terça-feira, maio 31, 2022

Lula no primeiro turno depende de Ciro, Tebet e da ira de pobres contra Bolsonaro

Publicado em 31 de maio de 2022 por Tribuna da Internet

Lula lá... Na cadeia!

Charge do Kacio (Metrópoles)

Vinicius Torres Freire
Folha

A pesquisa Datafolha reforçou a ideia de que a estratégia das candidaturas nas próximas semanas será dominada pela possibilidade de fim precoce da eleição para presidente. Assim, o destino de Ciro Gomes (PDT) e mesmo o de Simone Tebet (MDB) têm relevância.

Para haver segundo turno, Lula da Silva (PT) teria de perder quatro pontos, isso se outras candidaturas não caírem pelo caminho. Considerando a margem de erro no limite, teria de perder dois pontos.

MAIS BAIXARIA – É uma disputa “na margem”, de parcela menor de votos, pelas bordas, talvez bordas de sangue. Isto é, mais violência de Jair Bolsonaro. Mas a baixaria desumana pode piorar sua imagem entre pobres e mulheres, indicam pesquisas qualitativas.

Para ir ao segundo turno, Ciro precisaria tirar 7 pontos de Bolsonaro (isto é, levar 100% dos bolsonaristas que podem mudar de voto) e 7 de Lula (64% dos lulistas que talvez mudem de ideia). A fim de contribuir para um segundo turno qualquer, precisaria tirar 4 pontos de Lula. Mas Ciro anda estagnado perto de uns 8%.

No caso de Simone Tebet, a senadora precisaria também de 7 pontos de Bolsonaro e 11 pontos de Lula (100% dos lulistas que ora podem mudar de voto). De resto, o Datafolha indica que a migração geral de votos não favorece os dois de modo relevante.

SEM MENSAGEM – Como a pré-candidata do MDB poderia ao menos ajudar a embolar o jogo do primeiro turno? Tem pouco tempo antes de ser arquivada ou cristianizada por seu partido ou sabotada pelo PSDB (que não quer dividir dinheiro com Simone e tem muito candidato bolsonarista). Qual seria seu grande evento de explosão político-midiática? Atacaria violentamente Lula e/ou Bolsonaro? Não parece o jeito dela.

A campanha será curta. Começa em TV e rádio no final de agosto. Difícil que novatos e retardatários cheguem vivos até lá. Para piorar, ainda não têm mensagem nova.

Ciro é conhecido. Simone, apesar da raridade de mulher no topo da política, tende a vir com campanha de cara tucana, derrotada nas últimas cinco eleições. Bolsonaro não tem esquema político para ajudar os dois a sobreviver; a força gravitacional dos líderes deve tirar-lhes votos.

E BOLSONARO? – Quais as opções de Bolsonaro? Obter votos nas bordas de sangue, com a demolição de Lula. Mas há empecilhos fora desse ringue. Pesquisas qualitativas encomendadas por dois partidos indicam que o jeito violento de Bolsonaro pega mal, em especial entre mulheres, pobres e não-brancos.

Há raiva ou pesar pelo fato de Bolsonaro não ligar para a miséria, para preço de comida e falta de remédios, de se divertir com motos e jet-skis, de ser “mal-educado” e “não dar esperança”.

Medidas eleitoreiras podem ter efeito, mas talvez tardio, nem por isso irrelevante: trata-se de obter quatro pontos pelo segundo turno. Até agora, ajudaram Bolsonaro a subir desde o fundo do poço de 2021 e a manter sua votação neste trimestre.

CONTER A INFLAÇÃO – As tentativas de conter na marra preços de eletricidade e combustíveis devem ter efeito apenas a partir de julho, e olhe lá, se não caírem em disputas políticas e jurídicas. A baixa de preços é de tamanho e alcance eleitoral incertos. No caso do diesel, a esperteza pode dar em desabastecimento.

Bolsonaro vai arruinar o resto das universidades e da pesquisa científica para dar reajuste pequeno a servidores, de pouco impacto eleitoral. No mais, a janela de novos favores com dinheiro público se fecha no mês que vem.

O segundo trimestre pode ainda ter surpresa positiva na economia, embora despiora na miséria. De julho em diante, deve haver frustração. Resta a campanha de demolição e mentiras, que em parte menor cola, vide o aumento do descrédito na urna eletrônica. Resta a imundície.

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas