sábado, junho 25, 2022

PF alegou falta de condições para transferir Milton Ribeiro, mas tinha jatos à disposição


O novo jato da PF para reforçar operações no país | VEJA

Havia dois jatos da PF parados nos pátios, sem utilização

Weslley Galzo e Julia Affonso
Estadão

A Polícia Federal tem três jatos da Embraer, mas alegou que não tinha recursos para transportar o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro na quarta-feira passada, data de sua prisão. Apesar de haver uma ordem judicial para que Ribeiro fosse transferido de Santos (SP), onde reside, até Brasília, a PF manteve o ex-ministro em São Paulo.

O descumprimento da ordem judicial foi citado pelo delegado Bruno Calandrini, que preside o inquérito sobre a existência de um gabinete paralelo no Ministério da Educação operado por Ribeiro e dois pastores, como indicação de interferência na investigação.

DOIS AVIÕES PARADOS – Levantamento feito pelo Estadão em bases públicas de monitoramento de voos no País mostra que apenas um dos jatos da PF tem registro de voo na quarta-feira. Outras duas aeronaves de fabricação da Embraer de propriedade da corporação não aparecem como tendo sido usadas na data.

A ordem de prisão de Ribeiro foi expedida na última segunda-feira, pelo juiz Renato Borelli, da 15.ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, que especificou a necessidade de o ex-ministro ser transferido para Brasília.

Apesar dos dois dias de antecedência, a PF não colocou aeronaves à disposição da operação. No dia da prisão, apenas o jato modelo Embraer ERJ-145LR voou para cumprir missões policiais. O trajeto realizado na ocasião teve início em Foz de Iguaçu, às 11h19, com uma parada em Curitiba e foi finalizado às 13h55 em Brasília.

PARADO NO PÁTIO – A PF também possui o jato modelo Embraer ERJ-145EL, que não foi utilizado no dia da prisão de Ribeiro. O último registro de viagem dessa aeronave data do dia 20 de junho, quando foi realizado um percurso do interior de São Paulo para Brasília. Um dos jatos chegou a ser usado no dia 16 para transportar os corpos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips para perícia na capital federal.

A corporação ainda conta com um terceiro avião: um Embraer modelo E175. Esse jato foi entregue ao governo em dezembro do ano passado numa cerimônia que contou com a presença de três ministros e do então diretor-geral da PF, Paulo Maiurino. Ainda não há registros em bases públicas de o E175 já ter começado a voar em operações oficiais.

RESTRIÇÃO ORÇAMENTÁRIA – Apesar da disponibilidade das aeronaves, o delegado Caio Rodrigo Pellim, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado da PF (Dicor), pediu à Justiça Federal que mantivesse o ex-ministro da Educação em São Paulo “ante a restrição orçamentária, bem como a fim de se manter a integridade física dos presos e evitar exposição desnecessária, recomendável que a audiência de custódia seja realizada remotamente ou, em último caso, pelo juiz federal competente da localidade das prisões”.

Após a transferência frustrada, Calandrini apontou “interferência” na operação sobre o gabinete paralelo no MEC em mensagem enviada a colegas da PF. O delegado relatou não ter “autonomia investigativa e administrativa para conduzir o inquérito policial do caso com independência e segurança institucional”.

Nesta sexta-feira, a Justiça Federal remeteu o inquérito ao Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo a um pedido do Ministério Público Federal, que apontou indícios de interferência do presidente Jair Bolsonaro na investigação.

SUPORTE – Procurada pela reportagem, a PF não justificou o motivo de as aeronaves não terem sido utilizadas na operação de transferência de Ribeiro. A corporação também não respondeu aos questionamentos sobre a frota de jatos de que dispõe atualmente.

A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) informou que “as aeronaves servem para dar suporte em operações em que seja imprescindível e conveniente seu uso”.

A entidade declarou desconhecer outras situações em que a transferência de presos não tenha ocorrido por falta de recursos ou motivos de segurança.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – A interferência de Bolsonaro na Polícia Federal existe. Mas a corporação resiste e de vez em quando tenta investigar o governo, como se vê agora no caso do MEC. (C.N.)

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