terça-feira, maio 23, 2006

Vannuchi, Genro... exibições explícitas de oportunismo

Por: Rui Nogueira (Primeira Leitura)


Instalou-se em parte da mídia e do debate parlamentar aquilo que alguns jornalistas e políticos já apelidaram de um “empurra-empurra entre PSDB e PT” sobre a crise da segurança pública em São Paulo – em todo país, a rigor. Trata-se de mais uma vitória do princípio petista do empate cínico sobre o signo do já manjado “somos todos iguais”. Reduzir o bom debate a um “empurra-empurra” torna tudo mais fácil, mais rasteiro.
Essa linha de raciocínio evita que se apresentem os números, os orçamentos, que se detalhem as responsabilidades circunstâncias e as responsabilidades estruturais. Abre-se, assim, uma planície para o cinismo sem limites liderado pelo presidente da República, secundado pelo ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) e suplantado pela ignorância indômita do secretário Paulo de Tarso Vannuchi, dos Direitos Humanos.
Entusiasmado com a prosa destrambelhada do governador Cláudio Lembo (PFL), aquela que responsabiliza o descaso social da “elite branca” pela violência em São Paulo, Vannuchi chafurdou no lamaçal pensante corrente e deu a contribuição dele à baixaria sociológica reinante. Ele disse, na Folha de S.Paulo desta segunda-feira, que o elitismo brasileiro “tem suas raízes no nosso passado colonial escravista” e revelou preocupação com “toda a simbologia que há no episódio Daslu”. Assim, do quase nada, eis a Daslu no debate!
O ministro Vannuchi podia ter parado por ali, assim, como quem cria uma situação apenas provocadora, apenas propositalmente maldosa. Que nada! Ele “sociologou” em cima, querendo demonstrar a solidez do pensamento, e mandou ver sobre as lojas Daslu, em São Paulo, exibindo toda a desqualificação mental possível: “Primeiro, aquele monumento faraônico de exaltação de um luxo que funciona como uma espécie de insulto aos miseráveis que vivem do lado e a presença do ex-governador [Geraldo Alckmin] em festas da Daslu. Em seguida, o envolvimento da Daslu em práticas que estão ainda em investigação, mas com fortes indícios de graves sonegações fiscais. Isso é o retrato de uma certa elite brasileira”.
Esse homem, mestre em ciência política pela USP, amigo de Lula, ex-presidente do Instituto Cidadania (um dos braços financeiros do petismo travestido de ONG social), ex-assessor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo (SP) e secretário-executivo do comitê central da campanha de Lula à Presidência, em 2002, é secretário com status de ministro da República Federativa do Brasil. Ele é mestre em ciência política, mas não se dispõe a fazer um raciocínio, tão ligeiro quanto o da Daslu, sobre o exemplo edificante do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, condestável da ética nacional, no Planalto, a exaltação à faraônica corrupção patrocinada pelo mensalão e o insulto que a “quadrilha” petista perpetrou no poder.
A intimidade de Alckmin com a Daslu é tão republicana que a empresária foi investigada e responde, dentro da lei, ao que o Estado de Direito quiser saber dela. É da vida democrática, que estabelece as regras do direito de acusação e de defesa. Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT que acendia charutos na boca de Lula, nunca teve suas propriedades invadidas pela PF atrás das provas do relacionamento criminoso entre o PT, Marcos Valério e companhia. Tudo azeitado, como diria o mestre Vannuchi, em “fortes indícios” de corrupção institucional sem-par na história do país.
Genro: outra perdiçãoDescompostura institucional foi notada, no sábado passado, pelo editorial da mesma Folha de S.Paulo, intitulado Palanques de Sangue, sobre as declarações recentes do ministro Tarso Genro em torno da crise paulista. O jornal foi ao ponto, com palavras que não admitem mais rodeios: “Uma das mais lamentáveis exibições de oportunismo eleitoral sobre o sofrimento e o sangue alheios”. O editorial disse ser natural que o “tema da segurança pública [entre] na lista de principais discussões nas campanhas eleitorais neste ano”, e acrescentou onde Genro se situou nesse debate. Eis alguns trechos do editorial, que destaquei em nota na edição do fim de semana, mas transcrevo aqui novamente:“Irresponsável” – “Nada justifica a partidarização irresponsável da selvageria promovida pelo PCC, desrespeitando o luto de familiares dos agentes da lei covardemente assassinados, perdendo de vista que o crime organizado é inimigo comum de todos os políticos comprometidos com o Estado de Direito”.
“Oportunismo eleitoral” – “Das mais lamentáveis exibições de oportunismo eleitoral sobre o sofrimento e o sangue alheios foram algumas frases do ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro. Na quarta, o petista atacou o governo paulista, dizendo que preferiu ‘negociar com criminosos’ a aceitar ajuda federal para debelar a crise”.
Esperteza – “Nem se mencione o fato de Genro esconjurar ‘negociações com criminosos’ pouco depois de 11 petistas ou ex-petistas terem sido denunciados criminalmente pelo mensalão. Frise-se que o ministro apenas revelou sua indignação num momento preciso: após o Datafolha ter mostrado que a maioria dos paulistanos gostaria do apoio de tropas federais”.
“Tese oca” – “Negociação com o PCC, naquele contexto explosivo, terá sido escandalosa se o poder público ofereceu vantagens fora da lei aos líderes dos motins. Do contrário, tratou-se de atitude de bom senso para poupar vidas (...). Essa dúvida, entre uma negociação ilegal e uma ação legítima, dado o contexto, somente o Ministério Público e a Justiça podem tirar, após exame cuidadoso dos fatos. Não caberia a Genro prejulgar, quanto mais quando era o momento de demonstrar união. Mas o autor da tese oca da ‘refundação do PT’ preferiu perfilar-se no time dos muitos políticos que não souberam ler a crise paulista.”
O que mais dizer?!
[ruinogueira@primeiraleitura.com.br]

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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