quarta-feira, junho 29, 2022

A vez do generalíssimo




A convocação do general da reserva Walter Braga Netto, 65, para mais uma missão bolsonarista não espantou ninguém, mesmo que apoiadores ligados ao Centrão estejam rangendo os dentes. 

Por Alexandre Borges (foto)

Quem me acompanha por aqui, na Gazeta do Povo, ou na CNN Brasil sabe que nunca comprei a tese de que Tereza Cristina seria escolhida como vice na chapa de Jair Bolsonaro para a reeleição. Ele não daria essa “fraquejada”, para usar seu próprio vocabulário, num momento de confronto direto com as instituições e com a própria democracia do país. O roteiro foi o mesmo com Janaína Paschoal e Hamilton Mourão em 2018.

A convocação do general da reserva Walter Braga Netto, 65, para mais uma missão bolsonarista não espantou ninguém, mesmo que apoiadores ligados ao Centrão estejam rangendo os dentes. Os profissionais da política sabem que esse fiel escudeiro do presidente nunca embarcaria num processo, mesmo que legal, de impeachment do chefe, uma mensagem fundamental a ser passada em tempos tão turbulentos.

Braga Netto ganhou notoriedade nacional ao chefiar a Intervenção Federal no Estado do Rio de Janeiro em 2018, mesmo ano que elegeu Jair Bolsonaro presidente da República numa conjunção inédita e improvável de fatores: o auge da popularidade da Lava Jato, a prisão do líder das pesquisas, um atentado próximo à eleição, com direito a semanas de uma convalescença midiática que humanizou o candidato para uma parte do eleitorado.

A intervenção no Rio não costuma ser lembrada como um fator, mas ajudou a ressuscitar a ideia, para um determinado segmento do público mais reacionário, de que o país vive um caos comunista e só um general patriota, com plenos poderes, pode colocar ordem na casa.

O governo Bolsonaro, em seu primeiro ano, sofreu com a nefasta influência da chamada “ala ideológica”, meninos maluquinhos que colocaram todos contra todos e instauraram o clima de polarização e radicalismo com que infelizmente temos que lidar até hoje.

Como nem o presidente conseguiu suportar aquela turma por muito tempo, em 2020 os militares passaram a ter um papel preponderante.

Braga Netto assumiu a Casa Civil, o que significa na prática se tornar uma espécie de superministro e braço direito do presidente, enquadrando e escanteando os ideológicos. Sua função como principal nome de Bolsonaro na política estava se iniciando oficialmente.

Foi também em 2020 que outro general, Eduardo Pazuello, assumiu o Ministério da Saúde. Sob sua gestão, houve uma das maiores tragédias de saúde pública da nossa história, com picos de mais de três mil mortes diárias, o massacre provocado pela falta de oxigênio em Manaus, a produção em escala industrial de cloroquina, os atrasos mal explicados na compra de vacinas Pfizer e a preferência ainda mais estranha pela Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech. Um dia, ainda investigaremos direito essa tragédia.

Pazuello não estava sozinho como czar da pandemia. Braga Netto não apenas deu suporte às decisões do companheiro de farda e ministério como foi o cão de guarda institucional do governo. É notório que os senadores não convocaram Braga Netto para depor na CPI da Covid por se sentirem intimidados, o que certamente conquistou ainda mais pontos com o comandante-em-chefe.

A figura do generalíssimo, associada a ditadores como o espanhol Francisco Franco, está ligada a chefes de estado fardados que assumem a função de “general dos generais”, um papel que Bolsonaro adoraria exercer mas que sua tortuosa carreira militar e sua patente de capitão não permitem. Braga Netto vem preencher este espaço, sendo o avatar de Bolsonaro com quatro estrelas no uniforme.

Os militares do atual governo acreditam, erroneamente, que servir às agendas políticas do presidente da república, como no infame desfile de blindados fumacentos em frente ao Congresso no dia da votação da PEC do voto impresso, é de alguma forma servir ao país.

Não é, mas hoje os militares verdadeiramente patriotas, que sabem que servem à Constituição e ao país, estão infelizmente omissos ou negligentes no seu papel vital de mostrar ao povo que as Forças Armadas não embarcarão em aventuras antidemocráticas ou em chamar às falas seus companheiros aloprados. O retrocesso democrático e institucional, seja qual for o desfecho, está na conta deles.

Gazeta do Povo (PR)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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