sábado, outubro 25, 2025

Lula pavimenta com Messias mais quase duas décadas de maioria masculina no STF

 

Lula pavimenta com Messias mais quase duas décadas de maioria masculina no STF

Mesmo se todas as próximas vagas forem de mulheres, corte teria 6 homens garantidos até 2043

Por Renata Galf/Folhapress

25/10/2025 às 12:40

Imagem de Lula pavimenta com Messias mais quase duas décadas de maioria masculina no STF

Foto: Divulgação | Sede do Supremo Tribunal Federal

Apesar da pressão de setores da sociedade civil pela indicação de uma mulher para o STF (Supremo Tribunal Federal), o presidente Lula (PT) já tem um favorito e caminha para escolher para o posto o atual advogado-geral da União, Jorge Messias.

Caso isso se concretize, o Supremo seguirá com maioria de ministros homens por mais quase duas décadas, mesmo que todas as próximas vagas sejam preenchidas por mulheres –o que tem se mostrado improvável. A projeção considera a permanência dos ministros na corte até a idade de aposentadoria obrigatória, 75 anos.

Nascido em 1980, Messias atingiria esse patamar apenas em 2055, somando quase três décadas no cargo. Neste cenário, além dele, outros cinco ministros da atual composição ainda estariam no STF ao menos até 2043.

Com isso, mesmo na remota hipótese de mulheres serem escolhidas para as vagas decorrentes das próximas cinco aposentadorias previstas —as de Luiz Fux (2028), Cármen Lúcia (2029), Gilmar Mendes (2023), Edson Fachin (2033) e Dias Toffoli (2042)— a corte já teria garantidos mais 17 anos e meio de maioria masculina, de novembro deste ano até abril de 2043, quando Flávio Dino alcançaria a idade de aposentadoria compulsória.

Neste mesmo ano, um pouco mais adiante, em dezembro, seria a vez de Alexandre de Moraes deixar o tribunal, quando completaria 75 anos e quase 27 com a toga. Na sequência, viriam os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, que poderiam ficar até 2047, e Cristiano Zanin, com data limite até 2050.

Os outros dois nomes que também foram cotados para a vaga de Barroso, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e o chefe do TCU (Tribunal de Contas da União), Bruno Dantas, também são homens e têm idade próxima de Messias.

Apesar de ter dito a aliados que vai indicar o chefe da AGU, o presidente adiou o anúncio para depois de sua viagem à Ásia. A divulgação foi postergada após conversar com o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que faz pressão para que Pacheco seja o escolhido e é presidente da Casa responsável por sabatinar e aprovar o nome enviado por Lula.

Em 134 anos de história, o Supremo teve apenas três mulheres em sua composição, nenhuma delas negra. Atualmente de 11 membros da corte, há uma única ministra, Cármen Lúcia.

Em 2023, mesmo em meio à pressão de representantes da sociedade civil, Lula indicou Flávio Dino para a vaga decorrente da saída da ministra Rosa Weber, retrocedendo na já baixa quantidade –ainda assim, recorde– de duas ministras concomitantemente na principal corte do país.

Em 2022, uma pesquisa sobre a diversidade de tribunais constitucionais ao redor do mundo, realizada com apoio da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil), mostrou que o Brasil estava atrás de seus pares no quesito. No recorte analisado, de 2000 a 2021, o percentual brasileiro de participação feminina era de 11%, frente a uma taxa global de 26%.

Atualmente, uma maior presença de mulheres no topo do Judiciário já é realidade em outros países. Na atual composição do Tribunal Constitucional Federal alemão, de 16 juízes, 8 são mulheres. Nos Estados Unidos, dos 9 membros da Suprema Corte, as mulheres são 4.

"Essa não indicação agora é um problema, porque vai reverberar por muitos anos. A ONU [Organização das Nações Unidas] propõe que a gente tenha 50% mulheres e 50% homens, em órgãos de poder e tomada de decisão política para 2030. A gente está muito longe", diz Luciana Ramos, professora de direitos fundamentais da FGV Direito SP.

"As mulheres começaram a votar no Brasil há quase um século. Temos aí uma evolução importante, só que elas ainda estão fora dos centros de tomada de decisão e dos centros de poder."

Conforme prevê a Constituição, os únicos requisitos para a escolha dos ministros são, além de nacionalidade brasileira e idade mínima de 35 anos, ter "notável saber jurídico e reputação ilibada".

Ainda que não haja qualquer regra relativa a diversidade, a diminuta participação das mulheres no órgão vai na contramão, por exemplo, de compromissos assumidos pelo Brasil internacionalmente.

Entre eles, estão os da Agenda 2030, dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que inclui a garantia da participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança "em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública".

O Brasil também aderiu, há quatro décadas, à Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. Em 2024, o comitê responsável por garantir a aplicação desses direitos publicou um documento recomendando uma série de medidas aos países para garantir paridade de gênero nos espaços de tomada de decisão.

Fabiana Severi, professora do titular do departamento de direito público da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo), argumenta que o conceito de imparcialidade, historicamente mais relacionado à conduta do juiz, alterou-se, sob o entendimento de que diferentes fatores pessoais, como gênero, raça, deficiência e classe social, também moldam o olhar de quem julga.

"Tendo tribunais plurais na composição, a gente aumenta a chance de decisões imparciais, porque você confronta olhares variados, percepções variadas", diz ela.

Sem uma única mulher negra na história do Supremo, o movimento Mulheres Negras Decidem é um dos que encabeça a defesa dessa bandeira. Em publicação dirigida ao presidente, o movimento afirma que "essa escolha representaria um passo concreto na direção da equidade racial e de gênero".

Também o movimento Paridade no Judiciário publicou uma carta a Lula em nome das magistradas brasileiras. Elas defendem que ignorar a indicação de uma mulher seria "desperdiçar uma oportunidade histórica de fortalecer a representatividade e reafirmar a igualdade como valor republicano".

"A história aguarda. A Justiça exige. O Brasil merece", dizem ao final da manifestação.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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