domingo, novembro 28, 2021

Rusgas com Macron - Editorial




Bolsonaro e presidente francês mantêm embate que os valoriza ante suas plateias

Em julho de 2019, uma descortesia diplomática do presidente Jair Bolsonaro deu início a um embate, que se prolonga, com seu homólogo francês, Emmanuel Macron.

Na ocasião, alegando problemas na agenda, o brasileiro cancelou na última hora um encontro com o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, então em visita ao país.

A indelicadeza se converteu em grosseria, porém, quando o mandatário apareceu pouco depois do horário da reunião cortando o cabelo numa transmissão pela internet.

A oportunidade para a desforra de Macron veio um mês mais tarde, no momento em que as queimadas na Amazônia ganharam a atenção do planeta. O francês vestiu a roupa de líder sensível à causa ambiental e buscou capitalizar a crise, levando o assunto ao encontro do G7, do qual ele era anfitrião.

Dedicado a alimentar a altercação com Bolsonaro, Macron incorreu em conjecturas disparatadas sobre um estatuto internacional para a região amazônica, as quais só serviram para fomentar a paranoia nacionalista do Planalto.

A rixa ganhou tons de baixaria. Bolsonaro endossou nas redes sociais um comentário ofensivo sobre a aparência da mulher de Macron, posteriormente replicado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O mandatário francês retorquiu, afirmando que esperava que os brasileiros "tivessem logo um presidente à altura do cargo".

Neste mês, a contenda conheceu novo round. Em Paris, Macron armou uma recepção de gala ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com direito a honrarias inusuais para uma visita não oficial. O gesto deu ao giro europeu do petista ares de triunfo diplomático e ensejou comparações com a viagem de Bolsonaro ao Oriente Médio.

O brasileiro acusou o golpe. "Parece uma provocação", disse. Completando o cortejo a desafetos de Bolsonaro, o governo francês entregou sua mais importante comenda ao senador da oposição Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).

Por trás do confronto transatlântico, nota-se que tanto Bolsonaro como Macron miram, na realidade, suas plateias domésticas. Dissipada a espuma produzida por rusgas e desfeitas, o que remanesce é a racionalidade do cálculo político.

Folha de São Paulo

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