domingo, setembro 28, 2025

“Polícia e ladrão” é brincadeira de adultos e se chama polarização


Nani Humor: POLARIZAÇÃO

Charge do Nani (nanihumor)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Nos tempos ancestrais, quando crianças brincavam na rua, sem paranoia —hoje, os pais de crianças estão entre os grupos mais paranoicos—, uma brincadeira comum era “polícia e ladrão”. Um grupo de crianças era a polícia e o outro, os ladrões.

Talvez você fosse processado hoje caso brincasse de polícia e ladrão por grupos que defendem o direito de os ladrões serem ladrões, mas o fato é que brincar de polícia e ladrão hoje é assunto para adultos. O nome da brincadeira agora é “polarização”.

REGRESSÃO PSÍQUICA – No fundo, trata-se de uma regressão psíquica em que os sujeitos pretensamente adultos voltam ao pega-pega.

Um traço dessa antiga brincadeira de rua era que não havia um terceiro possível —ou você era polícia, ou você era ladrão. Também no caso da brincadeira de polícia e ladrão para adultos, a polarização, não há uma terceira posição possível. Trata-se, se usarmos expressões chiques, de um não lugar.

Estar no não lugar ou ser um não lugar, implica um processo crescente de silêncio, porque este lugar que é o não lugar tende a ser expulso da linguagem.

SERÃO INIMIGOS – Em breve, estes ocupantes do não lugar serão aqueles que não falaremos o nome por serem inimigos dos dois polos que têm lugar de fala em seus territórios de violência.

Se em algum momento quem ocupa um não lugar foi considerado uma qualidade positiva por não ser reduzido a nenhum dos dois polos regressivos, este logo estará simplesmente em lugar algum por não ter espaço na linguagem pública. E quem não tem espaço na linguagem pública, desaparece com o tempo.

Assim como na brincadeira de rua não havia um terceiro possível, na sua versão para adultos, a tendência é que os dois polos devorem qualquer espaço entre eles. Ou você está conosco, ou com eles. O terceiro possível que se torna, assim, impossível, é sempre um traidor.

JOGO DE LINGUAGEM – A palavra pública na polarização implica um jogo de linguagem em que o terceiro impossível é reduzido a uma forma de linguagem privada, o que por definição não existe, segundo o espírito da filosofia de Wittgenstein.

 

Emudece o mundo que não se define como A ou –A, em que A sou eu e –A, o mal em si. E não há como não emudecer uma vez que, assim como na brincadeira das ruas era impossível não ser polícia ou ladrão, no mundo polarizado dos adultos, a briga é séria, pois o que está em jogo é o monopólio legítimo da violência. E quando este está em jogo, brinca-se para matar.

A catástrofe da política como arte do possível é a igualdade entre política e santidade. Qualquer um que no espectro político não esteja identificado com algum tipo de autodefinido bem será visto como puro pântano, como se dizia nos tempos da revolução francesa acerca do centro político.

LEITURA TEOLÓGICA – Nos tempos ancestrais da leitura teológica de mundo —vale dizer que foi a teologia a primeira a matar a teologia quando esta se fez imanente ao mundo da política—, o terceiro possível era a graça. Apenas ela podia restaurar o mundo. Morto Deus, a política tomou o seu lugar, fazendo-se “des-graça”.

No Brasil de hoje, se você é contra o PT, assume-se que necessariamente você deva ser bolsonarista. O contrário também é fato: se você é contra o bolsonarismo, você deve ser PT. Eis a pobreza de espírito em ação. Não ser nenhum dos dois implica você estar num não lugar.

 

A política como arte do possível está morta quando todos se identificam com uma forma de plenitude moral. Esta arte do possível que é a boa política —que não é a política do bem— só é possível quando os agentes que nela atuam se sabem representantes de seres excluídos, por definição, de qualquer forma de bem que lhe seja intrínseca.

MILITANTES CHATOS – Alguma polarização política sempre existiu quando as pessoas se tornam militantes chatos. Mas, hoje, essa obsessão alcançou níveis antes inimagináveis: até o parecer jurídico no STF é político ou não é nada.

“O juiz que discorda de mim é lixo”, diz a turba. Celebram-se assassinatos de adversários políticos abertamente nas redes e à boca pequena. A polarização destruirá a democracia em breve.

Se a Justiça começar a fechar veículos de imprensa em nome da defesa da democracia, teremos a prova cabal de que tal argumento, “em defesa da democracia”, virou uma chave essencial para a já instalada censura de caráter jurídico no país. A democracia terá degenerado em oligarquia jurídica e num governo desses poucos fazem o que querem com muitos.


Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas