domingo, setembro 28, 2025

“Caminharemos de olhos vendados para o abismo”

Giovana Girardi, da Agência Pública giovana.girardi@apublica.org

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, nesta terça (23), o presidente Lula fez um apelo para que todos os países apresentassem suas novas metas climáticas. Sem isso, disse: “caminharemos de olhos vendados para o abismo”. Não foi retórica.


O presidente, mirando os resultados da COP30, a Conferência do Clima da ONU que será realizada em Belém, em novembro, estava se referindo à necessidade dos países apresentarem neste ano suas novas NDCs – sigla em inglês para contribuições nacionalmente determinadas.  


No jargão das negociações climáticas, as NDCs são os compromissos assumidos por cada país junto ao Acordo de Paris de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. A primeira versão das NDCs foi apresentada há 10 anos, na COP de Paris, seguindo um princípio de que cada nação colabora com aquilo que pode, sem imposição – daí a expressão “nacionalmente determinada”.


Isso foi fundamental para colocar todo mundo a bordo, mas, nesse espírito quase de “vaquinha pelo clima”, todo mundo prometeu só o que achava que conseguiria entregar, sem muita ambição. E, ao fazer a conta, viu-se que as metas ficavam muito aquém do necessário para cumprir o objetivo maior do Acordo de Paris, que é conter o aquecimento global em 1,5°C. Ainda estamos no rumo de quase 3°C.

Por isso se decidiu que as NDCs tinham de ser periodicamente revistas e agora, quando se comemoram 10 anos do acordo, chegou o momento de apresentar metas mais ousadas, condizentes com o necessário para evitar um aumento de temperatura catastrófico.

Só que o conturbado cenário geopolítico internacional não está exatamente favorável à ação climática. As entregas deveriam ter sido feitas até fevereiro – o que quase ninguém cumpriu –, então houve um chamado do presidente Lula e do secretário-geral da ONU, António Guterres, para que isso fosse feito até a Semana do Clima de Nova York, que coincidia com a Assembleia Geral da ONU.


Nesta quarta-feira (25), foi realizada a Cúpula do Clima, liderada por Lula e Guterres – um momento de mobilização para serem apresentadas as novas NDCs. “A ciência demanda ação. A lei exige. A economia compele. E as pessoas estão clamando por isso. Estou ansioso para saber como vocês responderão”, provocou Guterres, na abertura do evento de alto nível, com a presença de vários chefes de estado.


Lula também fez um novo apelo: “O Acordo de Paris deu aos países a liberdade de formular metas de redução de emissões condizentes com suas realidades e capacidades, mas a apresentação de NDCs não é uma opção, como deixou claro a Corte Internacional de Justiça. É uma obrigação”, disse, referindo-se à decisão do mais alto tribunal da ONU de que é obrigação dos países agirem contra a crise climática.


E seguiu: “Em um mundo em que graves violações se tornaram corriqueiras, deixar de apresentar uma NDC parece um mal menor. Mas sem o conjunto das NDCs, o planeta caminha no escuro. Só com o quadro completo saberemos para onde e em que ritmo estamos indo”.


O presidente brasileiro voltou a usar uma expressão que ele já tinha usado no discurso na Assembleia Geral, de que esta será “a COP da verdade”.

“Essa COP vai ter de dizer se nós acreditamos ou não no que a ciência está nos mostrando. Se nós, líderes e chefes de estado, confiamos na ciência, nós vamos ter que tomar decisões, porque, se não tomarmos decisão, a sociedade vai parar de acreditar em seus líderes. E, em vez de fortalecermos a luta contra o aquecimento global, estaremos ajudando a desacreditar a política, o multilateralismo e a democracia. Todos perderemos, porque o negacionismo poderá vencer”, afirmou.

Vários países, de fato, fizeram suas novas submissões. Houve discursos de mais de 40 chefes de estado, mas “a verdade” é que talvez a gente ainda continue caminhando no escuro. E a COP30, em Belém, vai precisar responder a isso de algum modo.


