sexta-feira, fevereiro 25, 2022

Steven Pinker e a nossa reconexão com a razão

 

Steven Pinker 


Por Eduardo Wolff 

Os últimos anos não foram fáceis para as mentes otimistas. Aqueles que partilham dessa vocação mental para a compreensão do mundo em uma chave positiva, apegando-se ao progresso material e científico experimentado pela humanidade e à expansão de melhorias concretas na vida de uma parcela considerável da população global, viram-se confrontados recentemente não apenas com a mais tremenda pandemia global em um século, responsável por paralisar economias e sociedades inteiramente por longos períodos, mas também com um aumento expressivo da desigualdade em escala planetária, com a emergência de novas e mais radicais modalidades de extremismos políticos e religiosos e com a erosão de dois dos pilares mais básicos de todo o otimismo que alimenta o Ocidente desde o Iluminismo: o respeito à ciência e à democracia.

Como seguir otimista em um mundo arrasado por uma onda de governantes autoritários e populistas que fizeram de seus mandatos um período de destruição da democracia liberal e de suas preciosas e frágeis conquistas, como foi o caso com Donald Trump nos Estados Unidos? Em que termos poderia se dar qualquer forma de otimismo quando, mesmo enfrentando uma mortífera pandemia global como é o nosso caso com o COVID-19, testemunhamos uma avalanche de fake news e de desinformação deliberada de tremendo potencial não menos mortífero do que o próprio vírus – de supostos “tratamentos precoces” a incríveis campanhas antivacina? 

Ninguém melhor que Steven Pinker para oferecer a resposta a essas e outras questões que tanto têm consumido nossas boas energias mentais em tempos pandêmicos e de derretimento de nossas democracias e seus espaços públicos. O psicólogo experimental e professor da Universidade de Harvard, autor de obras consagradas de divulgação científica tais quais Como a mente funciona e Tábula Rasa, lançou em 2018 o livro O Novo Iluminismo - Em defesa da razão, da ciência e do humanismo (todas as obras publicadas pela Companhia das Letras no Brasil), uma alentada defesa do progresso vivido pela humanidade nos últimos três séculos. Não é por acaso que, quando escreveu O Novo Iluminismo, Pinker identifica-se em populistas autoritários como Donald Trump mais do que uma ameaça à democracia: o próprio progresso humano estaria em cheque se nossa política fosse solapada por figuras obscurantistas e contra-iluministas como Trump.

Para Pinker, foi graças ao complexo e altamente positivo processo de desenvolvimento das sociedades modernas nos últimos trezentos e tantos anos que obtivemos algumas das conquistas mais extraordinárias de toda a história humana: a produção de riqueza nunca foi tão grande, e especialmente no período do final do século XX, a diminuição da pobreza extrema tornou-se evidente; a melhoria das condições de saúde é espantosa, com doenças letais responsáveis, no passado, por dizimar populações inteiras, tendo sido erradicadas; o aumento na expectativa de vida é espantoso; o número de países em que os direitos legalmente garantidos a minorias cresceu exponencialmente. Até mesmo em áreas como segurança, quando analisados os números, Pinker encontrou dados empíricos bastante positivos: vivemos, sim, com mais segurança do que no passado pré-moderno.

Esse processo de desenvolvimento, identificado por Pinker de maneira mais ou menos geral como “Iluminismo”, é o que, em uma visada mais ampla, poderíamos chamar de Modernidade: foi nesse período de trezentos e tantos anos que o capitalismo, o liberalismo, a democracia e a ciência consolidaram-se como o framework básico das sociedades ocidentais. É contra essa visão de mundo – moderna, iluminista, fundada na razão e num amplo entendimento da liberdade – que os populismos autoritários que tomaram de assalto o mundo nos últimos anos se insurgiu.

O engajamento de Pinker, à época, não era político: o autor canadense não estava interessado em discutir com os defensores do populismo autoritário emergente. Seu trabalho tampouco voltava-se para uma explicação sociológica acerca do fenômeno. Nada disso. O Novo Iluminismo era uma espécie de vacina: uma tentativa de nos proteger contra o vírus da mentalidade anticientífica, irracional, antidemocrática e iliberal que vinha ganhando cada vez mais adeptos. Para Pinker, mais informação, mais conhecimento, acesso aos dados altamente positivos de nosso progresso material científico.

Como se pode imaginar, o ano de 2020 não contribuiu muito para que o público fosse convencido da visão otimista de Pinker. Em matéria de erosão democrática, o mundo inteiro acompanhou a escalada de fraude e delírio de Donald Trump, que, derrotado nas eleições americanas, desferiu golpes sequenciais àquela que é a mais longeva democracia do mundo (culminando com uma invasão por uma multidão armada do Capitólio, resultando em circo mortos). Os episódios de racismo nos Estados Unidos e no mundo ganharam uma dimensão tremenda, em particular a partir do brutal assassinato de George Floyd, vítima de um sistema de polícia inequivocamente racista. Mas foi a pandemia de COVID-19, é claro, que representou o maior choque para todos nós.

Que tipo de otimismo poderíamos demonstrar quando vimos não apenas o avanço de uma doença assustadora que ceifou milhões de vidas? Como ser otimista quando, mesmo em face da espantosa contaminação pelo vírus, explosões irracionalistas e anticientíficas aconteceram por toda parte, numa mistura de negacionismo científico e demagogia libertária, resultando em mais mentiras espalhadas, mais contágio, mais mortes e mais caos?

É bem verdade que essa reticência – para não dizer esse “pessimismo”— é uma forma muito plausível de encarar as coisas. Não para Steven Pinker. Para esse incansável militante do progresso humano, é precisamente nesse agora que mais precisamos da ciência, de nossa esplêndida capacidade racional, de nossa confiança na tecnologia, nos dados e nos fatos.

Seu mais recente livro é uma profissão de fé na Razão. Rationality: What It Is, Why It Seems Scarce, Why It Matters (“Racionalidade: O que é, por que parece rara e por que importa”, ainda sem previsão de lançamento no Brasil) pretende oferecer justamente uma resposta para esta questão que tanto nos aflige: como conseguimos produzir uma vacina para COVID-19 em menos de um ano – um feito extraordinário! – e, ao mesmo tempo, nos enredar em tanta mentira, notícias falsas, teorias conspiratórias e pseudo-ciência?

O livro de Pinker será certamente leitura obrigatória para todos os que querem entender nosso tempo e se reconectar com os fundamentos de uma vida em sociedade mais saudável, esclarecida e tolerante. Que ele mostre os caminhos para esta reconexão também em sua conferência para o Fronteiras do Pensamento em 2021, em sua segunda passagem pelos palcos do projeto.

Fronteiras do Pensamento

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