quinta-feira, junho 30, 2022

Recessão global é inevitável? O que pensam 4 economistas




Cada vez mais economistas veem como iminente a chegada de uma recessão global.

Por Atahualpa Amerise

A profusão de estímulos econômicos durante a pandemia, os gargalos nas cadeias de suprimentos decorrentes das restrições na China e a invasão da Ucrânia pela Rússia, entre outros fatores, levaram a inflação mundial a níveis não vistos em décadas.

Para contê-la, os bancos centrais aumentam as taxas de juros, enquanto os mercados de ações reagem com quedas prolongadas, que refletem a pouca fé dos investidores no que vem pela frente.

E o que nos espera é, segundo diversos especialistas, uma recessão: uma depressão nas atividades econômicas que se traduz em queda do PIB (Produto Interno Bruto, soma de bens e serviços).

Em geral, após dois trimestres consecutivos de contração do PIB, os economistas consideram que a economia está em "recessão técnica".

Sete em cada 10 economistas nos Estados Unidos acreditam que isso acontecerá neste ou no próximo ano, de acordo com pesquisa recente do jornal britânico Financial Times e da Escola de Negócios Booth da Universidade de Chicago (EUA).

A sondagem foi realizada no início de junho, antes da última semana de forte queda das ações (entre 6 e 10 de junho) e do novo aumento de juros pelos bancos centrais mundiais, portanto, é provável que essa proporção tenha aumentado.

Entrar em recessão tem consequências amargas: o colapso do investimento, consumo e transações causa fechamento de negócios, perdas massivas de empregos e incapacidade de pagar dívidas que pode levar muitos à falência.

A BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, perguntou a quatro importantes economistas se eles acreditam que haverá uma recessão nos EUA e no mundo em um futuro próximo. Confira o que eles disseram.

'Em 2023, com 65% de probabilidade'

'David Wessel, diretor do Centro Hutchins de Política Fiscal e Monetária da Brookings Institution (Washington D.C.)'

"Prever recessões é um exercício difícil. Elas geralmente resultam de choques inesperados e, às vezes, depressões econômicas que os especialistas preveem com total certeza mais tarde não acontecem.

No entanto, vejo uma chance significativa de uma recessão nos Estados Unidos, com cerca de 65% de probabilidade, em 2023.

O motivo? O presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) Jerome Powell não quer que seu legado destrua o progresso que seus antecessores conquistaram, de reduzir a inflação americana e mantê-la em níveis baixos.

Por ora, o Fed claramente precisa aumentar as taxas de juros para desacelerar a demanda, aliviar a pressão de alta sobre os preços e impedir que a psicologia inflacionária [estado mental que leva consumidores a antecipar compras, prevendo aumento dos preços] se estabeleça.

No entanto, em algum momento o Fed será confrontado com decisões muito mais difíceis, seja para continuar aumentando as taxas ou congelá-las, à medida em que a economia desacelerar e a inflação diminuir, mas sem alcançar a meta de 2%.

Haverá bons argumentos para qualquer uma das opções. Prevejo que o Fed de Powell errará pelo excesso no aperto monetário em vez de afrouxar e, portanto, é provável uma recessão, mas moderada.

Espero estar errado, que todos os problemas nas cadeias de suprimentos globais sejam resolvidos, que os efeitos econômicos persistentes da covid-19 se esgotem e que nós (e o Fed) tenhamos a boa sorte de que necessitamos.

Mas não acredito que esse seja o resultado mais provável."

'Início do próximo ano'

'Gabriel Gasave, pesquisador associado do Centro para Prosperidade Global do Instituto Independente e diretor do elindependent.org (Oakland, Califórnia)'

"Me atrevo a dizer que em algum momento, possivelmente no início de 2023, enfrentaremos um processo recessivo importante, tanto na Europa, quanto nos Estados Unidos.

Não será por causa da pandemia, das interrupções nas cadeias de suprimentos, da invasão russa à Ucrânia, da escassez de alimentos e do encarecimento da energia.

Será basicamente pelo fato de que, para colocar nos termos da Escola Austríaca de Economia [linha de pensamento econômico liberal surgida em Viena, no século 19], o processo de excesso de liquidez impulsionado pelos governos mediante uma forte expansão monetária chegará ao fim. Ou o 'boom' terminará e virá a depressão

O Hemisfério Norte, com a chegada do verão e as festas de fim de ano, continuará por ora com um nível de atividade razoável.

