sexta-feira, novembro 29, 2024

PF minimiza nota e muda tratamento a ex-chefe do Exército, que vai de suspeito a escudo contra golpe

 Foto: Marcos Oliveira/Arquivo/Agência Senado

Sede da PF em Brasília29 de novembro de 2024 | 06:41

PF minimiza nota e muda tratamento a ex-chefe do Exército, que vai de suspeito a escudo contra golpe

brasil

A Polícia Federal mudou durante a investigação da trama golpista o tratamento dado ao então comandante do Exército no último ano da gestão de Jair Bolsonaro (PL), general Marco Antônio Freire Gomes.

Em novembro de 2023, quando fez a primeira representação sobre o caso ao STF (Supremo Tribunal Federal), a PF citava indícios de que Freire Gomes havia resistido à pressão para aderir a um golpe de Estado, mas dizia que era preciso apurar uma possível omissão por ele ter tido conhecimento da trama ilegal e, apesar de ocupar o importante cargo de comandante do Exército, nada ter feito.

A PF ainda dava, nesse primeiro relatório, importante peso à nota pública assinada pelos comandantes das três Forças em 11 de novembro de 2022. O documento foi visto à época como um recado ao Judiciário e um aval para a manutenção dos acampamentos diante dos quartéis-generais do Exército.

Já no relatório final da PF, entregue ao STF no último dia 21, não há menção à suspeita de omissão diante da trama golpista, a nota de 2022 é tratada de forma lateral, e a resistência do general é descrita como a principal razão para que Bolsonaro não tenha levado a cabo a tentativa de golpe.

Ao fim da investigação, a PF indiciou Bolsonaro e mais 36 pessoas sob o argumento de que o ex-presidente “efetivamente planejou, dirigiu e executou” a trama golpista e que só não conseguiu o seu intento por circunstâncias alheias à sua vontade —”no caso, a resistência do comandante do Exército Freire Gomes e da maioria do Alto Comando [do Exército], que permaneceram fiéis à defesa do Estado democrático de Direito, não dando o suporte armado para que o presidente da República consumasse o golpe de Estado”.

A negativa do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior (então comandante da Aeronáutica) de anuir com o golpe também é ressaltada, mas o papel de Freire Gomes tem um peso maior pelo fato de o Exército ser a Força de maior poderio.

No relatório de novembro do ano passado, a PF escreve que era necessário o avanço na investigação para apurar a possível omissão da dupla.

“Em relação ao general Freire Gomes e ao Brigadeiro Baptista Júnior, os elementos colhidos até o presente momento indicam que teriam resistidos às investidas do grupo golpista”, diz a PF, acrescentando a seguir: “No entanto, considerando a posição de agentes garantidores, é necessário avançar na investigação para apurar uma possível conduta comissiva por omissão pelo fato de terem tomado ciência dos atos que estavam sendo praticados para subverter o regime democrático e mesmo assim, na condição de comandantes do Exército e da Aeronáutica, quedaram-se inertes”.

O relatório final não menciona se houve essa apuração e qual teria sido a conclusão. A Folha procurou a PF por meio de sua assessoria, mas não houve resposta.

A nota assinada pelos comandantes das Forças em 11 de novembro de 2022 foi tratada no relatório inicial como importante aval dado pelos militares aos acampamentos de bolsonaristas em frente aos quartéis, o que culminou na tentativa de invasão da sede da PF em Brasília, em 12 de dezembro de 2022, e nos ataques às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.

A manifestação dos comandantes foi costurada por quase uma semana, segundo relatos feitos à Folha, e sua articulação iniciou-se após os chefes militares participarem de reuniões com Bolsonaro no Palácio da Alvorada após a vitória de Lula (PT) no segundo turno das eleições.

Essas conversas citavam bloqueio de estradas, críticas ao Judiciário e defesas a uma suposta legitimidade das manifestações. Na visão dos chefes militares, os manifestantes não se sentiam seguros para protestar em frente ao STF nem viam efetividade em cobrar respostas do Congresso diante do que consideravam abusos de ministros togados. O alvo também era o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A PF destaca, ainda no relatório inicial, que o chefe da ajudância de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, enviou um áudio de felicitação a Freire Gomes no mesmo dia da divulgação da nota dos comandantes. Dizia que a nota fora lida pelos acampados como sinal de que teriam a proteção das Forças Armadas contra eventuais decisões judiciais.

Os investigadores concluíram na época que a manifestação pública de Freire Gomes, Baptista Júnior e de Almir Garnier —esse último supostamente um apoiador do golpe— era uma reação à possível desmobilização dos acampamentos bolsonaristas após a auditoria do Ministério da Defesa não ter apresentado indícios de fraudes no sistema eleitoral.

Já no relatório final, a íntegra da nota não aparece mais e é descrita só brevemente, como contexto sobre a troca de mensagens de investigados.

Outra diferença entre o primeiro e o último relatório da PF se dá sobre a reunião ministerial de 5 de julho de 2022, em que Bolsonaro e diversos ministros fizeram manifestações de claro cunho golpista a três meses da eleição.

No texto de novembro de 2022, a PF lista nominalmente a presença de Freire Gomes e Baptista Júnior nesse encontro. No relatório final, os nomes são suprimidos, e há só uma lista resumida dos participantes.

Freire Gomes teve uma relação dúbia com Bolsonaro no fim de 2022. Ele acompanhou ao lado do ex-presidente, no Palácio da Alvorada, a apuração do segundo turno das eleições.

Depois do resultado, foi ao menos 13 vezes ao Alvorada —algumas acompanhado dos demais chefes militares, outras com generais subordinados ou mesmo sozinho. Dez reuniões ocorreram antes de 7 de dezembro, quando Bolsonaro apresentou uma minuta de decreto para um golpe de Estado.

Em depoimento à PF, Baptista Júnior diz que o chefe do Exército ameaçou prender Bolsonaro se desse prosseguimento ao golpe. O próprio Freire Gomes não cita a reação e se restringe e dizer que foi contra.

O comandante, porém, manteve idas ao Alvorada mesmo após isso: em 15 de dezembro e outra na véspera do Natal, quando entregou a Bolsonaro um presente e um convite para sua passagem de comando para Bolsonaro.

Freire Gomes justificava a militares que o objetivo dessa postura era evitar rupturas e, assim, garantir que não seria demitido antes do fim do governo.

Ranier Bragon e Cézar Feitoza/FolhapressPoliticaLivre

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas