quarta-feira, maio 31, 2006

FRANÇA - 1938

Por: Yahoo! - Copa do Mundo 2006

Itália, a primeira bicampeã
Campeão:
Itália
Vice:
Hungria
Ficha técnica
Sede: FrançaPaíses inscritos: 36Participantes: 15Gols: 84Média de gols: 4,66Média de público: 20.829
Eram 17 horas de viagem de Bordeaux a Marselha, com o trem parando numa série de estaçõezinhas intermediárias. Os jogadores brasileiros - que horas antes tinham derrotado os tchecoslovacos numa difícil partida-desempate - dormiam aos solavancos. Leônidas, porém, passava a noite em claro, a perna estendida sobre a poltrona, enquanto Carlos Volante lhe aplicava compressas quentes sobre os músculos enrijecidos. Na verdade, toda a perna de Leônidas doía. O grande esforço que empregara nos três jogos que a Seleção Brasileira já disputara na terceira Copa do Mundo minara-lhe os músculos.
Dos 22 jogadores que o técnico Ademar Pimenta levara para a Europa, naquele verão de 1938, apenas ele, Leônidas, atuara nas três partidas. Agora, estava à beira de uma distensão. Naquele jogo, a Seleção Brasileira jogaria toda a sua sorte na terceira Copa do Mundo. Os italianos eram os campeões e favoritos ao bi. Vencê-los significaria a classificação brasileira à finalíssima. A ausência de Leônidas, porém, assumia aos olhos do técnico proporções de tragédia. Leônidas vinha sendo até ali a grande figura da Seleção, com seus dribles, seus deslocamentos, seus gols espetaculares.
Melindre uruguaio Toda a Europa já estava às vésperas de uma nova guerra. Meses antes da abertura da Copa, a Áustria fora anexada à Alemanha. A Espanha, grande adversária da Itália em 1934, estava às voltas com uma sangrenta guerra civil e não podia sequer pensar em futebol. Da América do Sul, chegavam notícias de mais dois lamentáveis boicotes: o Uruguai, melindrado ainda com o descaso europeu em 1930, e a Argentina, que não se conformara em ter perdido para a França o direito de abrigar a Copa de 1938. Graças à desistência argentina, o Brasil ficou automaticamente classificado para as oitavas-de-final na França.
A terceira Copa do Mundo foi, de fato, a primeira em que o Brasil figurou como uma seleção realmente representativa. A crise que desde a implantação do profissionalismo dividira o nosso futebol fora finalmente superada em 1937, quando América e Vasco, no Rio de Janeiro, lideraram um movimento para que a CBD e a Federação Brasileira de Futebol se dessem as mãos. O técnico escolhido foi Ademar Pimenta, que um ano antes já dirigira a Seleção no Campeonato Sul-americano ganho pelos argentinos.
A Seleção Brasileira chegou a Paris no dia 15 de maio. Ali, realizou alguns treinos e depois seguiu para Estrasburgo, local de estréia contra a Polônia, em 5 de junho. Para começar, Pimenta escalou um ataque inteiramente diferente do que vinha treinando como titular. Naquele domingo chuvoso, a Europa finalmente conhecia o nosso futebol. E começava a descobrir a arte de Leônidas da Silva.
Foi uma estréia difícil, com um primeiro tempo brasileiro e um segundo polonês. Depois de virar com uma vantagem de 3 x 1, gols de Leônidas, Romeu e Perácio, contra um de Willimoski, o Brasil cedeu terreno no tempo final e permitiu que a Polônia chegasse aos 4 x 4, Perácio marcando o nosso gol, Willimoski (dois) e Piontek o dos poloneses. Na prorrogação de 30 minutos, dois gols de Leônidas puseram o Brasil de novo na frente. Os poloneses ainda descontaram um, com Willimoski, mas foi só. Pela primeira vez, o Brasil estreava na Copa com uma vitória.
No mesmo dia em que o Brasil se impôs à Polônia, realizaram-se as demais partidas das oitavas-de-final, com Itália, França, Tchecoslováquia, Cuba, Suécia, Suíça e Hungria eliminando Noruega, Bélgica, Holanda, Romênia, Áustria, Alemanha e Índias Holandesas.
O jogo com a Tchecoslováquia, em 12 de junho, na cidade de Bordeaux, foi um emocionante duelo de técnica e força, no qual os brasileiros, depois de marcarem o primeiro gol - mais uma vez Leônidas -, não resistiram ao futebol duro, por vezes violento, dos tchecoslovacos, e cederam o empate num pênalti de Domingos da Guia em Simunek, cobrado por Nejedly. Nos 30 minutos de prorrogação, manteve-se o empate de 1 x 1, com Planicka, extraordinário goleiro, fechando o gol mesmo depois de ter sofrido um choque com o tanque Perácio e deslocado a clavícula. Usando um braço só, Planicka foi o herói do jogo.