As pessoas vão viajar, gastar e muitos desfrutarão de benefícios financeiros distribuídos por governos à esquerda e à direita durante a pandemia e campanhas eleitorais.

Mas as festas não duram para sempre, assim como nenhum atleta de elite pode atuar continuamente sob efeito de doping.

Em algum momento, as coisas devem voltar ao que eram antes, à realidade, o que muitos economistas chamam de depressão, quando, na verdade, é um retorno à ordem natural das coisas.

Também é certo que, como os rendimentos da dívida americana estão agora aumentando [devido à alta de juros pelo Fed], os capitais internacionais terão uma atração maior para retornar aos Estados Unidos.

Portanto, temos que ver em que medida os fluxos de capital global que chegam, juntamente com a valorização do dólar e a desvalorização do restante das moedas, afetam o nível de atividade interna [dos EUA]."

'Provavelmente no final deste ano'

'Lindsey Piegza, economista-chefe e diretora-executiva da Stifel Financial (Chicago)'

"O Federal Reserve renovou e aumentou seu compromisso com o controle da inflação, elevando as taxas de juros em 0,75 ponto percentual em junho e colocando na mesa um possível novo aumento de mais 0,75 ponto para julho.

Embora o presidente americano Joe Biden tenha declarado recentemente que o Fed não está tentando induzir uma recessão, essa rápida alta dos juros quase certamente produzirá, provavelmente até o final deste ano, uma queda do PIB na melhor das hipóteses, ou estagflação [combinação de estagnação econômica ou recessão com inflação alta] na pior.

Os consumidores ainda sofrem com preços altos, pois as cadeias de suprimentos continuam afetadas e os conflitos no exterior persistem. E, agora que o Fed está aumentando as taxas a um ritmo proposto em torno de 4%, ou talvez mais, também devem lidar com os efeitos de uma economia mais fraca.

A estratégia de aumento acelerado das taxas resultará em um custo significativo para o cidadão médio e para a economia dos EUA de forma mais ampla, com impacto limitado sobre as pressões [inflacionárias] do lado da oferta.

No final das contas, elevar o custo de capital reduz consumo e investimento, o que alivia as pressões do lado da demanda — isso já acontece e se manifesta em um ritmo decrescente de vendas — mas dificilmente consegue corrigir as restrições do lado da oferta em decorrência das consequências da covid-19 ou de um conflito internacional."

'Pode não acontecer'

'Andrés Moreno Jaramillo, economista, consultor financeiro independente e analista do mercado de ações (Bogotá, Colômbia)'

"Alguns economistas veem que os juros estão subindo, que estamos saindo de uma queda muito forte com recessão, e acreditam que esse ciclo vai voltar. Claro que é possível, mas à medida que a geopolítica não piore com mais conflitos, mais guerras, mais escassez, mais covid, pode não haver recessão.

Ainda não se sabe. Precisamente, os Estados Unidos demoraram muito tempo para aumentar suas taxas de juros para não causar uma recessão. Essas taxas de juros em alta em um momento em que a economia está muito aquecida podem gerar uma pequena recessão.

Se uma recessão chegar a acontecer, seria muito leve e acredito que eles vão acionar todos os mecanismos para que isso não ocorra. Há muitos eventos, muitos fatos geopolíticos que podem mudar qualquer previsão econômica, por isso é preciso ser muito cauteloso.

A economia dos países se move em ciclos. Tanto as taxas de juros quanto as recessões econômicas fazem parte desses ciclos, o que não é grave enquanto houver uma volatilidade pouco acentuada.

É para isso que servem os bancos centrais e a política econômica: para que todos esses ciclos aconteçam e a economia não cresça muito porque pode gerar inflação, nem caia muito porque pode gerar desemprego, depressão e outras consequências.

O que acabamos de vivenciar com a covid-19 é algo novo no mundo. Quase todos os países tiveram retração econômica e a recuperação traz fortes altos e baixos; é de volatilidade que estamos falando, mas ela tem diminuído gradativamente.

Acredito que o pior já passou e os EUA estão enfrentando, como todo mundo, a inflação, e [o combate a] essa inflação tem que frear um pouco o crescimento e desacelerá-lo um tanto, mesmo que com isso o PIB registre cifras negativas. Isso não é tão ruim." 

BBC Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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