segunda-feira, novembro 29, 2021

Três vacinados em cada 100 pessoas nos países pobres: o caldo de cultivo para novas mutações do coronavírus

 





Mulher recebe dose de vacina contra a covid em Joanesburgo, na África do Sul, em 20 de agosto.

A detecção da preocupante variante ômicron no sul da África expõe o fracasso da gestão mundial da pandemia

Por Manuel Ansede

O virologista camaronês John Nkengasong fez um duríssimo prognóstico em março. “A Europa está tentando vacinar 80% dos seus cidadãos [vacinou algo como 70%]. Os Estados Unidos querem vacinar toda a sua população [vacinaram 69%]. Acabarão a vacinação, imporão restrições às viagens e então a África se tornará o continente da covid-19”, profetizou Nkengasong, diretor dos Centros Africanos para Controle e Prevenção de Doenças, com sede na cidade etíope de Addis Abeba. A UE e os EUA anunciaram na sexta-feira o fechamento de suas fronteiras a voos procedentes do sul do continente africano após a detecção em Botswana e na África do Sul da variante ômicron, uma nova versão do coronavírus com mais de 30 mutações muito preocupantes. Nkengasong acertou. O mundo se pôs em guarda. As Bolsas mundiais fecharam no vermelho.

Apenas três em cada 100 pessoas foram completamente vacinadas contra a covid-19 nos países mais pobres do planeta, de acordo com a contagem da Universidade de Oxford, apesar de que vacinas seguras e eficazes já existirem há quase um ano. Na África, o número de vacinados é de 7%, embora haja países onde praticamente ninguém viu uma agulha, como Burundi (0,0025%), República Democrática do Congo (0,06%) e Chade (0,42%). A situação mundial é um barril de pólvora, também para os mais ricos. O vírus não para de sofrer mutações, ao cometer erros ao se multiplicar, de modo que cada paciente, com até um trilhão de vírus dentro do corpo, aumenta as chances de surgirem ao acaso versões mais contagiosas ou virulentas do patógeno. Oficialmente, há mais de três milhões de infectados confirmados a cada semana, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) adverte que na África –com uma população muito jovem e em muitos casos assintomática e com meios de rastreamento deficientes– provavelmente se detecta apenas um em cada sete casos.

O biólogo etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, esgoelou-se nos últimos meses denunciando a desigualdade na vacinação. “Todos os dias são administradas seis vezes mais doses de reforço [a terceira injeção nos países ricos] do que primeiras doses nos países de baixa renda. É um escândalo que deve terminar já”, proclamou há duas semanas. “Não faz sentido dar doses de reforço a adultos saudáveis ou vacinar crianças quando profissionais de saúde, idosos e outros grupos de alto risco em todo o mundo ainda estão esperando pela primeira dose”, alertou o etíope. “Ninguém está a salvo até que estejamos todos a salvo”, sentenciou.

A virologista Nicksy Gumede-Moeletsi, do escritório regional da OMS em Brazzaville (República do Congo), alerta que a expansão descontrolada do coronavírus é o caldo de cultivo perfeito para o surgimento de novas variantes “muito preocupantes”, como a ômicron. “Enquanto continuarmos a ter uma cobertura de vacinação tão baixa, especialmente na África, ofereceremos a possibilidade de que as variantes se disseminem. A África precisa de vacinas”, argumenta Gumede-Moeletsi.

A imunização no continente é dificultada por sistemas de saúde frágeis e uma logística deficiente para transportar os medicamentos em condições ideais. Mas grande parte do problema está no acúmulo de doses denunciado pela OMS por parte dos países desenvolvidos. As grandes potências econômicas prometeram doar cerca de 2 bilhões de doses, por meio da iniciativa COVAX, um número insuficiente para vacinar 70% da população mundial com as duas injeções. Os EUA ofereceram 1,1 bilhão de doses, a UE 500 milhões; Reino Unido e China, 100 milhões cada, segundo uma análise do Conselho de Relações Exteriores, um laboratório de ideias norte-americano. As promessas já são escassas e a realidade é cinco vezes mais insuficiente do que as promessas: apenas uma em cada cinco doses prometidas foi entregue, segundo os últimos dados deste grupo de reflexão, atualizados há um mês.

