quinta-feira, junho 30, 2022

A caminho da ingovernabilidade, Estados Unidos hoje servem de exemplo ao Brasil

Publicado em 30 de junho de 2022 por Tribuna da Internet

Trump ignorou ex-aliados de que fraude eleitoral era infundada

Denunciem a fraude e deixem o resto comigo, disse Trump

Oliver Stuenkel
Estadão

À primeira vista, a estratégia de Trump de não reconhecer sua derrota em novembro de 2020 fracassou: mesmo instigando milhares de seguidores a invadirem o Congresso para inviabilizar a transição de poder em 6 de janeiro passado, a posse de Joe Biden aconteceu como prevista. Porém, com as eleições parlamentares, conhecidas como ‘midterms’, se aproximando, fica claro que a decisão de Trump fez parte de uma estratégia de longo prazo e já lhe rendeu benefícios concretos;

Quase 80% dos eleitores republicanos – uma parte considerável da população – acredita que Joe Biden não venceu de forma legítima. Esse dado é crucial para compreender por que Trump, diferentemente da vasta maioria dos ex-presidentes americanos que perderam a reeleição, conseguiu manter seu controle sobre o Partido Republicano e tem boas chances de vencer as primárias republicanas antes das eleições presidenciais de 2024.

ALGO NUNCA VISTO – A postura de Trump, inédita na história dos Estados Unidos, acelerou ainda mais a degeneração do sistema político norte-americano, marcado hoje por uma polarização tão destrutiva que ameaça tornar os EUA um país ingovernável.

Diferentemente do que alguns otimistas pensavam depois do fracasso do ataque ao Congresso em Washington, o país não iniciou um processo de cura para superar suas discordâncias internas. Pelo contrário: como um vírus que ataca um corpo já fragilizado, a não-aceitação da derrota por Trump parece ter levado a uma inflamação generalizada que pode produzir uma crise constitucional nos próximos anos.

Afinal, hoje parece pouco provável que um Congresso de maioria republicana ratificaria uma vitória do candidato democrata contra Trump em 2024. A provável decisão do Departamento de Justiça, a ser tomada em breve, de formalmente acusar Donald Trump de tentar anular os resultados das eleições deve aprofundar ainda mais a polarização que hoje inviabiliza qualquer debate sobre o futuro da nação.

LIÇÕES PREOCUPANTES – Para o cenário eleitoral brasileiro, a experiência americana traz duas lições profundamente preocupantes.

Primeira: a capacidade de Trump de manter controle sobre a direita americana, depois da derrota por meio da narrativa das eleições roubadas, produz um incentivo enorme para o presidente Bolsonaro seguir o exemplo do ex-presidente americano, tendência que se agrava pelo fato de Trump não ter sofrido nenhum tipo de punição até agora.

Segunda: o caso americano sugere que, mesmo se alegações infundadas de fraude eleitoral não inviabilizarem a transição de poder, as sequelas para a democracia brasileira seriam profundas e possivelmente permanentes, com milhões de brasileiros questionando a legitimidade do próximo governo. Apesar dos seus numerosos problemas, a democracia americana muitas vezes serviu como modelo para outros países. Hoje, serve cada vez mais como alerta sobre o que evitar.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Nossa matriz U.S.A vai mal, com os republicanos boicotando todas as decisões de Joe Biden, que não tem carisma nem energia. Aqui na filial Brazil, não adianta Bolsonaro imitar Trump, porque ninguém vai invadir o Congresso. Na matriz, além dos partidos Democrata e Republicano, apenas o Libertário tem 1 deputado federal entre 435, e um estadual entre 5.411.  Aqui na filial Brazil, são 32 partidos legalizados e 22 têm representação no Congresso. A esculhambação é tamanha que tudo acaba em pizza, ou em samba. (C.N.)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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