domingo, novembro 30, 2025

PALOMA AMADO E BELA GIL RECUPERAM MEMÓRIAS AFETIVAS DA COZINHA E RELAÇÃO ENTRE OS PAIS.

                         Fotos Márcio Araújo



Escritora e chef de cozinha participaram de roda de conversa no último dia da Festa Literária da Região Cacaueira, que agitou Itabuna de 27 a 29 de novembro. 

A escritora Paloma Jorge Amado e a nutricionista e chef de cozinha Bela Gil participaram, neste sábado (29), da roda de conversa Narrativas de uma cozinha afetiva, com mediação da professora, escritora e filósofa Elisa Oliveira. O bate-papo foi um dos pontos altos do Espaço Jorge Amado, um dos ambientes da Festa Literária da Região Cacaueira (Flicacau), que ocupou por três dias o Centro de Cultura Adonias Filho, em Itabuna. 

Filha de Jorge Amado (1912-2001), mestre da literatura universal, Paloma tem dois livros dedicados às comidas que aparecem nas obras do pai: A comida baiana de Jorge Amado (1994) e As frutas de Jorge Amado (1997). Neles, além de compilar receitas, discute o papel dos alimentos na prosa amadiana. “Jorge Amado fez seus personagens comerem a melhor comida, a comida com mais saudade, ou, nos casos de tristeza profunda, a falta da comida e o não comer”.

O mestre grapiúna, segundo a filha, sempre dizia que a melhor forma de expressar o amor é dar de comer. “É a expressão primária do amor. Você pega seu bebê no colo, leva ao peito e dá de comer. Começam daí as nossas boas memórias do paladar”, disse Paloma. 

“Jorge Amado fez seus personagens comerem a melhor comida, a comida com mais saudade, ou, nos casos de tristeza profunda, a falta da comida e o não comer”, acrescentou.


MEMÓRIAS COMUNS.


A conversa permitiu que Paloma Amado e Bela Gil descobrissem que têm mais comum do que imaginavam. Além de filhas de dois dos maiores artistas que já pisaram na Terra, ambas descendem de avós maternas de origem italiana.

“Descobri que temos uma similaridade em relação à ancestralidade, que é essa mistura da Bahia com a Itália”, disse Bela a Paloma. “Também cresci numa casa com muita comida baiana, de candomblé e muita comida italiana, que minha avó fazia bastante. A macarronada do domingo e o capelete do final de ano se misturavam ali no acarajé, vatapá, caruru”, complementou.

Também descobriram que têm em comum a paixão por pitanga. “É minha fruta preferida da vida”, revelou Bela Gil. Paloma contou que, em visita recente à Casa do Rio Vermelho, em Salvador, onde morou com os pais, pediu que a administração do espaço – hoje um museu – plantasse pés de pitanga na área verde do imóvel. Disse que as memórias comendo a fruta colhida na hora é uma das melhores da vida. 

Bela Gil aproveitou o exemplo da fruta preferida para falar sobre a importância da conservação e transmissão de saberes ligados aos alimentos e modos de preparo. Segundo a pesquisadora, a pitanga está sumindo e corre risco de extinção. Também citou relatos nostálgicos sobre comidas que fizeram parte da vida das pessoas, mas desapareceram do cotidiano delas:

-Se a gente não consumir esses alimentos – ou não compartilhar esses saberes – eles vão se perder. A minha fala é um convite a pensar sobre alimentos, preparos e saberes que a gente quer preservar, passar para frente e recuperar. Digo isso porque a minha fruta predileta da vida é pitanga. Só que pitanga está em risco de extinção. 


CHOCOLATE E MACROBIÓTICA NA PRISÃO.


A relação de Gilberto Gil com a alimentação macrobiótica começou em 1968, quando foi preso pela ditadura militar, contou Bela Gil. Na cela, em um endereço do Exército na cidade do Rio de Janeiro, leu publicação sobre a dieta que fazia a cabeça de John Lennon (1940-1980) e Yoko Ono. O músico baiano se aprofundou no assunto e, já na cadeia, passou a priorizar alimentos como frutas, grãos integrais e leguminosas. 

Bela afirma que a macrobiótica mudou a vida do pai, o que também viria a influenciar as escolhas dela na própria vida e na gastronomia. Nesse momento, Paloma Amado fez um aparte: 

-Fui visitar o Gil na prisão levando dois livros e chocolates que papai mandou para seu pai. Eu acho que, mesmo entrando na dieta macrobiótica, ele comeu o chocolate.

-Isso eu posso afirmar porque, mesmo nas épocas mais radicais de macrobiótica, ele nunca largou o chocolate da mesinha de cabeceira. E eu peguei esse hábito, ou vício, porque sou uma chocólatra assumida – confessou Bela Gil.


COLETIVOS E EDITORAS. 


Com o tema Verde que te quero livro: contando a história da mata que nos sustenta, a Festa Literária da Região Cacaueira também é um espaço de colaboração com os coletivos e editoras independentes que fazem a literatura produzida na Bahia viajar Brasil afora: Editora Tertúlias, Editora Teatro Popular de Ilhéus, Editora Via Litterarum, Vixe Bahia Literária e Editora Mondrongo.

Neste sábado (29), o Centro de Cultura Adonias Filho recebeu estudantes das escolas municipais Professor Roberto Santos; Ação e Cidadania; São Francisco de Assis; Novo Horizonte; Esperança; Aziz Maron; Juca Leão; Amélio Cordier; e João Alves Araújo.

A Festa tem parceria com a Associação de Agentes Ambientais e Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis de Itabuna (AACRRI), que presta serviço de coleta seletiva ao evento. 

A Flicacau tem patrocínio do Governo do Estado da Bahia. É contemplada também pelo Projeto Bahia Literária, iniciativa da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada à Secretaria de Cultura (SecultBA), e da Secretaria Estadual de Educação (SEC). Conta com o apoio da Prefeitura de Itabuna, por meio da Secretaria Municipal da Educação e da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (Ficc). 


Realização: Seneh Comunicação & Projetos.


Assessoria de imprensa: Thiago Dias.


Divulgação: Fábio Costa Pinto jornalista Mtb 33.166/RJ.

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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