quarta-feira, junho 29, 2022

Decrescimento econômico como solução para clima e pobreza?




Movimento crescente de pesquisadores propõe conter as economias ricas para combater o aquecimento global. Na falta de modelos científicos, apoiadores e críticos se baseiam em especulações envolvendo milhões de vidas.

Por Ajit Niranjan

Deter a mudança climática e dar fim à pobreza são duas das tarefas mais tremendas com que a humanidade se depara, simultaneamente. Contudo os planos mais bem elaborados para enfrentar esses desafios são perigosamente especulativos: apostar no crescimento verde ameaça superaquecer o planeta, enquanto decrescimento nos países ricos pode piorar a pobreza em outros lugares.

Em 2015, líderes mundiais prometeram tentar restringir, até o fim do século, o aquecimento global a 1,5ºC em relação à era pré-industrial. Contudo as temperaturas disparam em direção a esse limite, que deverá ser ultrapassado dentro de uma década, e as políticas atuais tendem, antes, a um acréscimo de 2,7ºC. Para manter até mesmo esse nível, parte-se do princípio que a humanidade retirará poluentes da atmosfera com tecnologias caras e não comprovadas em ampla escala.

Alarmados, certos cientistas instam os países mais responsáveis pela degeneração do clima a abandonarem sua busca de crescimento econômico e a consumirem menos energia, em grande parte proveniente da queima de combustíveis fósseis. Porém esses defensores do decrescimento não dispõem de modelos científicos detalhados para mostrar o que tais medidas significariam para a pobreza em todo o mundo.

Em abril de 2022, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas publicou uma resenha de soluções climáticas. Segundo Yamina Saheb, uma das principais autoras, "não temos respostas".

Impasse entre crescimento econômico e proteção climática

Os adeptos do crescimento econômico verde – a estratégia adotada pela maioria dos líderes mundiais para enfrentar a mudança climática – querem romper a conexão entre o crescimento dos produtos internos brutos (PIB) e as emissões de gases causadores do efeito estufa.

Rendas maiores são correlacionadas a padrões de vida mais altos: à medida que os indivíduos ficam mais ricos, eles podem arcar com vidas mais saudáveis e felizes. Contudo, dados de diversas economias nacionais mostram que mais dinheiro significa mais poluição: quanto mais se compra, mais energia se usa, sobretudo queimando combustíveis que sobrecarregam a atmosfera com gases que retêm calor.

A humanidade começou a reverter essa tendência: há décadas, países como a Alemanha e o Reino Unido vêm obtendo crescimento econômico e, ao mesmo tempo, cortando suas emissões carbônicas. Os tomadores de decisões fecharam usinas de carvão, forçaram as fábricas a funcionarem com mais eficiência e produzem eletricidade "limpa", por fontes eólicas e solares.

Uma análise publicada em 2021 indicava que 32 países conseguiram dissociar o crescimento de seu PIB de suas emissões carbônicas. Incluindo-se as emissões envolvidas na fabricação dos artigos importados, esse número caiu para 23.

Em países como o Brasil e a Indonésia, contudo, crescimento e poluição ainda são estreitamente relacionados; e, como mostrou um estudo de 2020, a taxa de dissociação ainda é lenta demais para manter o aquecimento global em 1.5ºC. A lentidão das reformas levou pesquisadores do decrescimento a soarem o alarme.

Segundo Lorenz Keysser, do Instituto de Tecnologia Federal Suíço, em Zurique, para os governos cortarem as emissões rápido suficiente para atingir a meta em questão, seria necessária uma queda do consumo energético tão grande que afetaria os PIBs. E "não é uma meta do decrescimento reduzir o PIB, é só uma consequência antecipada, para que é preciso estar preparado".

Empecilhos tecnológicos

Os adeptos do crescimento verde e do decrescimento concordam que os países pobres devem prosperar, para que os padrões de vida subam. O ponto de discórdia é se o mundo rico – que já emitiu muito mais carbono do que seria sua cota justa – deve também poder crescer.

A ciência não tem uma resposta clara para a questão, por falta de modelos matemáticos aprofundados sobre os efeitos do decrescimento sobre as sociedades. Todos os 3 mil cenários de corte de emissões avaliados no relatório mais recente do IPCC partem do princípio de que as nações seguirão enriquecendo.

Isso criou um impasse para os cientistas que tentam mostrar aos tomadores de decisões como manter a meta de 1,5ºC apesar do aumento da demanda energética e do esgotamento do orçamento carbônico. A solução indicada por seus modelos é ultrapassar essa marca e depois retirar CO2 da atmosfera, e assim baixar as temperaturas globais, mais para o fim do século.

