domingo, maio 29, 2022

Quantas horas é preciso dormir para melhorar raciocínio, segundo a ciência




Quantas horas de sono é o ideal?

Por Barbara Jacquelyn Sahakian*, Christelle Langley*, Jianfeng Feng* e Wei Cheng* - The Conversation

A maioria de nós tem dificuldade de pensar bem depois de uma noite de sono ruim — se sentindo com uma névoa mental, aquém do nosso desempenho habitual na escola, universidade ou trabalho.

Você pode notar que não está conseguindo se concentrar também, ou que sua memória não está boa. Décadas dormindo mal, no entanto, podem potencialmente levar ao declínio cognitivo.

Uma noite de sono ruim também afeta o humor e o comportamento das pessoas, sejam elas bebês ou idosos.

Mas, afinal, de quanto sono nosso cérebro precisa para funcionar adequadamente a longo prazo? Nossa nova pesquisa, publicada na revista científica Nature Aging, oferece uma resposta.

O sono é um componente importante para manter o funcionamento normal do cérebro. O cérebro se reorganiza e se recarrega durante o sono.

Além de remover subprodutos de resíduos tóxicos e estimular nosso sistema imunológico, o sono também é fundamental para a "consolidação da memória", durante a qual novos segmentos de memória baseados em nossas experiências são transferidos para a memória de longo prazo.

Uma quantidade e qualidade de sono ideais nos permite ter mais energia e bem-estar. Também possibilita desenvolver nossa criatividade e pensamento.

Pesquisadores que observaram bebês de três a 12 meses notaram que um sono melhor está associado a melhores resultados comportamentais no primeiro ano de vida, como ser capaz de se adaptar a novas situações ou regular emoções de forma eficiente.

Estes são os primeiros alicerces da cognição, incluindo a "flexibilidade cognitiva" (que nos permite mudar de perspectiva facilmente) e estão ligados ao bem-estar na vida adulta.

A regularidade do sono parece estar ligada à "rede de modo padrão" do cérebro, que envolve regiões que estão ativas quando estamos acordados, mas não engajadas em uma tarefa específica, como descansar enquanto nossa mente vagueia.

Esta rede inclui áreas importantes para a função cognitiva, como o córtex cingulado posterior (que é desativado durante as tarefas cognitivas), os lobos parietais (que processam informações sensoriais) e o córtex frontal (envolvido no planejamento e na cognição complexa).

'O cérebro se reorganiza e se recarrega durante o sono'

Há indícios de que, em adolescentes e adultos jovens, o sono ruim pode estar associado a alterações na conectividade dentro desta rede. Isso é importante já que nossos cérebros ainda estão se desenvolvendo na adolescência e no início da idade adulta.

O distúrbio desta rede pode ter, então, um efeito colateral na cognição, como interferência na concentração e no processamento baseado na memória, assim como em processos cognitivos mais avançados.

Alterações nos padrões de sono, incluindo dificuldade para pegar no sono e permanecer dormindo, são características significativas do processo de envelhecimento.

Estes distúrbios do sono são candidatos bastante plausíveis a ​​contribuir para o declínio cognitivo e transtornos psiquiátricos em pessoas idosas.

Como obter a quantidade certa de sono

'Todos nós reagimos de forma diferente à falta de sono'

Nosso estudo teve como objetivo entender melhor a relação entre sono, cognição e bem-estar.

Descobrimos que tanto o sono insuficiente quanto excessivo contribuem para um desempenho cognitivo pior, ao analisar dados de 500 mil adultos, de meia-idade a idosos, que faziam parte do UK BioBank (banco de dados biomédicos do Reino Unido).

No entanto, não estudamos crianças nem adolescentes e, como seus cérebros ainda estão em desenvolvimento, pode ser que a duração ideal do sono para eles seja diferente.

Nossa principal descoberta foi que sete horas de sono por noite era o ideal, com mais ou menos do que isso oferecendo menos benefícios para a cognição e a saúde mental.

Na verdade, descobrimos que as pessoas que dormiam esta quantidade se saíam — em média — melhor em testes cognitivos (incluindo velocidade de processamento, atenção visual e memória) do que aquelas que dormiam mais ou menos.

Os indivíduos também precisam de sete horas de sono de forma consistente, sem muita flutuação na duração.

Dito isto, todos nós respondemos de maneira ligeiramente diferente à falta de sono.

Descobrimos que a relação entre duração do sono, cognição e saúde mental era mediada pela genética e pela estrutura cerebral.

Observamos que as regiões do cérebro mais afetadas pela privação do sono incluíam o hipocampo, conhecido por seu papel no aprendizado e na memória, e áreas do córtex frontal, envolvidas no controle descendente da emoção.

'A privação do sono pode afetar o aprendizado e a memória'

Mas, embora a falta de sono possa afetar nossos cérebros, também pode acontecer o contrário.

É possível que o encolhimento relacionado à idade das regiões cerebrais envolvidas na regulação do sono e da vigília contribua para problemas de sono numa idade mais avançada.

Pode, por exemplo, diminuir a produção e secreção de melatonina, um hormônio que ajuda a controlar o ciclo do sono, em idosos.

Esta descoberta parece respaldar outras evidências sugerindo que existe uma ligação entre a duração do sono e o risco de desenvolver Alzheimer e demência.

Embora sete horas de sono sejam o ideal para proteger contra a demência, nosso estudo sugere que dormir o suficiente também pode ajudar a aliviar os sintomas da demência, protegendo a memória.

Isso enfatiza a importância de monitorar a duração do sono em pacientes idosos com transtornos psiquiátricos e demência, a fim de melhorar sua função cognitiva, saúde mental e bem-estar.

Como melhorar nosso sono

Um bom começo é garantir que a temperatura e a ventilação do seu quarto sejam boas — o cômodo deve estar fresco e arejado.

Você também deve evitar tomar muito álcool e assistir a filmes de suspense ou outros conteúdos estimulantes antes de ir para a cama.

Idealmente, deve estar em um estado de calma e relaxamento quando tentar pegar no solo. Pensar em algo agradável e relaxante, como a última vez que você foi à praia, funciona para muita gente.

'Pense em um momento agradável para relaxar e conseguir dormir'

Soluções tecnológicas, como aplicativos ou dispositivos wearables (para vestir), também podem ser benéficos para a saúde mental, assim como para monitorar o sono e garantir a consistência da duração do mesmo.

Para aproveitar a vida e funcionar de maneira ideal no dia a dia, você pode monitorar seus próprios padrões de sono para garantir que esteja dormindo sete horas regularmente.

* Barbara Jacquelyn Sahakian é professora de neuropsicologia clínica da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

*Christelle Langley é pesquisadora associada de pós-doutorado em neurociência cognitiva, também na Universidade de Cambridge.

*Jianfeng Feng é professor de ciência e tecnologia para inteligência inspirada no cérebro na Universidade de Fudan, na China.

*Wei Cheng é pesquisador de neurociências, também na Universidade de Fudan.

BBC Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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