sexta-feira, setembro 26, 2025

ANISTIA, CONFRONTO E GOLPE

 


Publicação de QuarentenaNews


ANISTIA, CONFRONTO E GOLPE
Por Alberto Penna Firne*
Em um Estado de Direito seus súditos, quer dizer, todos os que nele vivem ou estejam, estão protegidos contra a arbitrariedade e os abusos do próprio Estado. Daí a importância da advocacia, da máquina judiciária, das garantias da magistratura e do princípio de freios e contrapesos, pelo qual um “poder” inibe ou coíbe os abusos dos demais. Aliás, esta é a origem do habeas corpus, que já existia há mais de quatro séculos na Inglaterra, quando foi disciplinado por lei em 1679. A pedra angular do sistema de equilíbrio de forças políticas estatais ― os três “poderes” ― são os órgãos judiciários. No Brasil, ao conjunto desse órgãos dá-se o nome de Poder Judiciário, que é contramajoritário e só atua por provocação.
No intuito de proteger as pessoas dos excessos do poder, há direitos fundamentais e suas garantias. Um desses direitos e uma dessas garantias constam do inciso XXXIX do art. 5o da Constituição da República. A norma diz que “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. É da nossa tradição constitucional. A regra também consta do art. 1o do Código Penal, cujo art. 2o estabelece, no caput, que “ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória.” O parágrafo único arremata: “a lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado.”
Como é flagrante e indiscutivelmente inconstitucional o projeto da anistia que tramita no Congresso Nacional e que é destinado a beneficiar não apenas a arraia miúda do 8 de janeiro, mas, sobretudo, os integrantes da organização criminosa que planejou um golpe de estado depois da vitória de Lula, inclusive com assassinatos, seu relator, Paulinho da Força (Solidariedade-SP), quis agradar a gregos e troianos. Tirou uma carta da manga: a de transformá-lo em “projeto de lei da dosimetria”. Sua Excelência domina a arte de empurrar com a barriga crises, impasses e problemas; sabe acochambrar bem, conhece a arte da prestidigitação política, afinal ele é uma espécie de pelego pós-moderno, edição revista, ampliada e atualizada de um tipo de liderança como foi, por exemplo, a de Ari Campista (1911-1991) no âmbito sindical, catapulta da qual o metalúrgico Paulo Pereira da Silva, depois de fundar sua própria central de trabalhadores, a divisionista Força Sindical, catapultou-se para a glória brasiliense. Deputado federal desde 2006, alinhou-se à direita e chegou a integrar a tropa de choque de Eduardo Cunha. O homem tem história.
Paulinho propõe a excrescência jurídica que é reduzir as penas dos crimes pelos quais foram condenados os que integraram a massa de manobra do 8 de janeiro e os biltres da organização criminosa que pretendeu dar um golpe de estado para manter no poder o Presidente da República que não conseguiu se reeleger em 2022, o capitão acima de todos. E de tudo. Pela proposta de algibeira, todos os crimes pelos quais essa gente foi condenada teriam suas sanções diminuídas, inclusive os de abolição violenta do Estado Democrático de Direito (CP, art. 359-L) e de golpe de estado (CP, art. 359-M).
Se isso se converter em lei e se sua manifesta inconstitucionalidade não for declarada pelo próprio Supremo Tribunal Federal, a corte terá de rever todas as penas aplicadas aos réus já condenados, inclusive o chefe da organização criminosa golpista. É o que determina o parágrafo único do art. 2o do Código Penal.
Parlamentares que defendem o projeto alternativo de Paulinho afirmam que obtiveram sinal verde dos ministros do STF. Muito esquisito.
De público, nenhum deles disse algo nesse sentido. Mas se essa sinalização houve, trata-se de conchavo. Não se deve esquecer que em inusitada, vergonhosa e despudorada mancomunagem com o Ministério Público incorreram os juízes da Lava-jato, fiados sabe-se bem em que (afinal, “in Fux we trust”). Deu no que deu. Agora, com o tal PL da dosimetria, além do fedor que exalaria, o conluio, a trama, a maquinação seria a capitulação de oito magistrados do STF à sanha trampobolsonarista: Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Gilmar Mendes, Carmen Lúcia, Cristiano Zanin, Flávio Dino e, claro, Alexandre de Moraes, objeto de ódio mortal, aliás, mortal mesmo, de Bolsonaro, Trump e companhia ― não se esqueça: ele chegou a ser tocaiado pelos sicários do golpe, que só não o mataram porque receberam contraordem na última hora, sabe-se lá o motivo.
Preferindo-se acreditar que ministros do STF não se prestaram ao escuso papel, o projeto, uma vez tornado lei, criaria tensão entre poderes da República, dada sua gritante inconstitucionalidade, primeiro porque não teria generalidade nem abstração, pois seu objetivo foi beneficiar pessoas certas e determinadas; segundo, porque, concebida para enfraquecer as recentes condenações judiciais da liderança do golpe, revelaria afronta ao princípio da tripartição dos poderes, expresso no art. 2o da Constituição da República. A norma estabelece que “são Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.”
Paulinho, contudo, esforçou-se em vão, coitado. Provavelmente o projeto será rejeitado. O líder máximo da organização golpista e sua gangue não querem redução de penas, querem confronto. Confronto é crise e crise é o caldo de cultura de um golpe de estado. Eles não aceitam nada menos do que anistia ampla, geral e irrestrita, algo incapaz de lhes tolher planos e ações, muito menos nova tentativa golpista. Insistem em afrontar, com uma lei inconstitucional, condenações judiciais impostas com absoluto respeito ao devido processo legal. O due process of law, é bom que se diga, não é coisa de comunista. Teve, como primeira grande proclamação escrita, a Magna Carta, na Inglaterra, em 15 de junho de 1215. O Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, primeira grande proclamação escrita do comunismo, veio a público em 21 de fevereiro de 1848, ou seja, mais de 633 anos depois.
É claro que se o projeto da anistia tiver êxito e se tornar lei, vai haver mais tensão entre Legislativo e Judiciário. Lógico. Sua inconstitucionalidade será de algum modo arguida e com certeza decretada. Desse rumo é impossível desviá-la e paradoxalmente a ingerência e a chantagem dos EUA em favor dos golpistas o torna caminho irreversível. A recente aplicação da Lei Magnitsky à esposa do ministro Alexandre de Moraes foi ato que torna ainda mais impensável qualquer perdão aos criminosos. Foi um tiro no pé dos brasileiros que têm conspirado contra o Brasil, sua Economia, suas instituições e seu povo, tudo em prol de um ditador frustrado e de sua perniciosa quadrilha. Para essa grei, a sanha estadunidense não tem se revelado boa química.
*Alberto Penna Firme é jurista.
FOTO: Correio Brasiliense
Bandeira é erguida pelo povo nas ruas: anistia a golpistas só v
ai trazer prejuízos ao Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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