Publicado em 25 de novembro de 2021 por Tribuna da Internet

Mourão usou franqueza total, ao dialogar com os deputados
Adriana Mendes
O Globo
Um dia após reconhecer que não houve integração entre o trabalho das Forças Armadas e os órgãos e fiscalização ambiental no combate ao desmatamento da Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta quarta-feira ser contra o emprego de militares na região, mas que foi a solução que “havia para o momento”. Indagado em audiência pública na Câmara sobre a coordenação do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL), o vice-presidente deixou claro que não tem poder.
— Eu não mando em ninguém, se eu tivesse a condição de dar ordem, o pessoal cumprir e tivesse recurso na minha mão, teria muito mais flexibilidade e capacidade de cumprir a tarefa que me foi dada – disse o vice-presidente na Comissão de Relações Exteriores.
COM FRANQUEZA – O trabalho de coordenação de Mourão no Conselho foi várias vezes questionado pelos parlamentares. Ontem, a ausência de dois ministros na última reunião da CNAL, segundo revelou o a colunista Bela Megale , foi sentida pelo vice-presidente, que não gostou nada de os chefes da pasta do Meio Ambiente, Joaquim Leite, e da Justiça, Anderson Torres, não terem participado do encontro.
— Realmente, são problemas que eu tenho que lidar — comentou Mourão, com franqueza.
O governo Bolsonaro tem adotado a Lei da Garantia e da Ordem (GLO) como principal ação de combate a crimes ambientais na região. Em outubro. Mourão informou que as GLOs não seriam renovadas justificando que os órgãos fiscalizadores estavam com maior capacidade de ação.
SEM RESULTADO – Na audiência, deputados destacaram que as GLOs custaram R$ 550 milhões, mas que não deram resultado. O vice-presidente recomendou que as agências reguladoras sejam recuperadas para o combate aos crimes ambientais.
— Eu concordo que o mecanismo mais adequado não é o empRego das Forças Armadas — disse Mourão, justificando que os militares são importantes para dar apoio logístico, mas que é preciso integração com as agências ambientais.
— Eu deixei claro que, no primeiro momento, essas operações não foram bem-sucedidas por falta de conversa entre os elementos das Forças Armadas com os elementos das agências ambientais… Eu tenho cobrado do Ministério do Meio Ambiente um planejamento para recuperação da capacidade operacional das agências ambientais (Ibama, ICMbio, Funai) — afirmou, informando também que essas entidades estão com um efetivo de servidores abaixo do necessário.
DEVASTAÇÃO AUMENTA –
O vice também afirmou que não vai responder por erros na coordenação do conselho porque não cometeu “nenhum crime”. Ele também ressaltou que se o governo não tivesse atuando a situação “seria muito pior”
Cobrado por não ter participado da delegação brasileira na Cúpula do Clima (Cop 26) no mês passado, Mourão disse que cumpre missões. “O presidente ( Jair Bolsonaro ) não me deu a missão de ir à Cop 26, então não fui” – afirmou. Em outro momento, Mourão defendeu a participação do Brasil no encontro, classificando como “efetivo e eficiente”.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a área desmatada na Amazônia Legal no período 2020/2021 foi de 13.235 km², a pior em quinze anos, encadeando uma tendência de alta que já dura quatro anos
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Essas declarações na Câmara são importantíssimas. Mostram que não há vontade política de Bolsonaro para evitar o desmatamento e as queimadas. Candidato a cargo eletivo, que ainda não escolheu, Mourão agora está em campanha, diz o que pensa, não precisa mais fingir que apoia Bolsonaro. E, desse jeito, Mourão vai ajudar a destruir Bolsonaro. (C.N.)