quinta-feira, junho 30, 2022

Nova doutrina da Otan classifica Rússia como "ameaça direta"




Países-membros da Otan revelam novo conceito estratégico, que exclui planos de parceria com Moscou de uma década atrás e passa a classificar a Rússia como "ameaça mais significativa e direta" à segurança da aliança.

Em uma claro sinal de como as relações entre Moscou e o Ocidente se deterioraram devido à guerra na Ucrânia, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) passou a classificar a Rússia como a principal ameaça à segurança das nações que formam a aliança militar.

No mais recente conceito estratégico da aliança, divulgado nesta quarta-feira (29/06) durante a cúpula da organização, em Madri, os 30 países-membros apontaram que "a Federação Russa é a ameaça mais significativa e direta à segurança dos aliados e à paz e à estabilidade na zona euro-atlântica" para a próxima década.

Em 2010, na cúpula realizada em Lisboa, em claro contraste, o documento indicava que a Otan buscava construir uma parceria de longo prazo com a Rússia. Dmitry Medvedev, o presidente do país na época, chegou a participar do encontro no qual o tema foi abordado.

Os conceitos estratégicos da Otan costumam ser atualizados a cada década. Com dez páginas, o documento é público e define as áreas de foco da aliança, indicando as orientações que a organização deve seguir em termos políticos e militares.

No conceito anterior, de 2010, o foco estava basicamente nos combates liderados pelos Estados Unidos contra os terroristas do Talibã, com o objetivo de instaurar uma democracia no Afeganistão – a retirada das tropas do país, em agosto do ano passado, levou os líderes do grupo radical novamente ao poder, após duas décadas.

Bastante distinta da atual, a estratégia da década passada havia sido definida quatro anos antes da anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, o que desencadeou um retorno da Otan às suas raízes de defesa coletiva, e não mais no gerenciamento de crises de segurança para além de suas fronteiras.

Novos conceitos estratégicos já eram esperados, inclusive porque países-membros teriam optado por aguardar alguns anos para mudar os rumos da aliança devido à presença de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. No governo, Trump se mostrou um crítico ferrenho da Otan e ameaçou excluir a presença americana da entidade.

Na segunda-feira, o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, disse que a cúpula em Madri poderia ser encarada como "transformadora" e "um ponto de virada", com várias decisões importantes a serem tomadas. Ele também anunciou que a Otan deveria aumentar de 40 mil para 300 mil o número de soldados em nível de alta prontidão – o maior reforço militar desde a Guerra Fria (1947-1991). Esse contingente deve ser deslocado principalmente para a extremidade oriental da aliança, ou seja, no Leste Europeu.

'Encontro ocorre em Madri, Espanha, e havia acontecido pela última vez em Lisboa, Portugal, em 2010'

Atenção e canais abertos com a Rússia

O mais recente conceito estratégico da Otan acusa a Rússia de tentar "estabelecer esferas de influência e controle direto por meio de coerção, subversão, agressão e anexação", em uma clara referência à invasão da Ucrânia, que começou oficialmente em 24 de fevereiro deste ano.

Esses conceitos políticos e militares russos, segundo a Otan, têm sido buscados através de atividades das forças armadas e também por meio de ataques cibernéticos, o que caracteriza uma guerra híbrida para que Moscou atinja seus objetivos.

"O desenvolvimento militar de Moscou, incluindo as regiões dos países bálticos, do Mar Negro e do Mar Mediterrâneo, juntamente com sua integração militar com Belarus, desafia nossa segurança e nossos interesses", expõe o relatório.

O documento também expressa preocupação com a modernização da capacidade e do uso de sistemas nucleares por parte da Rússia, fazendo referência ao desenvolvimento de mísseis hipersônicos que podem transportar tanto armas convencionais quanto nucleares.

A Otan pondera, no entanto, que continua disposta a manter abertos os canais de comunicação com Moscou a fim de evitar riscos e escaladas de tensões, além de possíveis conflitos, ao mesmo tempo em que pretende conservar a transparência com o Kremlin.

A Rússia, por outro lado, acusa a Otan e os países ocidentais – formados em sua maioria por nações da Europa ocidental – de ameaçarem a segurança da própria Europa e, consequentemente, da Federação Russa, devido à expansão da aliança no Leste Europeu, em países que fazem fronteira com a Rússia.

'O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, participou da cúpula nesta terça-feira por meio de videoconferência'

Apoio incondicional à Ucrânia

Durante a cúpula em Madri, que vai até esta quinta-feira, a Otan também reforçou seu apoio incondicional à Ucrânia na guerra contra a Rússia.

