segunda-feira, maio 30, 2022

Por que é hora de redefinir o que é um segundo – e que mistérios do universo isso pode revelar




Você tem um minuto para falarmos sobre o segundo?

Por Carlos Serrano

A unidade fundamental do tempo, da qual depende a maioria das demais grandezas do nosso sistema de medidas, não sofreu alterações em mais de 70 anos.

Mas o avanço da tecnologia indica que está na hora de atualizar e tornar mais precisa a definição do que é um segundo.

Esta é a opinião dos pesquisadores do Escritório Internacional de Pesos e Medidas (BIPM, na sigla em francês). Com sede em Paris, na França, o BIPM é o organismo responsável pelo estabelecimento dos padrões internacionais dos sistemas de unidades de medida.

Os metrologistas do BIPM, em conjunto com especialistas de vários países, estão se preparando para alterar a forma de medição do segundo. É uma operação bastante delicada, cujo resultado pode ser fundamental para mudar a forma como compreendemos o universo.

A humanidade recorreu por milênios à astronomia para medir a passagem do tempo

O que é um segundo?

O segundo é a unidade básica de medição do tempo no sistema internacional de medidas.

Mas, na verdade, outras unidades básicas como o metro (comprimento), o quilograma (massa), o ampere (corrente) e o kelvin (temperatura) são definidas com base no segundo.

O BIPM define o metro, por exemplo, como "o trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um período de 1/299.792.458 de segundo".

Por milênios, a humanidade se valeu da astronomia para definir suas unidades de tempo. Mas, desde 1967, utiliza-se a observação dos átomos para definir o segundo. Isso porque os átomos se comportam de forma mais precisa que a rotação da Terra, que não é perfeitamente uniforme.

Os cientistas observaram que, por milhões de anos, a Terra vem girando mais lentamente. Com isso, os dias vêm ficando em média 1,8 milissegundos maiores a cada século.

Assim, por exemplo, há 600 milhões de anos, o dia terrestre durava apenas 21 horas. E, para piorar as coisas, diversos estudos demonstraram em 2020 que, nos últimos 50 anos, o planeta começou a girar mais rápido.

'Os átomos oferecem uma medição do tempo mais precisa que as observações astronômicas'

Por isso, embora seja imperceptível, o "segundo astronômico" nem sempre é igual, enquanto as partículas atômicas se movem de forma mais precisa e previsível.

O segundo atômico

Desde 1967, o segundo começou a ser definido com base na oscilação das partículas de átomos de césio 133, quando expostas a um tipo especial de micro-ondas. O dispositivo empregado para fazer esta medição é chamado de relógio atômico.

Quando são expostos a estas micro-ondas, os átomos de césio 133 comportam-se como um pêndulo que "oscila" 9.192.631.770 vezes por segundo.

Até então, o segundo tomado como referência para contar as oscilações era baseado na duração de um dia do ano de 1957, determinado a partir do comportamento da Terra, da Lua e das estrelas. Agora, o BIPM definiu que a medida oficial do segundo seria calculada a partir da quantidade de oscilações das partículas de átomos de césio 133.

Assim, resumidamente, o segundo hoje é definido como o tempo que o césio leva para oscilar 9.192.631.770 vezes. Mas esta definição parece estar com os dias contados.

O novo segundo

Há cerca de uma década, existem os relógios ópticos atômicos, com capacidade de observar o "tique-taque" de átomos que oscilam com muito mais rapidez que o césio.

Alguns deles contam o tique-taque do itérbio, do estrôncio, do mercúrio ou do alumínio, por exemplo. É como se o relógio atômico tivesse uma lupa que permitisse detectar mais oscilações e definir o segundo com maior precisão.

E existem atualmente dezenas destes relógios ópticos em vários países. Espera-se com eles, como já demonstraram alguns experimentos, que as diversas medições possam ser comparadas para comprovar os resultados obtidos.

O BIPM planeja usar os relógios ópticos atômicos para medir o segundo, mas ainda está definindo os critérios para fazer esta medição. O mais importante é comprovar a precisão prometida pelos relógios ópticos, segundo Gérard Petit, pesquisador da equipe de tempo do BIPM.

Até o momento, as melhores comparações foram realizadas entre relógios ópticos de um mesmo laboratório. Mas Petit afirmou à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, que o objetivo é comparar diversos relógios de diferentes laboratórios. E também é necessário definir o elemento da tabela periódica que substituirá o césio como referência.

Além disso, os relógios ópticos atômicos são dispositivos tremendamente complexos, muitos deles exigem todo um laboratório para sua operação.

Alguns desafios enfrentados por estes aparelhos são, por exemplo, emitir o tipo de radiação laser com precisão exata para fazer com que os átomos oscilem de forma correta, ou tenham pulsos de laser ultravelozes com intervalos mínimos, para não perder as oscilações que devem ser contadas, segundo explica ao portal Live Science o pesquisador Jeffrey Sherman, do departamento de tempo e frequência do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST, na sigla em inglês).

Gérard Petit indica que, se tudo sair conforme o planejado, os critérios devem começar a ser definidos em junho de 2022, e o novo segundo deve entrar em vigor a partir de 2030.

"São operações e comparações complexas", diz ele.

Revelando mistérios

O que vai acontecer quando mudar a definição do segundo?

"Nada", afirma Petit, rindo.

'A medição ultraprecisa do tempo passa despercebida na nossa vida diária, mas é importante para os cientistas e pode trazer novos conhecimentos'

A principal razão para atualizar o segundo é manter as coisas em ordem, pois a estrutura de medidas do mundo depende do segundo.

"É possível viver por algum tempo com uma definição que não seja a mais precisa, mas, depois de um certo tempo, ela se torna ininteligível", diz Petit.

"Na prática, na vida diária, talvez não mude nada, mas, na ciência, é necessária uma definição baseada na melhor medição possível."

Além disso, medir o tempo de forma ultraprecisa pode nos ajudar a entender fenômenos que atualmente não são compreendidos.

O NIST explica, por exemplo, que os relógios ópticos já foram empregados para medir a distorção do espaço-tempo descrita pela teoria da relatividade de Einstein.

'As ondas gravitacionais deformam o espaço-tempo'

Os relógios ópticos são tão precisos que podem demonstrar uma diferença entre dois relógios com diferença de altitude de apenas um centímetro. Isso acontece porque, devido à gravidade, o tempo corre mais lentamente no nível do mar que em grandes altitudes, como no Monte Everest, por exemplo.

Estes relógios ultraprecisos também poderão servir para detectar a enigmática matéria escura, que compõe 25% do universo, mas da qual pouco se sabe. Com a nova tecnologia, os cientistas poderão detectar essa matéria desconhecida que influencia a matéria comum e o espaço-tempo.

E poderão também fornecer pistas sobre as ondas gravitacionais primordiais, que são ecos do Big Bang que deformam o espaço-tempo, como uma pedra lançada sobre um lago. Os relógios atômicos poderão ser capazes de detectar estas deformações e fornecer mais pistas sobre a formação do universo.

BBC Brasil

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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