domingo, dezembro 28, 2008

Mulheres que amam demais ultrapassam os limites comuns

Clara Albuquerque Redação CORREIO Foto: Angeluci Fiqueidedo
Entre outros significados, o amor é o sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa. É um sentimento profundo que proporciona prazer, entusiasmo, paixão. E poderia parar por aí. No entanto, muitos já ouviram história de pessoas que vivem relações amorosas que são verdadeiros infernos. Nesses casos, o significado da palavra amor muda. Vira angústia, desespero, ciúme, dor e, até mesmo, doença. Pensando nessa situação, a organização não-governamental Mada (Mulheres que Amam Demais Anônimas) desenvolveu grupos de ajuda mútua para aquelas cujo amor é instrumento de destruição. Mas como um sentimento tão nobre pode tornar-se tão destrutivo? Quem são essas mulheres? Como reconhecer e lidar com a situação?
A psicóloga e psicoterapeuta Rosa Claudia Almeida explica que quando o amor traz sofrimento e dor ao indivíduo é sinal de que algo não está certo. 'O amor patológico é uma doença que acomete a área das relações amorosas em geral e, mais incisivamente, nas relações entre homens e mulheres. Caracteriza-se pelo comportamento repetitivo e sem controle de prestar cuidado sedar atenção demais ao parceiro', diz.
Especialista no atendimento de pessoas que apresentam o amor patológico, Rosa Claudia conta que essas pessoas buscam no outro a fonte de tudo para suprir carências individuais e fugir de sentimentos como o vazio e a angústia originados nas faltas de sua história de vida. 'O amor patológico provoca o que chamamos de dependência sem droga química e funciona realmente como um vício. Essas relações são cheias de brigas e ou situações de ciúme, por exemplo, que geram um quadro de vício da sensação de preenchimento provocada pela adrenalina liberada nesses conflitos', diz.
A psicóloga ressalta que a patologia, se não for tratada, pode se tornar uma doença progressiva e fatal, levando ao desespero de um suicídio ou assassinato.
MULHERES NA MIRA Segundo Antônio Pedreira, médico psicoterapeuta e educador, a mulher enfrenta mais o problema por entrar de cabeça nas relações. 'Elas são mais sensíveis, mais românticas e apaixonadas pelo amor. Se deixam inspirar por filmes como Romeu e Julieta e a sociedade aceita que ela chore e sofra por amor', diz Pedreira, que trabalha há 30 anos com casais através de um método psicológico chamado análise transacional. A psicóloga Rosa Claudia Almeida completa que, embora também aconteça no sexo masculino, a manifestação patológica no homem é mais recorrente em atividades mais externas e impessoais, como jogo ou trabalho.
Dr. Pedreira explica que, após a fase da paixão, que dura de um a dois anos e meio, o sentimento pode virar o 'amor companheiro', que seria o ideal, ou o 'amor desgaste', onde geralmente um dos indivíduos se afastado outro.' Quem se afasta, se forta lece, enquanto o outro enfraquece e tenta fazer voltar a fase apaixonante. É nesse momento que pode acontecer o que chamamos de grandiosidade, o exagero no pensar, no sentirenoagir' .Muitas vezes, essas relações destrutivas estão vinculadas a um caso de depressão, algum tipo de ansiedade, síndrome do pânico e outros transtornos psicológicos.
'Algumas pessoas têm uma predisposição genética para a depressão e quando chegam a um nível de estresse além do limite a química do cérebro muda e é preciso, além de medicação que normalize essa química, alguma terapia para acabar com o conflito causador do estresse inicial', finaliza o médico.
AJUDA
Nos moldes dos Alcoólicos Anônimos, que funcionam através de reuniões onde os participantes compartilham suas histórias, o Mada abriga mulheres com a proposta de falar sobre o problema e desenvolver novos instrumentos para lidar com a situação. Para Claudia Rosa, a combinação de uma terapia mais o grupo de recuperação é o tratamento que vem trazendo maiores resultados. 'É importante saber que existe recuperação', salienta.
A criação de grupos de recuperação e ajuda mútua a essas mulheres surgiu a partir de um livro, Mulheres que amam demais, de 1985, de Robin Norwood. O livro foi baseado na própria experiência da autora e de outras centenas de mulheres envolvidas com dependentes químicos. Ela percebeu um padrão de comportamento com um em todas elas e as chamou de 'mulheres que amam demais'. No final do livro, sugere como abrir grupos para tratar da doença de amar e sofrer demais.
A primeira reunião do Mada no Brasil aconteceu em São Paulo, no dia 16 de abril de 1994, sob a iniciativa de uma mulher casada com um dependente químico que se identificou com a proposta do livro. O projeto cresceu pelo país e atualmente tem cerca de 40 reuniões semanais distribuídas por 11 estados e o Distrito Federal. Em Salvador, o grupo já se encontra há quase seis anos e mantém três reuniões semanais nos bairros Rio Vermelho, Brotas e Ribeira.
Endereços Mada em Salvador:
Grupo Mada Vitória Rua Campinas de Brotas, n° 737 - Bairro Brotas - Salvador Mosteiro Nossa Senhora da Conceição Reunião: sábado, das 15h às 17h30.Grupo Mada Esperança Rua Guedes Cabral, Largo de Santana - Rio Vermelho - Salvador Igreja de Santana Reunião: 5ª feira das 19h às 21h. Grupo Mada Renascer Praça Dórea Reis, n°2, Ribeira Igreja Nossa Senhora da Penha Reunião: terça, das 19h às 21h.
Fonte: Correio da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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