o sexo que quiserem em seu registro civil. Não é necessário passar por tratamento ou cirurgia de redesignação sexual.

“Muitos dos debates ocorridos no exterior se transportam para o Brasil. Há, sim, a possibilidade de que situações semelhantes ocorram em nosso país”, alerta Edna Zilli, vice-presidente da Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (Anajure). Ela afirma que a entidade tem atuado para proteger os direitos das famílias nesse campo.

A jurista diz ainda que o direito dos pais sobre a educação moral dos filhos está respaldada não só pelo Estatuto da Criança do Adolescente, mas por normas internacionais às quais o Brasil subscreve: “A Convenção americana de Direitos Humanos estabelece que os pais têm direito a que seus filhos recebam educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções. Ou seja: não é função do Estado intervir nesse âmbito”, diz ela.

Edna afirma, entretanto, que os opositores da agenda transgênero mais radical devem se mobilizar desde já, a começar pelos conselhos escolares, para impedir decisões - especialmente do Judiciário e do Executivo - que coloquem em risco a autonomia dos pais.

Gazeta do Povo (PR)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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