Esse roteiro de crescimento verde sucedido por retirada de dióxido de carbono está integrado nos comprometimentos políticos para alcançar o zero líquido de emissões. Sem as tecnologias de remoção, o orçamento de carbono restante para alcançar o limite de 1.5ºC estaria esgotado por volta de 2044.

Segundo o relatório do IPCC, agora alguma medida de remoção de CO2 será inevitável, a fim de combater as emissões em setores difíceis de limpar. Até o momento, porém, essas tecnologias são caras e não foram testadas nas escalas empregadas nos modelos científicos. Algumas delas exigem áreas tão grandes que diversos cientistas relutam em apostar em seu uso difundido.

Decrescimento dos ricos desacelera combate à pobreza

Os críticos do decrescimento, por sua vez, argumentam que cortar a demanda de energia poderá agravar a pobreza. Os ativistas que exigem o fim do crescimento econômico costumam ignorar a distinção que fazem os acadêmicos entre impor a medida aos países ricos ou aos pobres.

De fato, o resultado líquido de decrescimento dos ricos e crescimento dos pobres pode bastar para que a economia global cresça: tudo é uma questão da escala de crescimento necessária a retirar as populações da pobreza.

"Para chegar sequer perto de um fim da pobreza, é necessário um crescimento muito grande, mesmo num futuro em que a desigualdade estivesse maciçamente reduzida", explica o economista Max Roser, da Universidade de Oxford, diretor da plataforma Our World in Data.

Segundo uma análise publicada em 2021, a economia mundial teria que ser cinco vezes maior para que todos alcançassem uma renda de US$ 30 por dia, que é aproximadamente a linha da pobreza de um país rico. Para os pró-decrescimento, contudo, incrementar a economia é uma má forma de combater a pobreza.

Outro estudo do mesmo ano concluiu que consumindo-se menos energia os líderes mundiais poderiam manter a meta de 1,5ºC e elevar os padrões de vida. Produzir suficiente energia para garantir bons alimentos, moradia, saúde, educação e transporte exigiria um quarto da demanda energética projetada para 2050.

Essa proposta desequilibraria as grandes economias, que consomem muita energia, mas reduziria a pressão sobre o clima. Será muito difícil a humanidade se manter dentro de limites planetários se continuar intensificando a maneira ineficiente de proporcionar bem-estar dos países ricos, adverte o principal autor do estudo, Jarmo Kikstra, especialista em modelagem climática do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicada.

Mais pobreza sem luxo dos ricos?

Certos analistas temem que cortar o crescimento nos países ricos também venha a ter o mesmo efeito sobre os pobres. Parar com consumo de luxo, como modas efêmeras ou férias no exterior, poderia se um golpe nos setores que impulsionam economias da África do Sul ao Sri Lanka.

Pesquisadores do decrescimento rebatem que não estão apenas tentando deter as mudanças climáticas, mas também lutar por justiça econômica. Paralelamente à contenção do crescimento no mundo rico, se deveria adotar políticas de apoio às economias locais dos países pobres e acabar com as relações comerciais desiguais. No entanto não se dispõe de modelos para mostrar esses efeitos.

O economista Fadhel Kaboub, da Universidade Denison, no Ohio, que pesquisa a soberania financeira dos países pobres, propõe que se compense o golpe econômico fazendo as nações mais responsáveis pela mudança climática pagarem reparações, tanto em forma de dinheiro como da tecnologia patenteada necessária à descarbonização: "Estamos realmente falando de um débito climático que precisa ser pago."

Apesar das controvérsias quanto à necessidade de decrescimento, os cientistas são unânimes em que apenas soluções tecnológicas não bastam para dar fim às mudanças climáticas. Nas residências, por exemplo, até agora os avanços de eficiência térmica foram neutralizados pelo aumento do espaço habitado. Nas estradas, a poluição evitada através dos carros elétricos foi anulada pela adoção de veículos utilitários esportivos mais pesados.

O relatório mais recente do IPCC mostrou que medidas para cortar a demanda energética – como voar menos, isolamento térmico das casas e substituir carne por vegetais na dieta – podem reduzir as emissões de 40% a 70%, até 2050.

No documento enfatiza-se a necessidade tanto de políticas para aumentar a suficiência – suprir as necessidades humanas nos limites do orçamento carbônico restante –, quanto de continuar a aperfeiçoar a eficácia tecnológica. "A escolha, hoje, é entre exigir políticas de suficiência já ou continuar com melhoras graduais", comenta Yamina Saheb.

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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