quinta-feira, junho 30, 2022

Cassidy Hutchinson: de aliada fiel a testemunha-bomba contra Donald Trump




Seu nome evoca um fora-da-lei do Velho Oeste, e Cassidy Hutchinson não decepcionou na terça-feira quando, como uma jovem pistoleira, sacou suas armas contra o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Hutchinson, que já foi uma fervorosa apoiadora e membro da equipe do ex-presidente, disparou uma enxurrada de acusações sem paralelo histórico contra um presidente americano.

Em uma aparição perante o comitê da Câmara que investiga o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio, a ex-assistente do chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows, apresentou o que os oponentes esperam que sejam as evidências necessárias para tirar Trump do cenário político.

"Esta é uma evidência irrefutável", disse Sol Wisenberg, ex-assistente de Ken Starr, o investigador do julgamento de impeachment de Bill Clinton, sobre o testemunho de Hutchinson.

"Não há dúvida de que isso estabelece um caso 'prima facie' de sua culpa criminal sob a acusação de conspiração sediciosa", afirmou ao The New York Times.

Pode não haver um cartaz de "procurado" para Trump, mas Hutchinson desenhou o cenário: o de um presidente perturbado incapaz de lidar com a derrota, tentando a todo custo impedir a transferência pacífica de poder.

Fundamentalmente, ela ofereceu o que os críticos do inquérito do Congresso dizem estar faltando até agora: testemunhos de que Trump não apenas sabia que suas alegações de fraude eleitoral eram falsas, mas também estava ciente da violência potencial que causaria e a incentivou.

Trump exigiu ser levado ao Capitólio para estar com apoiadores depois que a violência já havia eclodido, atacando o Serviço Secreto quando a ordem não foi respeitada, de acordo com uma anedota de terceiros que Hutchinson contou na audiência.

- "Porcelana quebrada" -

David Greenberg, professor de jornalismo e história da Universidade Rutgers-New Brunswick, chamou o testemunho de Hutchinson de "fascinante e revelador".

"Relatos históricos de 6 de janeiro não deixarão de incluir suas descrições vívidas do molho de tomate pela parede e do prato de porcelana quebrado, depois que seu almoço foi jogado do outro lado da sala por um Trump enfurecido", disse ele à AFP.

"Substancialmente, foi condenatório", disse ele.

Hutchinson disse que Trump sabia que seus apoiadores estavam armados, inclusive com pistolas Glock e rifles semiautomáticos AR-15, e que não se importava, dizendo-lhes para marchar rumo ao Capitólio e "lutar como loucos" de qualquer maneira.

"O testemunho de Cassidy Hutchinson foi crível, arrepiante e muito prejudicial para o ex-presidente Trump e seus aliados", afirmou à AFP Mike Hernandez, analista político da Telemundo 51.

Embora não afete a percepção da base ultraleal de Trump, de acordo com Hernandez, pode convencer republicanos suficientes de que o ex-presidente não deve ser o candidato do partido nas eleições de 2024.

A marcha para o Capitólio, enquanto os legisladores certificavam a derrota de Trump para Joe Biden, até agora havia sido apresentada como uma ideia espontânea dos apoiadores do ex-presidente, mas o plano do magnata republicano de se juntar a seus apoiadores foi premeditado, de acordo com o testemunho de Hutchinson.

Ela contou que o advogado da Casa Branca, Pat Cipollone, quis garantir que a comitiva presidencial não entrasse na multidão porque seus integrantes seriam "acusados de todos os crimes concebíveis".

- "Ela viu tudo" -

O Serviço Secreto se prepara para negar sob juramento a história do ataque de Trump, enquanto alguns republicanos descartaram partes do testemunho de Hutchinson por considerá-los "rumores", mas poucos rejeitaram as principais alegações.

Hutchinson, a primeira testemunha da Ala Oeste da Casa Branca a depor pessoalmente, era desconhecida do público.

Mas sua lealdade a Trump aparentemente nunca esteve em questão. O próprio ex-presidente disse após seu depoimento que ela era uma "grande fã de Trump muito depois de 6 de janeiro".

Natural de Nova Jersey, Hutchinson formou-se em ciências políticas na Virgínia antes de estagiar para republicanos do alto escalão no Congresso.

Em seguida, assumiu um cargo no escritório de assuntos legislativos da Casa Branca e em março de 2020 foi promovida a assistente de Meadows, com um escritório a poucos passos do Salão Oval.

Ao falar com legisladores e funcionários do governo em todos os níveis, Hutchinson estava "em posição de saber muito sobre os desenvolvimentos na Casa Branca", disse a presidente do comitê de investigação, a deputada republicana Liz Cheney, em sua apresentação.

Trump recorreu à sua própria rede social, a Truth Social, para se defender das acusações através de 12 mensagens, nas quais chama Hutchinson de "totalmente falsa".

Mas vários de seus ex-colegas a apoiaram, argumentando que ela estava em uma posição perfeita para relatar a atividade de Trump e seu entorno.

Alyssa Farah Griffin, diretora de comunicações estratégicas da Casa Branca no último ano de Trump no cargo, disse à CNN que Hutchinson falava de maneira amigável com a maioria dos líderes do Congresso.a

"Ela mandava mensagens de texto para eles. Então ela viu tudo", afirmou Farah Griffin.

AFP / Estado de Minas

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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