A maior expectativa dos anúncios vinha da China. O país já há alguns anos é o maior emissor de gases de efeito estufa – responde por cerca de ⅓ das emissões globais e, em sua primeira NDC, tinha apenas prometido atingir o pico de emissões de dióxido de carbono por volta de 2030, se possível, antes.


Pequim havia sinalizado que agora traria de fato uma meta de redução das emissões de CO2 de modo amplo para toda a economia do país. Isso de fato ocorreu, mas ficou muito aquém do necessário.


Em um anúncio feito por videoconferência durante a cúpula, o presidente Xi Jinping se comprometeu em reduzir as emissões entre 7% a 10% até 2035 em relação ao pico, que ainda não se sabe se já foi alcançado. A promessa frustrou as expectativas de especialistas, que esperavam que ele trouxesse uma meta de redução de pelo menos 30% – número que seria mais condizente com o objetivo do Acordo de Paris.


O números de países com novas NDCs chegou a 53 ontem, mas é preciso que a maior parte dos 198 países que assinaram o Acordo de Paris faça isso. Grandes emissores faltaram à Cúpula do Clima, como Índia, Indonésia e Canadá, que cancelou a participação de última hora. E a União Europeia fez apenas uma “declaração de intenções” de que vai submeter formalmente sua NDC antes da COP30.


Já os Estados Unidos, segundo maior emissor da atualidade e o maior histórico, até tinham apresentado a nova meta no fimzinho da gestão de Joe Biden. Mas com Donald Trump tirando o país do Acordo de Paris, mentindo sobre a crise climática (que ele chamou de “maior farsa” em seu discurso na ONU) e fazendo de tudo para aumentar a produção de combustíveis fósseis, já sabemos que nenhuma contribuição para conter o aquecimento global de fato virá de lá.


Ou seja, as perspectivas não são boas.


“A diplomacia climática baseada em compromissos políticos como as NDCs não está funcionando no mundo de hoje. De um lado, a economia real avança mais rápido, como no caso da China. De outro, governos prometem mais e fazem menos. E ainda há os recalcitrantes, que lutam contra a transição. Estamos em um momento crítico e difícil. Belém vai ter que dar uma resposta coletiva, que neste momento ninguém sabe qual será”, me disse a especialista em política climática Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa.


Alguns analistas lembraram, porém, que a China costuma ser bastante conservadora nas suas metas, mas tende a fazer mais do que prometeu. Isso tem sido observado nos últimos anos, com um aumento bem maior do que o esperado na entrada de energia eólica e solar na matriz energética chinesa.


“A China tem esse hábito de prometer menos e entregar mais. Eles geralmente, quando assumem um compromisso, é porque a situação no mundo real na China, o ritmo de transformação é mais elevado que a promessa que eles fizeram. Então é super positivo a China ter uma meta absoluta, apesar de ser um absoluto bizarro, porque é em relação a um pico de emissões que a gente não sabe se eles atingiram ou não”, comentou Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.


De todo modo, pondera ele, com o que está prometido neste momento, as NDCs certamente ainda colocam o planeta no rumo de aquecer muito mais do que 1,5°C. Lembrando que, ao menos temporariamente, já ultrapassamos esse limite no ano passado.


Um pouco antes de começar a COP de Belém, cientistas vão divulgar um relatório fazendo justamente essa conta sobre o que as novas NDCs, se totalmente cumpridas, poderão resultar sobre a temperatura do planeta. Como o resultado deve ser ruim, a COP terá de apresentar algo a respeito. Lula sabe disso e ontem mesmo admitiu que a bola estará com Belém.


Quer saber o que podemos esperar disso? Escute a temporada especial do podcast Tempo Quente, que faz um esquenta para a COP30. A gente fala de NDCs, de financiamento, de combustíveis fósseis e muito mais.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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