sexta-feira, outubro 31, 2025

Violência como plataforma eleitoral no Rio de Janeiro

 Violência como plataforma eleitoral no Rio de Janeiro


               * Paulo Baía 


Escrevo movido por inquietação e espanto diante do que estamos presenciando. A campanha eleitoral no Rio de Janeiro começa ancorada no simbolismo e na retórica da violência. A operação policial nos Complexos da Penha e do Alemão tornou-se não apenas um ato de Estado, mas um eixo discursivo e eleitoral. Os secretários de Segurança Pública e da Polícia Civil do RJ elevaram-se a porta-vozes tácitos de que a força bruta, a ocupação massiva e a letalidade sistemática são agora moeda política de valor.


Enquanto as pesquisas legitimam a lógica da força e do extermínio, a política se curva ao aplauso fácil das massas amedrontadas. Hoje mesmo uma carreata de forças policiais desfilou pela Praia do Flamengo sob aplausos e gritos de “matem mais”. É o retrato cru do tempo presente: a barbárie virou virtude pública. O governo estadual reforça o caminho da militarização, aprofundando uma estratégia que vem sendo planejada há mais de um ano. Nesse ambiente, o aparato repressivo assume a forma de espetáculo e o eleitorado se torna plateia.


O governo federal parece seguir o mesmo compasso. Com Rui Costa na Casa Civil e Ricardo Lewandowski no Ministério da Justiça e Segurança Pública, não se deve esperar rupturas com essa lógica repressiva, apenas a adequação ao que as pesquisas revelam como “vontade popular”. O chefe da Casa Civil, Rui Costa, e o ministro Ricardo Lewandowski ajudam a compor a retórica oficial segundo a qual o Império da Lei se impõe via balas, ocupações e carnificina silenciosa. É nessa moldura que a política de segurança pública se transforma em propaganda antecipada de eleição.


Estamos assistindo a uma celebração da violência como método político. E quem ousa discordar é empurrado para a margem, silenciado, esmagado. Somos minoria, mas uma minoria que pensa, sente e resiste.


Ver-se a rotina inexorável de policiais mortos, em números que não são aceitáveis em um Estado de Direito, é ver o próprio aparato estatal pagar com vidas humanas o preço de uma estratégia que se pretende “cirúrgica”, “implacável”, “popular”, quando na verdade se torna desencadeamento de tragédia. As corporações policiais vêm registrando perdas regulares em serviço, em confrontos que alimentam o ciclo da morte e da retaliação, num cenário onde a força torna-se propaganda. E ao mesmo tempo os moradores das favelas, vilas periféricas e bairros vulneráveis vivem sob um medo que não se dissolve; convivem com o Estado armado como rotina de contenção de toda uma população, e também com a subjugação de facções criminosas como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro e as milícias paraestatais que ocupam espaços vazios do poder público ou o próprio poder público permissivo.


A tragédia é dupla. Por um lado, o aparato que deveria proteger mata e morre; por outro, as comunidades que deveriam ser amparadas são palco e alvo de uma guerra sem anúncio. A operação que se pretendia “limpeza” torna-se para as comunidades faveladas espetáculo da ocupação, da munição, da patrulha, da morte. A própria noção de cidadania se desvanece quando a presença do Estado armado se impõe como normalidade, como cerimônia repetida de contenção.


Nessa lógica, a violência deixa de ser exceção para tornar-se método. A política se converte em espetáculo da força e o eleitorado em plateia aplaudindo o espetáculo. As palavras “segurança”, “ordem”, “força bruta” vêm entoadas como hinos e slogans de campanha. A eleição se condensa numa promessa implícita: se eleger é matar inimigos.


Os lamentos das comunidades atingidas, como as dos moradores do Alemão e da Penha que saíram às ruas para protestar e acusar de “genocídio” o governo estadual, são a evidência de que esse tipo de operação não é apenas repressão, mas projeto de dominação política. A lógica é cristalina: matar nos territórios periféricos para comover nas zonas centrais; pulverizar corpos anônimos como advertência; transformar residências em tabernáculos de medo. A campanha germina nesse solo febril.


Na esfera federal, o alinhamento entre o estado do Rio e setores conservadores nacionais amplia-se no discurso de que a “vontade popular” exige violência; e quem ousa discordar, quem propõe outro modelo de segurança, fica empurrado para a margem. As redes sociais, os especialistas, as colunas jornalísticas amplificam a lógica: “temos que ser duros”, “não há espaço para debate”, “quem não mata é cúmplice”. É uma campanha midiática que já se antecipou, que já corre nas ruas, nos aviões, nos outdoors, nas sirenes, nas viaturas, nas transmissões ao vivo das operações.