    'Enquanto continuarmos a ter uma cobertura de vacinação tão baixa, especialmente na África, ofereceremos a possibilidade de que as variantes se disseminem” - Nicksy Gumede-Moeletsi, virologista da OMS

Depois de meses de polêmica sobre a liberalização das patentes das vacinas contra a covid-19 –a Organização Mundial do Comércio não foi capaz de chegar a um acordo devido à oposição de alguns membros, como UE, Reino Unido, Noruega e Suíça–, a OMS lançou em junho um consórcio para tentar produzir vacinas contra a covid-19 na África do Sul. O continente agora depende das fábricas na Índia, China, EUA e UE, dedicadas a atender os contratos com os países mais ricos.

A empresa sul-africana Afrigen Biologics, apoiada pela OMS, tentará copiar a fórmula da vacina da empresa norte-americana Moderna, criticada pela Casa Branca por não ceder sua fórmula apesar de ter recebido cerca de 9 bilhões de euros (cerca de 57 bilhões de reais) de ajuda do Governo dos Estados Unidos. A Afrigen já reconheceu que não terá vacinas até pelo menos o outono [no hemisfério norte] de 2022. O médico Tom Frieden, ex-diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, chegou a afirmar que “duas empresas mantêm o mundo como refém”, em alusão a Moderna e Pfizer, pressionadas a compartilhar a tecnologia de suas vacinas, consideradas as mais eficazes contra a covid-19.

A variante delta, detectada pela primeira vez na Índia há um ano, já mudou o curso da pandemia, ao sofrer mutações que a tornaram duas vezes mais contagiosa do que as versões anteriores do coronavírus. A variante ômicron apresenta várias das mutações da delta, somadas a algumas inéditas e outras já observadas nas versões alfa, beta e gama, identificadas respectivamente no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil. Muitas das mais de 30 mutações preocupantes da ômicron estão associadas a uma maior transmissibilidade e a certa capacidade de escapar das defesas humanas –sejam as naturais ou aquelas geradas pelas vacinas–, mas provavelmente serão necessárias semanas para confirmar sua verdadeira periculosidade.

A solução, em todo caso, é conhecida, como lembra a virologista Isabel Sola. “Não se trata de fazer nada radicalmente novo, mas de reforçar as medidas já disponíveis para limitar a transmissão do vírus: máscara, ventilação, contatos limitados, distância... A vacinação também limita a progressão da infecção, razão pela qual ajudaria a contê-la”, explica Sola, codiretora de uma vacina experimental contra a covid-19 do Centro Nacional de Biotecnologia, de Madri. “Para evitar que as variantes apareçam, o básico é limitar as infecções, para que o vírus não tenha oportunidade de se multiplicar e mudar”, enfatiza.

    'É importante investirmos na África: porque identificar ali é prevenir aqui” - Iñaki Comas, biólogo

O bioinformático brasileiro Túlio de Oliveira, diretor do Centro de Resposta a Epidemias e Inovação (CERI) da África do Sul, chefia uma das equipes que detectaram a variante ômicron. Na quinta-feira, pediu aos países ricos que não castigassem a região sul-africana com o fechamento de fronteiras. Os países que identificam as novas variantes são os que mais investiram em laboratórios de análise, não necessariamente os locais onde as mutações realmente surgem. “O mundo deveria ajudar a África do Sul e a África, não discriminá-las e isolá-las. Ao protegê-las e apoiá-las, protegeremos o mundo”, implorou Oliveira em suas redes sociais. Não teve êxito. No dia seguinte, a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou o fechamento das fronteiras da UE, apesar de que já havia sido detectado um caso da variante ômicron na Bélgica.

O biólogo Iñaki Comas aplaude os cientistas sul-africanos. “O importante é que os países tenham a capacidade de detectar essas variantes e comunicá-las rapidamente, como fez a África do Sul. Não para criar alarmismo, mas para aumentar nossa vigilância e poder avaliar se realmente é uma variante que pode mudar a face da epidemia, como aconteceu com a delta”, diz Comas, do Instituto de Biomedicina de Valência (CSIC). “Por isso é importante investirmos em todos esses países: porque identificar ali é prevenir aqui”.

El País

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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