sábado, novembro 29, 2025

Eis a questão: Deus criou o bem, mas ao mesmo tempo também criou o mal


Artes visuais Desenho Linha artística, bem contra o mal, branco, cara png |  PNGEgg

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Luiz Felipe Pondé
Folha

Sensibilidade gnóstica implica um drama moral na criação e no criador

Ideia passa pela revelação de que uma crise atravessa ambos

Tese é de que o mal está enraizado na dimensão divina

A espiritualidade gnóstica é marcada, desde a Antiguidade, pela tese de que o mal está enraizado em alguma dimensão divina. O termo está ligado à heresia gnóstica cristã histórica, mas o adjetivo ganhou autonomia analítica. Toda sensibilidade gnóstica passa pela revelação —gnose— de que uma crise atravessa a criação e o criador, atribuindo-lhes um componente trágico.

Segundo o historiador David Flusser, no seu “Judaism of the Second Temple Period: Qumran and Apocalypticism, Vol. 1”, há elementos gnósticos nos escritos do mar Morto. Os qumranitas acreditavam numa predestinação divina para a existência dos filhos da luz e os filhos das trevas. Há um conflito ontológico e espiritual, causado pela própria divindade. Elemento gnóstico.

NA CABALA – O historiador da mística judaica Gershom Scholem, no seu “Kabbalah”, identificará elementos gnósticos no dualismo interno ao “Ein Sof” — o infinito divino anterior ao Deus propriamente criador. Conceito eminentemente cabalístico que desempenhará um papel importante na leitura que o “profeta” Nathan de Gaza fará do personagem conhecido como Sabatai Tzvi, o falso messias do século 17.

Essa dualidade divina era vista por Nathan de Gaza como sendo a causa do que hoje poderia ser chamado de bipolaridade do falso messias: numa hora, ele assumia esse papel, noutra o recusava sob crises depressivas. Quando Sabatai integrasse esses dois polos, a criação repousaria em paz.

Essa leitura do “Ein Sof” pressupunha dois polos internos à mesma divindade, em que um era a luz criadora e o outro, as trevas, sendo este resistente às formas criadas pelo princípio da luz criadora, gerando uma inércia interna ao princípio divino, materializada nas agonias e imperfeições da criação. Elemento gnóstico.

O ARCANJO CAÍDO – A literatura especializada também debate a presença de elementos gnósticos no yazidismo. Meses atrás, passei por esse tema e um leitor apontou uma inconsistência na identificação sumária entre Melek Ta’us, o arcanjo caído e redimido yazidi, e o mal.

O arcanjo representaria a potência tanto para o bem quanto para o mal, tanto para a luz como para as trevas, que habita o coração humano.

A fácil assimilação do arcanjo a figuras demoníacas, nas críticas islâmicas e cristãs, seria fruto de interpretações que não fazem jus à complexidade da mitologia oral yazidi, que atravessa a história religiosa, política e social desse povo, vítima de massacres, o último deles nas mãos do Estado Islâmico.

PLANO DIVINO – Nas palavras do historiador e anarquista Peter L. Wilson, no seu fascinante “Peacock Angel: The Esoteric Tradition of the Yezidis”, “de fato eles se afastam do islã e já no século 15 a seita era conhecida por cultuar o anjo pavão Melek Ta’us, uma figura frequentemente identificada com ‘o Diabo’ ou Satanás — daí a seita ser conhecida como ‘adoradores do Diabo’.

Como veremos, entretanto, a real situação é bem mais complexa do que isso”. Se o arcanjo yazidi cai em desgraça, num dado momento, como o anjo Lucífer, à diferença deste, ele se arrepende e volta a Deus — esse enredo acaba sendo um plano divino.

Mas, ao mesmo tempo, os yazidis creem que o mal é fruto do coração humano e não “culpa” do seu arcanjo, líder dos sete anjos que cuidam de uma criação abandonada por Deus, que perdeu o interesse na sua obra —esse desinteresse marca outro elemento gnóstico.

NO ALCORÃO – Outro nome do arcanjo é Shaytan, apontado por Wilson como o nome dado ao Satanás no Alcorão. Outra pista possível para a acusação falsa de que eles adorariam Satanás.

Mais uma referência importante sobre a religião yazidi, que a aproxima do gnosticismo, é a obra de 2010 da acadêmica húngara especialista em religião yazidi Eszter Spät, da Universidade Centro-Europeia, em Budapeste, “Late Antique Motifs in Yezidi Oral Tradition”.

Portanto, segundo a autora Eszter Spat, é possível se pensar numa origem gnóstica para a religião yazidi.

PRÉ-ISLAMISMO – No artigo “The Song of the Commoner: The Gnostic Call in the Yezidi Oral Tradition”, a pesquisadora húngara diz, ao apontar as influências pré-islâmicas na tradição yazidi, que “tais influências pré-islâmicas incluem o gnosticismo e o maniqueísmo”. Sendo o maniqueísmo, por sua vez, uma forma de gnosticismo com forte influência do zoroastrismo persa, que carrega na sua concepção cósmica um dualismo entre bem e mal no plano divino.

Satanás e Melek Ta’us não são a mesma entidade. Mas as relações entre gnosticismo e yazidismo permanecem como objeto consistente de debate entre especialistas. A criação abandonada por Deus e o drama moral do arcanjo marcam essa espiritualidade gnóstica.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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