A retórica que celebra a força se alimenta de símbolos: blindados nas favelas, drones sobre o morro, bandeiras hasteadas no topo dos barracos, pichações de vitória. A imprensa, os analistas políticos e mesmo as redes sociais entram no compasso desse show. Cada operação é transformada em manchete-estrela, cada morte em escândalo momentâneo, cada prisão em troféu para o candidato que celebra o caos. O discurso da segurança pública se metamorfoseia em espetáculo de aço e pólvora.


Mas existe um abismo profundo entre o que o espetáculo promete e o que a vida entrega. A letalidade não significa ausência de crime. O tráfico, as facções, a corrupção policial, a opressão das periferias, todos continuam ferozes, talvez até mais. A militarização, a ocupação, a “limpeza” literal ou simbólica oferecem visibilidade, mas pouca transformação real. E no rastro da operação ficam os corpos, o choro, as famílias, o trauma. O eleitor que aplaude hoje, quantos serão atingidos amanhã?


No âmbito sociológico, observamos uma regressão: o Estado vigilante, o cidadão temoroso, a cidadania suspensa. O Império da Lei, que deveria garantir liberdade, segurança e justiça, regrediu à lógica da exceção permanente. A segurança pública como categoria de direitos se engarrafa em prisões, morticínios, operações espetáculo. O discurso das assembleias estaduais do Rio já mostrava isso há anos: a violência internalizada, o candidato que defende “atuar com tudo”, os parlamentares que falavam como se a guerra fosse rotina.


Politicamente essa trama é densa. A direita utiliza a repressão como dispositivo eleitoral, não apenas para derrotar o crime, mas para vencer eleições. Nesse cenário, o eleitorado inseguro, empobrecido, vencido pelo medo, torna-se alvo e objeto de espetáculo. A oposição que recusa esse modelo se vê reduzida à periferia do discurso ou se vê obrigada a aceitar algum grau de militarização para não perder conectividade com o “povo amedrontado”. A polarização não é apenas entre esquerda e direita; é entre campos de segurança, entre valores de vida e valores de morte.


E há mais: essa violência celebrada tem traços de colonialismo interno. Territórios pobres, negros, periféricos, favelas, são palco e sacrifício. A massa que vibra com “matar mais” raramente vive nas favelas; raramente sente o estampido de balas subitamente, o socorro que demora, a criança que não volta da escola, a mãe que perde o filho. O eleitor que aplaude está muitas vezes protegido pelos muros invisíveis da classe média ou das zonas nobres. A injustiça estrutural se torna espetáculo.


Do ponto de vista antropológico, esse fenômeno revela algo mais profundo: o desejo coletivo de segurança que se confunde com o desejo de punição e vingança. A civilidade converge com a lógica do inimigo interno. O Estado assume o papel de executor e garante do medo; e o cidadão que assiste a tudo torna-se cúmplice resignado ou celebrante. A democracia, nesse processo, se debilita. O debate se reduz à exaltação da força, às marchas da polícia, às carreatas de blindados. Votos se transformam em cartuchos.


Para reconstruir uma política democrática de segurança seria necessário inverter o cenário: priorizar investimento social, educação, habitação digna; promover a participação comunitária; desmilitarizar o cotidiano; tratar o problema do crime organizado com inteligência investigativa e respeito ao Império da Lei. Mas essa alternativa quase não existe no palco eleitoral que se monta para 2026 no Rio: domina o canto das sirenes, o estrondo das armas, o aplauso da multidão.


O que redefinimos como “virtude pública” hoje é a coragem de apertar o gatilho, ou pelo menos de gritar “que matem mais”. E a campanha eleitoral, longe de estar suspensa até o dia da votação, já corre solta no cotidiano da violência. Um cenário em que o governante em campanha é também o estrategista da opressão, e o derrotado talvez seja o próprio cidadão.


Somos minoria, mas uma minoria que pensa, sente e resiste. E esse momento demanda mais do que indignação. Exige vigilância crítica, solidariedade com as vítimas, denúncia dos processos de espetacularização do massacre e construção de uma narrativa alternativa. Porque se a barbárie virou virtude pública, cabe a nós lembrar que a virtude da política é outra: a preservação da vida.


             * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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