Brasil na semifinal Dois dias depois, ainda em Bordeaux, a partida-desempate. Pimenta sabia que seus jogadores, após os 120 minutos disputados no jogo anterior, estavam esgotados. Por isso ousou mandar a campo todo o time reserva, permanecendo apenas Válter e Leônidas. No entanto, essa decisão, que de início parecia arriscada, levaria o Brasil à vitória, já que o chamado time reserva tinha uma defesa tão boa quanto a titular e, ainda por cima, contava com atacantes em ótima forma, como Roberto, Luisinho, Patesko e, afinal, Tim.
O primeiro tempo - que terminara com os tchecoslovacos vencendo por 1 x 0 - dera para assustar Pimenta. No segundo tempo, a reação: Leônidas empatou, cabendo a Roberto, um ponta-direita do modesto São Cristóvão carioca, clube de Pimenta, marcar o gol que levaria o Brasil à vitória por 2 x 1. Brasil, Itália, Hungria e Suécia passavam às semifinais. Depois das 17 horas de viagem de Bordeaux a Marselha, local do jogo com os italianos, Pimenta tinha motivos de sobra para estar pessimista: Leônidas era um terrível desfalque.
Na véspera do jogo, marcado para o dia 16 de junho, sabia-se que o técnico tinha opções para formar o ataque sem Leônidas. A mais lógica - a simples substituição de Leônidas por seu suplente, o mineiro Niginho - seria, porém, descartada por Castelo Branco. "Estou informado de que, se Niginho entrar, os italianos vão protestar junto à FIFA e exigir nossa eliminação da Copa. Os italianos alegam que a situação de Niginho não é legal. Ele ainda tem um contrato assinado com a Lazio. Acho melhor não nos arriscarmos", disse o chefe da delegação, sobre o jogador, que em 1937, mandara às favas o contrato que o prendia ao clube italiano e tomara um navio de volta ao Brasil.
Derrota inevitável "De todos os jogadores que tenho aqui, exceto Leônidas e Niginho, o único que já jogou de centroavante é o Romeu." Baseado neste raciocínio simplista, o técnico preferiu deslocar Romeu para o centro, fazendo entrar Luisinho na meia direita.
A semifinal com a Itália entrou para a história do nosso futebol pela ausência de Leônidas, pelos equívocos de Pimenta, pelas discussões que se criaram em torno da arbitragem do suíço Wuthrich e pela decepção sofrida por milhões de brasileiros que a acompanharam pelo rádio, no relato vibrante do locutor Gagliano Neto. Os italianos foram muito melhores no primeiro tempo. No segundo, logo aos 11 minutos, os italianos marcaram, em jogada individual de Colaussi pela esquerda.
Estranhamente, porém, os brasileiros vinham atuando melhor, equilibrando as ações no meio-campo, cavando as primeiras investidas à área italiana. Foi então que ocorreu o lance mais discutido do jogo: a troca de pontapés entre Domingos da Guia e Piola, com a marcação de pênalti contra o Brasil. Aos 15 minutos, Meazza convertia o pênalti em gol. Inconformados com a sorte e sem ânimo para buscar a reação, os brasileiros praticamente entregaram o jogo ali. No final, já aos 41 minutos, Romeu ainda fez um gol. Mas era tarde demais. Três dias depois, novamente em Bordeaux, a nossa Seleção venceria a da Suécia por 4 x 2, na disputa do terceiro lugar. Já recuperado, Leônidas reaparecia no melhor da sua forma e marcava dois gols.
Conquista merecida Para desapontamento dos franceses, que haviam planejado outro final de festa, a taça ficaria mesmo nas mãos dos italianos. Com uma seleção mais técnica, mais harmoniosa, mais à altura de um título mundial, Vittorio Pozzo conseguira levar seus comandados a um triunfo de 4 x 2, na final com a Hungria. Desta vez, ninguém punha em dúvida os méritos da conquista. Ninguém - exceto, é claro, os que ficavam imaginando o que seria aquela semifinal em Marselha, se Ademar Pimenta tivesse podido contar com o seu "Diamante Negro".
Artilheiro
Leônidas (Brasil), 7 gols
Nome completo: Leônidas da SilvaNascimento: 6 de setembro de 1913, no Rio de JaneiroClubes: Bonsucesso, Peñarol-URU, Vasco, Botafogo, Flamengo e São Paulo
Rápido, ágil, habilidoso e oportunista, é considerado até hoje um dos maiores atacantes do futebol brasileiro em todos os tempos. Seu apelido, "Diamante Negro", foi utilizado para nomear um chocolate. No Brasil, Leônidas também é conhecido como inventor da bicicleta, façanha contestada em outros países.
Veja os artilheiros de todas as Copas

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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