quinta-feira, junho 30, 2022

Bolsonaristas já se sentem estigmatizados, numa eleição marcada pelo extremismo político

Publicado em 29 de junho de 2022 por Tribuna da Internet

TRIBUNA DA INTERNET

Charge do Duke (O Tempo)

Flavio Gordon
Gazeta do Povo

Os gregos criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais indicativos de algo mau ou extraordinário no estatuto moral de uma pessoa. Impressos na pele mediante cortes ou queimaduras, os sinais apontavam o estigmatizado como uma pessoa de má reputação – escravo, criminoso ou traidor. O portador do estigma, ritualmente poluído, era assim fisicamente marcado para que os demais membros da comunidade fossem capazes de evitar a sua presença contagiosa.

Originalmente relativa a esses sinais corporais exteriores, infligidos ou inatos (a exemplo de deformações físicas e defeitos congênitos), a noção de estigma foi progressivamente ampliada para denotar falhas individuais relativas a hábitos, vícios, gostos e comportamentos particulares. Mais tarde, passou a abranger também culpas coletivas, associadas ao pertencimento a determinada nação, religião, “raça”, família, tribo ou corporação de ofício.

IDENTIDADE DETERIORADA – Num livro clássico, o sociólogo canadense Erving Goffman definiu estigma como um símbolo da “identidade deteriorada” de indivíduos ou grupos objeto de um processo de desumanização.

O estigma torna-se particularmente devastador ao se transformar naquilo que Goffman chamou de “status dominante”, quando passa a englobar toda a identidade social de um indivíduo ou grupo, independentemente de quaisquer outros de seus traços distintivos. Nos casos extremos, o processo de estigmatização pode culminar no assassinato em massa, como ocorreu nas situações emblemáticas do Holocausto e do genocídio ruandês.

Como se sabe, o extermínio nazista dos judeus foi precedido por uma vasta campanha de desumanização antissemita veiculada pelo Ministério da Propaganda de Goebbels, que controlava a imprensa e as editoras, representando as futuras vítimas do massacre em termos tais como “vermes”, “ratos” e “porcos”.

ALEMANHA E RUANDA – No livro A Linguagem do Terceiro Reich, de 1947, o filólogo judeu Victor Klemperer, na condição simultânea de estudioso e vítima, registrou a corrupção da língua alemã promovida pelo regime nazista: as palavras podiam ser “como minúsculas doses de arsênico” que, engolidas de maneira despercebida, aparentavam ser inofensivas até que, tempos depois, o efeito do veneno se fizesse sentir. Na Alemanha, a dessensibilização moral provocada pela linguagem nazista foi a antessala do genocídio.

No caso de Ruanda, é bem conhecido o papel desempenhado por veículos de imprensa como a Radio Télévision Libre des Mille Collines no fomento à carnificina, mediante a estigmatização reiterada dos tutsis, sistematicamente desumanizados e apelidados de “baratas”.

Em Ruanda, a selvageria da matança começou na selvageria da linguagem radiofônica. Naquele pequeno país africano, entre abril e julho de 1994, aproximadamente 800 mil tutsis foram retalhados até a morte por seus vizinhos hutus.

ESTIGMAÇÃO NO BRASIL – Por aqui, não existe obviamente algo similar a esses casos extremos de violência política. No entanto, na esfera da linguagem, já se observa há algum tempo um mecanismo cada vez mais virulento de estigmatização, processo que tem como alvos o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

São recorrentes os exemplos de linguagem estigmatizadora e desumanizadora, utilizada com cada vez menos cerimônia. Um ex-jogador de futebol chama o governo de “covarde, mentiroso, perverso e muito cruel”. Um comediante define o presidente como “um cara abjeto, que não tem humanidade… Isso não é gente, é rato, é verme”. Uma atriz manifesta livremente seu desejo de esfregar a cara de Bolsonaro no asfalto.

Um ministro do Supremo chama os bolsonaristas de “imbecis”. Um outro os acusa de integrar “guetos pré-iluministas”. Um terceiro reproduz a linguagem militante que caracteriza Bolsonaro como genocida.

TUDO É PERMITIDO – Fulano é bolsonarista, logo, contra ele tudo é permitido – eis o silogismo consagrado nas redações, nos estúdios, nos palcos e nos tribunais do Brasil de nossos dias

Na grande imprensa, o estigma bolsonarista – estampado em pessoas como o cantor Sérgio Reis, a médica Nise Yamaguchi, o empresário Luciano Hang, o jornalista Allan dos Santos e de tantos outros – serve para definir os alvos da perseguição estatal e, em seguida, para legitimar essa perseguição.

Vitimados por uma lógica tipicamente stalinista – “deem-me um nome que eu arrumo um caso” –, os estigmatizados são previamente culpados do crime de… bolsonarismo. Sim, um jornalista chegou a descrever uma participante do BBB como “suspeita de bolsonarismo”.

JÁ PRODUZ EFEITO – Se a selvagem retórica antibolsonarista da imprensa, de personalidades do show business, de parlamentares e de ministros da suprema corte ainda não desaguou em violência física em larga escala, o fato é que ela já produz efeitos em termos de uma identidade deteriorada e perda de status social, uma vez que, no âmbito de inquéritos inconstitucionais que lembram os famigerados Processos de Moscou, os assim chamados “bolsonaristas” viraram alvo de uma série de perseguições político-jurídicas e sofrem toda sorte de violação a direitos individuais elementares.

Na realidade social criada por essa espécie de adelismo linguístico, tudo se passa como se o estigma bolsonarista indicasse a presença de uma impureza ou pecado irredimível, bastando para que o seu portador seja ostracizado, tratado como pária, e privado das garantias formalmente previstas num estado de direito.

Fulano é bolsonarista, logo, contra ele tudo é permitido – eis, enfim, o silogismo consagrado nas redações, nos estúdios, nos palcos e nos tribunais do Brasil de nossos dias.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Merece muita reflexão este artigo, enviado por Mário Assis Causanilhas. Resumimos um pouco, porque o texto estava muito extenso. Concordamos que a estigmatização e o radicalismo político não interessam a ninguém. Mas gostaríamos de lembrar que o próprio Bolsonaro e seus apoiadores incentivam essa radicalização, ao considerar como “comunistas” todos os adversários políticos e também ao investir contra o estado laico. Assim, é preciso que todos evitem o extremismo e que todos façam o “mea culpa”, pedido de perdão na missa da Igreja Católica, com a prece “Confiteor” (“Eu confesso”). Porque, no caso, todos estamos errados(C.N.)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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