sexta-feira, outubro 31, 2025

Inteligência, participação social e coordenação: como combater o crime sem chacinas

 Especialistas apontam formas mais efetivas e menos letais de combate ao crime; medidas estariam sendo ignoradas pelo RJ

Por JORNAL DO BRASIL com Agência Pública
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Publicado em 31/10/2025 às 06:59

Alterado em 31/10/2025 às 08:33

Moradora chora por morte de suspeito no Complexo da Penha, Rio de Janeiro, tendo ai lado, enfileiradas, dezenas de corpos Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil


Por Laura Scofield - Venda de gás, água, transporte e combustível. Para além do tráfico de drogas, há vários outros mercados lícitos que hoje alimentam e financiam o crime organizado. Por isso, o combate às facções, que assombram a vida de moradores e perpetuam a violência, deve passar por estratégias que vão além das incursões e operações policiais, já comprovadamente falhas. É o que três especialistas em segurança pública defenderam em entrevistas à Agência Pública.

“É necessário que haja maior fiscalização e regulação de mercados lícitos que hoje são controlados por diversos grupos armados em territórios populares”, explicou a pesquisadora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ela cita a fiscalização do setor de transporte, do mercado imobiliário, do setor de telecomunicações e da oferta de gás e água, que são controlados por grupos armados em territórios que eles dominam, como forma de atacar “as bases econômicas desses grupos”.

Grilo ressalta, entretanto, que esse não tem sido o caminho seguido pelo governo do Rio de Janeiro, liderado por Cláudio Castro (PL). “A principal estratégia de combate e de controle do crime no Rio de Janeiro tem sido uma política pública que já se provou ineficiente ao longo das últimas décadas: as operações policiais de incursão armada em território sob domínio de grupos armados”, explica.

“A política de segurança pública implementada pelo governador Cláudio Castro não visa à proteção dos moradores de favelas do Rio de Janeiro. Ela visa, na verdade, a criminalização daqueles moradores”, avalia a pesquisadora Dandara Soares, do Afrocebrap, núcleo de pesquisa sobre raça do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

Na última terça-feira (28), a capital fluminense se tornou palco da Operação Contenção, a mais letal da história do estado. A ação resultou em ao menos 121 mortes, incluindo a de quatro policiais. O governo ainda não apresentou provas da ligação dos mortos com o crime organizado, nem de que todos os assassinatos tenham ocorrido durante conflito. Em entrevista à imprensa, o governador classificou a ação como um “sucesso”.

Na Câmara dos Deputados, o deputado federal de direita e pastor, Otoni de Paula (MDB-RJ), disse que ao menos quatro mortos eram “meninos que nunca portaram fuzis”, filhos de pessoas de sua igreja. “Preto correndo em dia de operação na favela é bandido”, disse na tribuna da Casa legislativa. Testemunhas também denunciam mortes por tiros nas costas e marcas de facadas nos corpos resgatados em uma zona de mata.

“Foi se abandonando cada vez mais a ideia de uma política estruturada, integrada, baseada em metas e objetivos, e [se criando] uma política em que o empoderamento e autonomia das forças policiais foram dados como uma chave para lidar com esse tipo de problemas”, afirmou à Pública o pesquisador Pablo Nunes, diretor do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).

Operação contra setor de combustíveis
De acordo com o pesquisador, as autoridades de segurança pública devem investir em inteligência e coordenação, a fim de construir “estratégias de segurança pública que estejam à altura dos desafios que a gente enfrenta no Brasil”.

“Recentemente, a gente teve uma prova do que pode ser feito no combate ao crime organizado, de uma maneira mais inteligente, sem violência, e focando na face monetária que mantém essas organizações reproduzindo o seu modo de violência”, explica. O pesquisador se referia à Operação Carbono Oculto, que buscou desmantelar esquema de fraudes e de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.

O ICL Notícias revelou nesta quinta-feira, 30 de outubro, que Castro entrou na Justiça para liberar as atividades da Refinaria de Manguinhos (Refit), suspeita de ligação com o tráfico e alvo da Operação Carbono Oculto. Na segunda-feira, 27 de outubro, um dia antes da Operação Contenção, o Tribunal de Justiça do Estado (TJ-RJ) atendeu ao pedido do governador e da empresa, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reverteu a decisão.

“A opinião pública não está devidamente informada sobre as alternativas que existem para um combate mais eficiente ao crime e essas operações espetaculosas, como a de ontem, são muito mais visíveis do que o trabalho silencioso de inteligência, por exemplo, realizado pela Polícia Federal”, afirma Grillo. Ela considera que “políticos mal-intencionados se aproveitam da sensação de insegurança da população, que vive com medo da criminalidade, para vender soluções fáceis”, acrescenta.

PEC da Segurança Pública levanta debate necessário
Após a repercussão da chacina, a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Gleisi Hoffmann, destacou “a urgência do debate e aprovação da PEC da Segurança”, a PEC 18/2025, que tramita desde setembro em comissão especial da Câmara dos Deputados, sob relatoria do deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE).

A proposta do governo federal inclui na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e confere à União a competência para estabelecer diretrizes gerais quanto à política de segurança pública e defesa social. Além disso, ela busca garantir a participação da sociedade civil na tomada de decisão e prevê a criação de órgãos de controle e transparência, para que eles apurem a “responsabilidade funcional dos profissionais de segurança pública e defesa social”.

Mendonça avalia, entretanto, que o texto original “não resolve o problema” do crime organizado no Brasil e defende “mudanças significativas” na proposta. O relator informou que quer apresentar sua versão do texto em novembro.

Grillo concorda que, apesar de importante, a PEC “não é a solução para o crime no país”. “A gente precisa de práticas do Poder Executivo muito mais do que no âmbito legislativo, de redirecionamento do trabalho policial e de ampliação das políticas sociais que têm se voltado para a juventude em situações de vulnerabilidade”.

Já Nunes destaca que a proposta é importante para iniciar o debate sobre a “falta total de cooperação entre os entes federativos em relação à segurança pública”. “O desenho constitucional de 88 não dá mais conta do grave momento de segurança pública que o Brasil enfrenta como um todo. É preciso repensar o papel dos municípios, e muito fundamentalmente, pensar o papel do governo federal frente à segurança pública”, afirma.

Soares ressalta que a sociedade civil deve ser incluída na discussão: “A partir do momento que as pessoas que vivem essa política forem ouvidas e levadas em consideração, vai haver avanços. São essas pessoas que vivem e pensam um outro futuro para esses territórios. E um outro futuro precisa ser desenhado, com uma política de segurança pública que tenha um caráter protetivo a esta população, e que não seja mais reativa, e sim preventiva”.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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