segunda-feira, setembro 29, 2025

Vaidade, mentira e egoísmo são hoje valores morais; ter filhos, não

Publicado em 29 de setembro de 2025 por Tribuna da Internet

A ilustração de Ricardo Cammarota foi executada em técnica pastel oleoso sobre papel, em tons monocromáticos esverdeados. Mostra duas figuras humanas estilizadas, uma de frente para a outra, cada qual segurando um celular com os braços estendidos. As cabeças são ovais, ocas, com grandes aberturas retangulares no lugar dos rostos, lembrando telas vazias. Ambas parecem mirar seus aparelhos, que se tocam no centro da composição. O fundo é preenchido com textura densa de traços verticais claros sobre superfície escura.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Como podemos saber quais seriam os valores no século 21? A pergunta é rica em possíveis caminhos reflexivos e, por isso mesmo, muito interessante. Mas suspeito que qualquer reflexão mais consistente sobre esta questão não satisfaria as expectativas mais afeitas ao senso comum no que tange a temas que transitam por ética ou moral.

O sapiens parece tirar bastante prazer da ideia de que ele defina os valores em que acredita. Temo que não funcione assim, apesar de que eu estaria cometendo um pecado capital ao dizer isso.

DIZIA KANT – O grande filósofo Kant, no século 18, alimentava uma ideia semelhante, crendo que, uma vez provado que seria racional agir de forma x, agiríamos de forma x. Essa ideia ficou conhecida como imperativo categórico: “aja de forma tal em que sua ação seja erguida em norma universal de comportamento”.

Por exemplo, quando for fazer x, se pergunte se todo mundo poderia fazer x. Se não, não faça x. Busque outro curso de ação em relação ao problema em questão. Apesar da elegância da fórmula, e de reconhecer que seria uma ideia boa para o convívio em grupo, e que de fato ajuda quando viável, não creio que o sapiens seja capaz de agir assim só porque seria racional pensar no todo antes de fazer algo. E digamos de passagem que Kant não estava pensando exatamente em “valores” como hoje se costuma falar em qualquer propaganda de banco.

TABELA DE VALORES – O senso comum entende que respondemos à pergunta que fiz na abertura dessa coluna acima a partir de uma abordagem pedagógica, isto é, ensinando as pessoas, nossas empresas, nossa família, o que quer que esteja em jogo, os valores certos que devemos ter.

Muitos chegam mesmo a propor uma tabela de valores a serem seguidos ou tomados como “nosso DNA ético”. A fórmula chega mesmo ao cúmulo do ridículo, mas o século 21 é o mais ridículo desde o paleolítico superior.

Nesse movimento, normalmente, seguimos na direção de uma pedagogia moral —ou política, o que seria ainda mais canalha estruturalmente— que pregaria valores como integridade, humanidade, honestidade, transparência, generosidade, e por aí vai. A lista é tão bela que faria almas mais sensíveis derramar lágrimas de amor à humanidade e a quem afirma ter tantos valores perfeitos idealmente.

APENAS EM TEORIA – Arrisco dizer que para quem de fato gostaria de pensar acerca dos “valores no século 21”, a melhor abordagem seria um olhar sociológico sobre o que de fato valoramos, ou não atribuímos valor algum, em nosso cotidiano individual, social e político, porque, como sabemos, não existem valores —ou virtudes— teóricos, mas apenas práticos.

A ética é, sempre foi, e sempre será, como dizia o grande Aristóteles (384-322 a.C), uma ciência da prática.

Alguém já viu alguém ser corajoso em teoria? Generoso em teoria? Honesto em teoria? Evidentemente que não, a não ser que a pessoa em questão seja um político de carreira.

REINA A HIPOCRISIA – Um problema a priori que impacta toda reflexão sobre valores é que a hipocrisia é a substância da moral pública. Hoje, talvez, mais do que nunca, porque quase 100% da humanidade sinaliza virtude no Instagram. Valores hoje são objeto do marketing e do branding, ciências sociais aplicadas da mentira como método.

Aliás, o que podemos depreender dessas práticas listadas no parágrafo imediatamente acima? Podemos depreender que a vaidade moral —sinalizar virtude no Instagram— é algo que valoramos muito neste século 21, já que todo mundo reconhece na vaidade moral uma prática que agrega valor a sua marca pessoal ou da sua empresa.

Por outro lado, se as ciências máximas da mentira no século 21, a saber, o marketing e o branding, são aplicadas hoje em todos os níveis da atividade humana, tais como saúde mental, instituições escolares, religião, revoluções políticas, causas sociais e ética, podemos deduzir que um valor no século 21 é a mentira como ferramenta profissional.

COMO PROCEDER? – Entendeu como proceder para identificar um valor ou desvalor na prática social? Veja o que as pessoas acreditam que agrega valor a elas e, portanto, praticam de fato, e não o que elas dizem que valoram ou negam valor. Em resumo: não importa o que falam, mas o que fazem, aliás, uma ideia que até crianças conhecem, menos os “adultos” do século 21.

Outro exemplo: filhos são um não valor no século 21, porque caso fossem um valor, as pessoas os teriam, mas como não os têm, evidentemente veem a prática de pôr crianças no mundo como um não valor, logo, o valor que decorre dessa prática é não assumir responsabilidade por ninguém.

Enfim, resumindo: vaidade moral, mentir e egoísmo são valores no século 21. Ter filhos, não.


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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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