terça-feira, maio 31, 2022

Setenta anos na ‘carteira de trabalho’: uma rainha que parece eterna.




Elizabeth II não precisa ser nomeada; basta dizer 'rainha' e todo mundo entende que é dela que se fala, resultado de viver muito e virar um símbolo global. 

Por Vilma Gryzinski

Quando se fala Inglaterra, Grã-Bretanha ou Reino Unido – várias designações para o mesmo espaço, embora não sejam a mesma coisa -, provavelmente as imagens que passam pelas nossas cabeças incluem o Big Ben, chuva, corridas de cavalo, mulheres de chapéu e, entre elas, única e soberana, a rainha.

Como apenas 16% da atual população mundial de 7,9 bilhões de pessoas haviam nascido quando ela foi coroada, em 2 de junho de 1953, aos 27 anos, carregando com a graça possível a coroa de 1 quilo e 280 gramas, o manto de veludo de 6,5 metros de comprimento, o vestido rebordado de pedrarias, dois braceletes de ouro simbolizando “a sinceridade e a sabedoria” e um colar de 25 diamantes, sendo o principal deles o Lahore, de 22 quilates, a rainha virou um brand, uma marca, um ícone, um símbolo de um país que encarna o próprio conceito de nação – talvez a única justificativa para algo tão anacrônico como uma monarquia ao estilo britânico.

Viver muito foi um dos feitos da mulher que não nasceu para ser rainha – só a abdicação de seu tio, apaixonado pela americana divorciada com quem não podia se casar, na época, levou seu pai ao trono e a princesinha Elizabeth Alexandra Mary a se tornar a primeira na linha de sucessão, aos doze anos.

E somente a morte precoce do pai, aos 56 anos, consumido por um câncer de pulmão, a tornou rainha com apenas 25 anos, em 6 de fevereiro de 1952, quando recebeu no Quênia a notícia que a pegou despreparada – precisou esperar, no avião que a levou de volta, que as roupas pretas de luto fosse levadas até lá, para desembarcar devidamente trajada.

Winston Churchill a esperava ao pé da escada do avião e, segundo alguns historiadores, não só venceu a relutância por ter uma rainha tão jovem como ficou um pouco apaixonado por ela.

Começar com Churchill como primeiro-ministro certamente foi um bom treinamento para lidar com os doze homens e duas mulheres que vieram depois dele, incluindo trabalhistas que, se pudessem, derrubariam – democraticamente – a monarquia e ainda fariam Elizabeth ler na abertura do Parlamento o discurso que encerraria um regime que tem mil anos de história mais ou menos contínua.

Não fizeram, mesmo quando detinham a maioria no Parlamento, porque o povo não queria. O respeito e a afeição que a rainha provoca em todas as camadas sociais, não apenas entre os estratos conservadores que são seu público natural, impressionam até o mais cínico dos políticos.

Ter assumido a coroa muito cedo e vivido até os 96 anos, com uma dignidade que honra o posto para o qual foi ungida – literalmente, com uma mistura secreta de óleo de sésamo e de oliva, âmbar, civeta, flor de laranjeira, rosa, jasmim, canela, almíscar e benjoim – produziram o jubileu de diamante que a partir dessa semana será comemorado como um feito notável. Imaginem ter uma carteira de trabalho assinada sete décadas atrás e continuar no batente na medida que seus “problemas episódicos de mobilidade” permitam.

A saúde da rainha é um segredo respeitado. Ela tem problemas de joelho – quem não tem, aos 96 anos? E provavelmente problemas cardíacos que a levaram a aceitar recentemente o conselho dos médicos e deixar de beber álcool, depois de uma vida adulta inteira de jantares precedidos por um coquetel feito com gin e Dubonnet, preparado durante décadas pelo falecido marido, Philip.

Embora pareça que não, ela é mortal e tudo está preparado para o momento em que a senha for dada: “A Ponte de Londres caiu”. Até os abafadores de couro para os sinos que dobrarão em sinal de luto nas 16 mil igrejas britânicas estão sendo feitos.

Em dez minutos, as bandeiras estarão a meio mastro. O Parlamento entrará em recesso durante os dez dias de luto. Charles, já como rei, falará à nação e partirá para uma viagem pelas quatro unidades que compõem o reino: a dominante Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales.

Por que Elizabeth não abdica logo e deixa o filho, que está com 73 anos, finalmente assumir a coroa para a qual foi treinado desde que nasceu? Ou pelo menos o nomeia príncipe regente e se recolhe para uma merecida aposentadoria entre seus castelos prediletos, Sandringham e Balmoral?

Todo mundo concorda que a rainha leva profundamente a sério a promessa de dedicação à nação, “pelo resto dos meus dias”, feita ainda na primeira juventude, e não pretende abrir mão dela, exceto em caso de impedimento total.

Por trás da imagem de boa velhinha, que se dirige a todos os interlocutores com infinita – e bem treinada – cortesia, Elizabeth II é focada na missão. Não permitiu que os sentimentos de mãe e avó prevalecessem sobre o seu dever de rainha quando cortou, implacavelmente, o filho Andrew e o neto Harry da linha de frente de membros da realeza, o primeiro por causa das acusações de abuso sexual (resolvidas com uma indenização de doze milhões de dólares, bancadas pela mamãe), o segundo por ter achado que poderia largar dos ônus da realeza e conservar os bônus.

Andrew e Harry só participarão do ato religioso de ação de graças do jubileu de diamante, como todos os outros membros da família. Nas demais cerimônias, estarão no centro Charles e Camilla, William e Kate.

O entorno real está preocupado com a possibilidade, muito concreta, de que o retorno de Harry e Meghan desvie as atenções do tema principal, a rainha.

Também subsistem os críticos – “parasita” e “sanguessuga” são xingamentos frequentes -, fora os conspiracionistas que consideram a família real globalista, judia ou composta por lagartos extraterrestres que tomam forma humana para dominar o planeta. Os menos arrebatados, ou relativamente sãos, dizem que ela só sorri de forma realmente espontânea quando seus cavalinhos ganham algum prêmio.

Elizabeth II já chegou a um ponto em que paira acima disso. Vai participar das festividades que a saúde permitir, sem dúvida nenhuma com casacos coloridos desenhados pela camareira promovida a amiga, Angela Kelly, tão íntima que amacia os sapatos Anello & Davide – com gáspea alta, fivela dourada e saltinho quadrado – que viraram uma das marcas registradas da rainha, juntamente com as bolsas Launer, as luvas e os chapéus.

Segundo Angela, filha de um estivador que ganhou um acesso sem precedentes a Elizabeth (“Não tem mais lugar nas minhas costas para punhaladas”, brincou, falando sobre a ciumeira que provocada) e escreveu dois livros plenamente autorizados, a rainha é “uma dama muito modesta”. Quando ainda morava em Buckingham usava apenas seis dos 775 cômodos do palácio.

Apelidada de AK47 por causa do temperamento explosivo, Angela conta que ainda fica com lágrimas nos olhos quando veste a rainha para as grandes ocasiões em que coroas e tiaras são tiradas do cofre.

Os diamantes resplandescentes – com brilho ressaltado por uma mistura de gin e água – fazem parte da grande encenação que é a monarquia, que mistura costumes de mais de mil anos com tradições inventadas ontem.

Quando sair dessa cena, Elizabeth encerrará uma era – positivamente avaliada: 57% dos britânicos acham que ela fez trabalho muito bom e 25% que se saiu bastante bem.

Qual político deixaria o palco com 82% de aprovação?

Revista Veja

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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