quinta-feira, outubro 30, 2025

Operação no Rio vazou e mortes começaram antes de incursão em favelas, mostra documento

 

Operação no Rio vazou e mortes começaram antes de incursão em favelas, mostra documento

Por volta de 1h da manhã de terça (28), cerca de 20 homens em motos entraram em confronto com policiais militares em um dos acessos dos conglomerados de favela. Dois deles morreram depois, no hospital.

Por Bruna Fantti, Folhapress

30/10/2025 às 13:07

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Corpos de homens que morreram durante operação no Rio de Janeiro

Foto: Eusébio Gomes/TV Brasil/Arquivo

As forças de segurança do Rio de Janeiro tinham conhecimento de que a operação policial de terça-feira (28) havia vazado quatro horas antes do início da incursão nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte, mostra documento a que a Folha teve acesso.

Por volta de 1h da manhã de terça (28), cerca de 20 homens em motos entraram em confronto com policiais militares em um dos acessos dos conglomerados de favela. Dois deles morreram depois, no hospital.

A Secretaria de Estado de Segurança Pública foi procurada, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Ao término, dois baleados se identificaram como chefes do Comando Vermelho no Espírito Santo e afirmaram aos policiais que estavam fugindo porque sabiam da operação iminente. O vazamento foi relatado pelos agentes em um registro de ocorrência.

A operação, batizada de Contenção, mirou a facção.

No documento, os policiais militares afirmaram que realizavam patrulhamento de rotina na estrada Ademar Bibiano, em Del Castilho, quando avistaram aproximadamente 20 motocicletas saindo do Complexo do Alemão. Ao perceberem a aproximação da viatura policial, o grupo fugiu em direção à avenida Itaoca.

Nas proximidades da estação de Bonsucesso, da SuperVia, os homens efetuaram disparos contra três agentes —um subtenente e dois sargentos, que revidaram com um total de 25 disparos de fuzil, ainda segundo o documento.

"Após estabilização do terreno, os PMs fizeram um 360º e localizaram os referidos homens baleados/feridos, sendo que um portava um fuzil Taurus T4 cal 5.56 nº suprimida, c/ 1 carregador e 12 munições, enquanto o outro detinha uma pistola Glock cal 9mm c/ 1 carregador sem munições, além de 3 granadas caseiras. Os demais elementos se evadiram em direção da comunidade de Manguinhos", diz trecho do registro.

Os agentes informaram à polícia que os baleados "ainda apresentavam sinais vitais" e foram socorridos na viatura para o Hospital Salgado Filho, onde morreram. Eles ainda não foram identificados.

"Vale ressaltar que os criminosos informaram que eram oriundos do Espírito Santo, onde eram lideranças da facção Comando Vermelho daquela unidade da federação. Disseram também que estavam saindo do Cpx [complexo] do Alemão, por conta da informação vazada de que haveria operação policial nas comunidades daquele complexo", consta no registro.

Mesmo com conhecimento de que a facção já sabia da operação, cerca de 2.500 policiais fizeram a incursão às 6h. Ela resultou na ação mais letal da história do estado, com 121 mortes, de acordo com a contabilidade oficial.

Inicialmente, o governo Cláudio Castro disse que eram 64 mortos. Mas desde as primeiras hora desta quarta-feira (29), moradores do Complexos da Penha, onde ocorreu a ação, retiraram dezenas de corpos de uma área de mata, que foram se acumulando em uma praça.

No início da tarde, o governo Castro confirmou que o número era bem maior do que o anunciado inicialmente, com 119 mortos, sendo 4 policiais —a gestão afirma que todos os outros eram suspeitos de serem criminosos. Mais tarde, o número subiu para 121.

Muro do Bope

Segundo o secretário da PM, coronel Marcelo Menezes, na operação desta terça-feira, o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) fez uma espécie de muro: policiais caminharam até a serra da Misericórdia e cercaram os suspeitos na mata, onde havia outro grupo do Bope aguardando.

"O que a gente fez de diferente nessa operação foi a incursão de homens do Bope na área mais alta da montanha, (...) criando o que a gente chamou de muro do Bope, ou seja, policiais incursionados nessa área, fazendo com que os marginais fossem empurrados", disse.

A serra da Misericórdia tem pouco mais de 300 mil metros quadrados e reúne maciços que variam entre 100 metros e 200 metros de altitude —o Alemão fica a 167 metros de altitude, e a Penha a 111 metros.

Com vegetação de reflorestamento, a serra cobre os bairros de Tomás Coelho, Engenho da Rainha, Vicente de Carvalho —onde está o morro do Juramento —, Penha e complexo do Alemão. As duas últimas localidades formam a região onde aconteceu a operação.

A região da mata dos dois complexos é usada por traficantes do Comando Vermelho para fuga, esconderijo, e também é a região onde é realizado o chamado tribunal do tráfico, prática de assassinatos sob ordens de líderes locais.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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