sexta-feira, novembro 29, 2024

A toda-poderosa Alemanha agora está desesperada, diz The Economist


Crise da economia da Alemanha com pilha de moedas de ouro | Foto Premium

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Por The Economist

O Ministério das Finanças do Estado de Baden-Württemberg, no sul da Alemanha, lar de gigantes como Bosch, Mercedes e zf Friedrichshafen, não é um local ruim para sondar as ansiedades da Alemanha. O país está dominado por temores de desindustrialização, enquanto se encaminha para uma eleição que parece certa de que o chanceler, Olaf Scholz, perderá seu cargo se seu partido não o abandonar primeiro.

O ocupante desse ministério, Danyal Bayaz, teme que a Alemanha tenha desperdiçado os “dividendos da globalização” dos últimos 15 anos, subfinanciando a esfera pública em uma era de baixas taxas de juros. Agora, enfrentando um aperto energético, a crescente concorrência da China e a perspectiva de que os Estados Unidos de Donald Trump imponham tarifas de 10% a 20% sobre as importações, o modelo de negócios do país, teme o ministro, está “entrando em colapso”.

NOVAS TECNOLOGIAS – Bayaz lamenta a incapacidade da Alemanha de lidar com as novas tecnologias, apesar de seus pontos fortes em pesquisa básica e engenharia. Ele observa que a última grande startup bem-sucedida da Alemanha foi a Sap, uma empresa de software, fundada no momento em que Franz Beckenbauer levou o time de futebol da Alemanha Ocidental à vitória no campeonato europeu de 1972.

A Alemanha tem 60 vezes mais pessoas do que a Estônia, mas apenas 15 vezes mais “unicórnios” (startups privadas que valem mais de US$ 1 bilhão).

Essa é uma ladainha conhecida. A indústria alemã, especialmente suas pequenas e médias empresas Mittelstand (termo usado na Alemanha para pequenas e médias empresas), concentrou-se na inovação incremental, deixando-a despreparada para choques tecnológicos como o advento dos veículos elétricos.

COMPLACÊNCIA – Os vínculos confortáveis entre empresas, bancos e políticos geraram complacência e resistência à reforma. A adesão dogmática às regras fiscais levou a pontes enferrujadas, escolas decadentes e trens atrasados.

O crescimento nos mercados estrangeiros engordou os lucros da Deutschland ag (e as receitas do Tesouro) por um tempo, mas esse modelo orientado para a exportação deixou a Alemanha exposta quando os ventos da globalização se tornaram frios.

Agora, a Alemanha, que no ano passado substituiu o Japão como a terceira maior economia do mundo, está colhendo os frutos. É difícil discernir qualquer crescimento líquido no PIB real desde antes da pandemia. As previsões são pouco melhores e não levam em conta os riscos de uma guerra comercial trumpiana.

GÁS DE PUTIN – A Volkswagen, a maior montadora de automóveis da Europa, está cogitando o primeiro fechamento de fábrica em seus 87 anos de história; até 30 mil empregos podem ser perdidos. O desemprego está aumentando, embora a partir de uma base baixa.

Os altos preços da energia, especialmente depois que a Alemanha teve de se desfazer do gás russo após a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin em 2022, são uma reclamação comum entre as empresas de um país onde a manufatura ainda representa 20% do valor agregado bruto.

Isso continua sendo quase o dobro do valor da França, embora a produção industrial tenha atingido o pico em 2018 e, desde então, tenha caído mais rapidamente do que em outras partes da UE, especialmente em setores de energia intensiva, como a siderurgia.

ATÉ OS VAREJISTAS – As carteiras de pedidos estão em baixa, e os investimentos planejados foram adiados ou transferidos para o exterior. O diretor-presidente da Thyssenkrupp, uma siderúrgica deficitária, disse que a Alemanha está “em plena desindustrialização”. Até mesmo os varejistas foram atingidos.

Após a invasão da Rússia, Raoul Rossmann, que dirige uma cadeia de farmácias com sede perto de Hanover que leva o nome de sua família, percorreu suas filiais para descobrir como economizar nas contas de energia.

Outras lamentações incluem a falta de trabalhadores qualificados à medida que a Alemanha envelhece e as camadas de burocracia, muitas delas provenientes de Bruxelas, que o Instituto Ifo, em Munique, calcula que custam à economia € 146 bilhões (US$ 154 bilhões) por ano. Um desenvolvimento crucial, de acordo com Sander Tordoir, do Centre for European Reform (cer), um grupo de reflexão, é a mudança no relacionamento com a China.

EXPORTAÇÕES – Nas décadas de 2000 e 2010, a Alemanha estava perfeitamente posicionada para satisfazer o apetite chinês por seus carros, produtos químicos e widgets de engenharia de precisão: as exportações de mercadorias para a China aumentaram 34% entre 2015 e 2020, mesmo com a queda das exportações para outros países.

Ainda em 2020, a China era um importador líquido de carros, mas no ano passado se tornou o maior exportador do mundo. As empresas chinesas estão se transformando de clientes em concorrentes, passando a comer o almoço não apenas da indústria automobilística alemã, mas também do Mittelstand. “A história dos carros é emblemática, mas também se trata de máquinas e produtos químicos”, diz Tordoir.

Conforme observado por Clemens Fuest, da Ifo, a China agora responde por apenas 6% do total das exportações alemãs, aproximadamente a mesma participação da vizinha Holanda.

DEPENDÊNCIA – Mas a história da China não se resume à dependência da exportação. Tordoir e Brad Setser, economista do Council on Foreign Relations, um think-tank americano, descrevem em um artigo como o “segundo choque da China” pode piorar os problemas industriais da Alemanha.

O mercado interno da China não consegue absorver o excesso de produção de seus fabricantes subsidiados pelo Estado e, como eles buscam clientes no exterior, o superávit comercial do país explodiu. Isso apresenta dificuldades para as empresas alemãs no país e nos mercados estrangeiros.

“Os mercados dirigidos pelo Estado na China poderiam fornecer níveis irracionais de financiamento para o investimento chinês em novas capacidades por mais tempo do que a capacidade de solvência de grande parte da indústria alemã”, escreve a dupla.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Os analistas esqueceram que as fábricas europeias altamente poluidoras foram reinstaladas na China depois de serem proibidas em seus países de origem. Com isso, a China se transformou num gigante industrial, recordista em poluição, que deve estar matando cerca de 8 milhões de chineses por ano, e o governo não está nem aí, deseja que morra muito mais gente, para que outros possam viver neste mundo-cão(C.N.)


Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas