segunda-feira, setembro 29, 2025

MPB vira motor da resistência contra anistia e blindagem parlamentar


Artistas integraram um dos momentos conturbados da política

Gustavo Zeitel
Folha

O cantor e compositor Caetano Veloso escolheu “Alegria, Alegria”, canção que compôs em 1967, para figurar em seu ato contra a anistia e a PEC da Blindagem no domingo (21), no Rio de Janeiro. O sentido de convocação já se anuncia nos três primeiros acordes: mi maior, lá maior e dó sustenido maior. A progressão interpela o ouvinte, deixando-o atento e forte para acompanhar a letra que se segue à introdução ribombante.27

Em um dos maiores protestos da esquerda desde a eleição de 2018, os artistas da MPB cumpriram um papel fundamental para mobilizar a militância, avaliam especialistas ouvidos pela Folha. Ademais, os protestos em todo o país evidenciaram a natureza impopular da PEC da Blindagem, que poderia dificultar investigações contra deputados e senadores e que acabou enterrada pelo Senado nesta quarta (24).

IMPASSE – De todo modo, a conjuntura apresenta agora um impasse ao campo progressista, que busca manter a mobilização, com lideranças difusas e Lula (PT) um pouco distante, e resgatar uma identidade.

Os atos foram anunciados às pressas pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Trabalhadores Sem Teto), apoiados pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. O chamamento só se intensificou, no entanto, quando a classe artística aderiu à causa.

Em especial, Caetano e Paula Lavigne, sua mulher e empresária, lideraram a iniciativa para a realização dos protestos. Mesmo que em São Paulo políticos tenham discursado, o protagonismo ficou com artistas, como Chico Buarque, Ivan Lins, Geraldo Azevedo e Gilberto Gil, que entoaram clássicos da música popular brasileira. Em entrevista à Folha, Lavigne disse que a manifestação não foi da esquerda, mas da sociedade civil como um todo.

MOBILIZAÇÃO – Autor dos livros “Viagem do Recado” e “O Som e o Sentido”, José Miguel Wisnik afirma ter ficado evidente a capacidade de mobilização política dos compositores. Afinal, a canção tem a capacidade de “dar o sinal de alerta para ameaças em curso, de acender o desejo de vontade política e de corresponder a um sonho de nação, entorpecido e manipulado pelas motivações torpes”.

“A canção no Brasil é uma imensa reserva de sensibilidade não autoritária e, no caso de domingo, antifascista”, diz Wisnik, também cantor e compositor. “A política é uma festa da memória compartilhada, dos afetos de afirmação da vida, do sonho de um povo inclusivo.”

Ao longo do século 20, os artistas intervieram em momentos conturbados da política. No ato musical, “Cálice”, de Chico e Gil, lembrou o enfrentamento à ditadura, e “Vai Passar”, parceria de Chico com Francis Hime, a redemocratização.

CICLO HISTÓRICO – “Artistas como eles fazem parte de um ciclo histórico que remonta a mais de meio século, mas não são datados, como acontece com as artes fortes, mas com particularidade de ser aquilo que mais parece segurar as pontas do Brasil quanto tudo degringola. Ainda. Por que não?”, questiona Wisnik.

Apesar da derrubada no Senado da PEC da Blindagem, o Congresso ainda articula uma proposta de redução das penas dos condenados pela tentativa de golpe de Estado de 2022 e 2023. O projeto poderia beneficiar também o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a mais de 27 anos de prisão.

Além do chamamento da classe artística, a esquerda foi às ruas pela natureza impopular da PEC, afirma Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político da FGV. “Ficou evidente que a proposta é uma medida de autoproteção. Foi um tiro no pé, até porque a indignação mobilizou o povo.”

MILHARES NAS RUAS – Segundo a USP, os atos se equipararam, em público, à manifestação bolsonarista do 7 de Setembro. Estiveram no domingo 41,8 mil pessoas no Rio de Janeiro e 42,4 mil em São Paulo.

Cientista político da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Leonardo Avritzer diz que, desde a conjuntura antes do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a esquerda não se organizava de maneira tão engenhosa. O dilema, afirma, é o cenário com lideranças difusas no campo progressista. Por isso, é improvável manter a mobilização só com a classe artística.

“Ainda é cedo para dizer que a esquerda retomou as ruas e acho que é pouco provável que os artistas sejam capazes de atuar conjuntamente em todas as pautas de esquerda”, afirma ele.

RESGATE – Também cientista político, Paulo Henrique Cassimiro, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), diz que o campo progressista precisa ainda resgatar uma identidade. Ele diz ter havido um erro de cálculo político por parte do centrão, com a PEC da Blindagem sendo aprovada no mesmo momento em que se discute a dosimetria.

Cassimiro afirma que a PEC da Blindagem gerou custo político para a proposta de redução de penas aos golpistas. Afinal de contas, os atos de domingo se posicionaram contra as duas matérias.

“O motor dessa mobilização foi a insatisfação com o Congresso, que hoje tem a pior avaliação entre as instituições do país”, diz. “Os atos mostraram um caminho para o campo da esquerda. Se Paula Lavigne conseguir articular um ato desse toda vez que for necessário.”

DEPENDÊNCIA – O protagonismo de Caetano, Chico e Gil também pode ser explicado, segundo diz o professor, pela figura de Lula, que não produziu sucessor à altura. Em sua visão, o campo progressista tornou-se muito dependente do presidente, que manteve certa distância dos protestos. Como mostrou a Folha, o objetivo dele foi não gerar ainda mais atrito com o Congresso Nacional.

“Lula assumiu a posição tradicional que o estadista deve assumir, mas, pensando o que é política hoje, ele deveria ter se posicionado mais. A neutralidade não vai trazer mais capital político, inclusive por parte do centrão.”

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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