sexta-feira, novembro 28, 2025

A democracia favorece todos, até os golpistas presos

 

Marina Amaral, da Pública

A democracia favorece todos, até os golpistas presos

Uma das cenas que me impacta até hoje é a do então deputado Jair Bolsonaro exaltando o homem que torturou Dilma Rousseff durante a sessão de votação do impeachment da ex-presidente. Para mim soou como louvar um estuprador humilhando sua vítima em uma praça pública lotada, como estava o Congresso naquela noite de abril de 2016, com a sessão transmitida ao vivo em rede nacional. 

Em 1970, aos 22 anos, Dilma Rousseff foi presa pela Oban, a Operação Bandeirante, estrutura clandestina formada por policiais e militares que faziam detenções ilegais e submetiam os presos a torturas, morte e desaparecimento. Foi a Oban que deu origem ao DOI-Codi, a polícia política mais cruel da ditadura, onde, em São Paulo, reinava o coronel homenageado por Bolsonaro, um monstro na descrição de dezenas de vítimas - aquelas que sobreviveram para contar.

Depois, Dilma foi jogada de cárcere em cárcere, entre interrogatórios movidos a tortura, até chegar ao Presídio Tiradentes, que se tornou conhecido pela solidariedade entre as mulheres presas em condições de precariedade extrema. 

Muito diferente do tratamento que a democracia reservou àqueles que mais uma vez tentaram acabar com ela para reinstalar um estado de terror.

 O ex-presidente Jair Bolsonaro julgado apenas pelos crimes que se pôde provar - não, por exemplo, pela mortandade da pandemia que fez multiplicar -, passou por um processo legal observado por milhões de brasileiros através da imprensa livre (só para lembrar, a maioria das pessoas nem sabia o que acontecia na ditadura e algumas parecem não saber até hoje) e, apesar de tentar burlar a lei mais de uma vez, foi detido sem violência alguma e instalado em acomodação confortável na Polícia Federal, com todos os cuidados médicos necessários.

Os generais, condenados depois de exercer o amplo direito de defesa com direito a advogados de elite, foram para salas com banheiro e frigobar em instalações militares, assim como o almirante Garnier. Agora irão passar pelo julgamento do Superior Tribunal Militar (STM) que, ao que tudo indica, vai manter patentes e benefícios da maior parte dos condenados, expondo mais uma vez seu desapreço pela democracia, que mantém vivo o ovo da serpente. 

Terão que cumprir penas longas, é verdade, à altura da gravidade de seus crimes, mas continuam se beneficiando do Estado de Direito contra o qual atentaram sem se arrepender. Podem agora meditar ilesos na cadeia sobre as virtudes da democracia. E talvez rever alguns conceitos do tipo “bandido bom é bandido morto” ou “preso tem que apodrecer na cadeia”, como esbravejam a qualquer ocasião. 

Mas isso seria deixá-los sem bandeira para as eleições. 

Não estou na turma dos que os queria na podridão dos nossos presídios, vergonha nacional louvada em prosa e verso pela direita e berço de certo tipo de crime organizado. Grupos criminosos que assustam mais pela violência cotidiana, indiscriminada, invasiva mas que não são piores do que a quadrilha que tentou derrubar a nossa democracia, como prova a exaltação de Bolsonaro a um símbolo de tortura e morte no Congresso Nacional (onde, aliás, se aninham intocados os políticos golpistas). Ah, não custa lembrar que Bolsonaro também homenageou milicianos, membros, portanto, de facção criminosa. 

Estou disposta a engolir a injustiça dessas prisões confortáveis para os golpistas em comparação a dos demais condenados; que fiquem no ar condicionado, mas mantenham as patas bem longe da nossa democracia. Precisamos dela para avançar como sociedade enquanto combatemos os resquícios do passado. Quem sabe até para construir uma política de segurança mais justa e racional e um sistema de Justiça capaz de punir igualmente quem infringe as leis, afastar da sociedade quem representa perigo, oferecer reais possibilidades de reabilitação, sem jamais abrir mão do respeito absoluto às garantias constitucionais de cada um de nós, como fez o STF na condenação da turma de Bolsonaro. 

Só assim o Estado Democrático de Direito terá o respeito que precisa para assegurar a paz. 

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Os golpistas foram julgados com as garantias que eles queriam extinguir. A democracia venceu — desta vez. Para que siga vencendo, não podemos relaxar. Sustentar o jornalismo é parte da defesa. Apoie a Pública!

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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