terça-feira, novembro 30, 2021

Peter Doocy: o único repórter que não dá vida mansa a Joe Biden.




A arte de entrevistar presidentes gritando perguntas em eventos ao ar livre deu ao repórter da Fox uma oportunidade que colegas deixam passar. 

Por Vilma Gryzinski

É uma tentação chamar Peter Doocy de “o Jim Acosta de Joe Biden”. Vamos resistir a ela porque é uma falsa comparação. Enquanto Acosta, da CNN, confrontava Donald Trump em tom agressivo, Doocy, o setorista de Casa Branca da Fox, só levanta a voz quando o ruído ambiental, tipo rotor de helicóptero ao fundo, exige. Na maior parte do tempo, principalmente quando está fazendo perguntas a Jen Psaki, a porta-voz presidencial, ele mantém um inalterável e monocórdio tom.

Como é o único a fazer perguntas mais contundentes, Doocy acaba repercutindo nas emissoras concorrentes – ao contrário de Jim Acosta, que se transformou em protagonista, desafiando um dos mais basilares mandamentos dos jornalistas, que é não virar o assunto principal.

Doocy resiste a isso, embora inevitavelmente seja celebrado nos sites conservadores quando consegue emboscar a falante porta-voz. Com 33 anos, vistosa cabeleira loira e maxilar quadrado igual ao do pai, Steve Doocy, um dos apresentadores do programa matinal Fox & Friends (o favorito de Trump, que ligava frequentemente quando estava na Casa Branca), ele tem como maior adversário do momento o próprio ego. Virar estrela do jornalismo de televisão é um teste bravo.

O objetivo de qualquer repórter deveria ser fazer as perguntas que os entrevistados prefeririam não ouvir, mas na vida real a situação é outra. A grande imprensa em peso apoia Biden – alguns diriam até que trabalhou eficientemente por sua eleição – e isso se reflete no comportamento dos jornalistas que cobrem a presidência.

No governo Trump, o presidente só queria falar com a Fox, única representante da direita entre os grandes órgãos – o Wall Street Journal pende para o lado conservador preferencialmente em assuntos econômicos, seu forte.

Agora, a situação se inverteu.

Embora os coleguinhas detestem admitir, todo mundo presta atenção quando chega a vez de Doocy fazer suas perguntas a Jen Psaki na entrevista diária. Numa das mais recentes, ele perguntou, em tom inalterável, se Biden pretendia pedir desculpas a Kyle Rittenhouse por tê-lo chamado de “supremacista branco”.

Rittenhouse é o jovem de 18 anos que matou dois manifestantes na cidade de Kenosha, quando os Estados Unidos estavam pegando fogo com os protestos contra a morte de George Floyd. Fotos, vídeos e testemunhos mostraram que ele agiu em defesa própria, contrariando não só opiniões, mas também informações distorcidas divulgadas pela maioria esmagadora da imprensa (alguns meios chegaram a dizer que os mortos eram negros, num indício de que nem sabiam de quem estavam tratando).

Jen Psaki fez um tremendo jogo de palavras e conseguiu escapar da armadilha sobre o hipotético pedido de desculpa de Biden.

Num mundo hollywoodiana, os dois acabariam se apaixonando – uma ideia não tão absurda assim, uma vez que aconteceu no passado com James Carville, o conselheiro político de Bill Clinton, e Mary Matalin, alta funcionária do governo Reagan e de Bush pai e filho. Na realidade, Doocy e Psaki são casados com os respectivos cônjuges.

A sociedade americana está hoje muito mais partida, com os dois lados da política se comportando como inimigos e não metades divergentes de um debate necessário para a democracia. A imprensa refletiu esse estado de espírito, afastando-se da ética da independência que fez sua glória no passado.

Imprensa não precisa ser imparcial, mas tem que ser justa para honrar os princípios do jornalismo. Ou seja, não deve distorcer fatos em favor de suas simpatias políticas ou partidárias. O caso do dossiê apontando – falsamente – ligações escusas de Donald Trump com o regime russo, promovido com fervor pela grande imprensa, foi o maior exemplo de como a aversão política pode virar distorção jornalística. Ou mentira mesmo.

Curiosamente, Peter Doocy e Jen Psaki já contrariaram esta tendência. Ambos fazem declarações mutuamente positivas e dizem ter um relacionamento amistoso longe das câmeras.

Psaki é combativa, honrando a cabeleira ruiva (descende, numa curiosa mistura, de gregos, poloneses e irlandeses). Na época em que era porta-voz de Hillary Clinton no Departamento de Estado, os russos tentavam ridicularizá-la, comparando suas roupas algo simplórias com o glamour de sua equivalente eslava, Maria Sakharova.

Como pode acontecer com qualquer porta-voz, ela eventualmente descamba para o exagero – um outro modo de chamar inverdades. Recentemente, disse que “nenhum economista” estava preocupado com o aumento da inflação, passando já dos 6%. Pulularam opiniões contrárias. Principalmente, claro, na Fox.

É ruim quando o papel de fiscal do governo, uma das principais atribuições da imprensa, fica praticamente limitado a um único órgão. Mas é bom quando presidentes, seus porta-vozes e os repórteres que falam com eles diretamente não se engalfinham como inimigos, repetindo a agressividade de Jim Acosta contra Trump e vice-versa.

“Eu gosto dele”, já disse Biden sobre Doocy. O presidente tem mais de meio século na política e sabe que mesmo quando não gosta de um repórter, tem que disfarçar.

O pai de Peter Doocy já foi satirizado no Saturday Night Live (“Ele acha hilário”, diz o filho) e a vez do repórter vai acabar chegando. Será a glória.

O que fará Doocy sem Biden? Tem um bom tempo ainda para que isso aconteça. Mas ele é esperto e deve ter visto como os colegas que ficaram órfãos de Trump estão penando. Jim Acosta hoje é um enfadonho comentarista.

Sem um presidente para odiar, os militantes do antitrumpismo na imprensa perderam os dentes. Um chegou a, valorosamente, perguntar qual o sabor do milkshake que Biden estava tomando. Pode acontecer em qualquer lugar.

Revista Veja

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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