"A Ucrânia pode contar conosco pelo tempo que for necessário. Os aliados continuarão a fornecer assistências militar e financeira substanciais", declarou o secretário-geral, reforçando que a intenção da Otan é também apoiar a Ucrânia para a transição de equipamentos da era soviética para uma aparelhagem mais moderna, vinda da própria Otan.

Segundo Stoltenberg, os 30 países-membros da aliança acordaram um pacote abrangente de ajuda ao exército ucraniano, com armamentos, equipamentos de comunicação, combustível, suprimentos médicos e sistemas para enfrentar minas e ameaças provenientes de armas químicas e biológicas.

Stoltenberg também teceu acusações contra o presidente russo, Vladimir Putin, dizendo que "a guerra promovida por ele abalou a paz e desencadeou a maior crise de segurança na Europa desde a Segunda Guerra Mundial".

China é citada pela primeira vez

Outro país visto pela Otan como uma ameaça para a próxima década é a China, que pela primeira vez foi citada nos conceitos estratégicos da entidade. Em 2010, o país asiático era classificado basicamente como um parceiro de negócios e de produção industrial. Hoje, é mencionado como defensor de "declaradas ambições e políticas coercitivas [que] desafiam nossos interesses, segurança e valores", diz o documento.

O relatório da Otan também acusa a China de colocar em prática "operações híbridas e cibernéticas maliciosas", bem como retóricas de confronto e desinformação que visam prejudicar os aliados e a segurança dos países-membros da Otan.

As ambições econômicas chinesas também são citadas pela Otan, que indica que Pequim tenta controlar tecnologias, setores industriais, infraestrutura fundamental e cadeias de suprimentos e materiais essenciais.

Conforme o documento, a China "usa sua força econômica para criar divisões estratégicas e aumentar sua influência. [O país] Se esforça para subverter a ordem internacional baseada em regras, inclusive nos domínios espacial, cibernético e marítimo". A China nega todas as acusações.

A Otan também expressa preocupação com o estreitamento de laços entre Moscou e Pequim, que, para a aliança militar ocidental, são "tentativas reforçadas mutuamente de subverter a ordem internacional baseada em regras". E ainda com o aumento do poderio militar chinês, o que, na visão da Otan, continua "obscuro a respeito de suas estratégias e intenções".

A exemplo da tentativa de manter os canais de comunicação abertos com a Rússia, a Otan informou que permanecerá disposta às relações construtivas com a China, mas, ao mesmo tempo, aumentará a conscientização e a preparação contra "táticas coercitivas e os esforços para dividir a aliança".

Adesão de Suécia e Finlândia

Por fim, a Otan oficializou a admissão de Finlândia e Suécia na aliança. O pedido de adesão e a consequente aceitação de ambos os países pelos atuais membros da organização provoca uma significativa transformação na arquitetura de segurança da Europa em décadas.

A Finlândia e a Rússia compartilham diretamente 1,3 mil quilômetros de fronteira. Com o ingresso finlandês, mais do que dobra a fronteira terrestre entre países-membros da Otan e a Rússia. A conclusão do processo, no entanto, pode durar mais alguns meses, ainda que os protocolos devam ser assinados já na próxima terça-feira.

Uma das nações responsáveis pela adesão dos dois países nórdicos é a Turquia, que vinha se opondo ao movimento, mas, em troca de concessões, aceitou o ingresso. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ameaçou impedir o processo de admissão – que precisa ser aprovado por todos os membros – ao exigir uma mudança de postura de ambos, Finlândia e Suécia, em relação a grupos curdos rebeldes considerados organizações terroristas pela Turquia.

Erdogan acusava Estocolmo e Helsinque de apoiarem o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e a milícia curda Unidades de Proteção do Povo (YPG), que possuem bases na Síria. O Ministério da Justiça turco afirmou que, nos últimos cinco anos, a Suécia e a Finlândia negaram 33 pedidos de extradição feitos pela Turquia.

As extradições seriam de indivíduos acusados de terem ligações com separatistas curdos ou pertencentes ao movimento liderado pelo clérigo Fethullah Gülen, responsabilizado por Erdogan por uma tentativa de golpe de Estado em 2016.

A Turquia repreendeu a Suécia, em particular, por tratar de forma "leniente" o PKK, que tem conduzido uma insurgência contra o Estado turco desde 1984. A Suécia também suspendeu as vendas de armas ao governo turco em 2019 por causa das operações militares na Síria.

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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