terça-feira, maio 31, 2022

Eleições na Colômbia: quem são ex-guerrilheiro e 'Trump colombiano' que disputam 2º turno




Gustavo Petro e Rodolfo Hernández disputam segundo turno, marcado para 19 de junho

Por Marcia Carmo, De Buenos Aires 

Os colombianos vão decidir quem será o próximo presidente do país no segundo turno das eleições, em 19 de junho.

A disputa será entre o candidato de esquerda ou centro-esquerda Gustavo Petro — ex-guerrilheiro, economista e senador, que disputa a Presidência pela terceira vez — e o candidato de direita Rodolfo Hernández — engenheiro, ex-prefeito de Bucaramanga, muitas vezes classificado como "populista", "escrachado" e "outsider da política".

As bandeiras de Petro, de 62 anos, são justiça social, reforma agrária — "democratizar a terra" —, cobrança de impostos às grandes fortunas para "gerar bem-estar e inclusão social" e uma "economia produtiva e com estabilidade econômica". Petro também defende o fim do serviço militar obrigatório e a ampliação de áreas de Direitos Humanos nas Forças Armadas e policiais.

Petro, da coalizão Pacto Histórico, tem insistido que não pretende confiscar ou nacionalizar empresas e criticou os governos da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua, mas ainda assim não conseguiu evitar a rejeição do empresariado e dos setores conservadores do país. Sua defesa de renegociação dos acordos de livre comércio em vigor, que incluem os Estados Unidos, desagrada o empresariado.

A principal bandeira de Hernández, de 77 anos, é o combate à corrupção — quase único assunto sobre o qual insistiu na sua estratégia de comunicação através das redes sociais, apesar de ele ter problemas com a Justiça por denúncias de irregularidades quando foi prefeito de Bucaramanga. Hernández, da Liga de Governantes Anticorrupção, defende o uso medicinal da maconha, a criação de uma renda mínima para os mais pobres e aposentadoria também para aqueles que não contribuíram para a previdência, mas não deu detalhes sobre de onde viriam os recursos.

'Candidato esquerdista Gustavo Petro recebeu mais votos no primeiro turno'

Logo após os resultados das urnas, analistas disseram, na noite de domingo (29/5), ao canal de TV online do jornal El Tiempo, de Bogotá, que, em "termos matemáticos", não se poderia descartar que Hernández possa chegar a vencer a eleição depois que o candidato da direita Federico 'Fico' Gutiérrez, da coalizão Equipo por Colômbia, que tem apoio dos partidos tradicionais, disse que o apoiaria.

"Pela matemática, se os votos de Hernández e de Gutiérrez forem somados, Hernández, o outsider, venceria", disse um deles. Petro recebeu 8,5 milhões de votos (40,32%), Hernández contou com 5,9 milhões (28,15%) e Gutiérrez com pouco mais de 5 milhões de votos (23,91%).

Mas, nesta matemática, ainda pode pesar o índice de abstenção e, portanto, não está claro o que aconteceria no segundo turno.

A eleição ocorre em meio a uma profunda polarização devido ao descontentamento social derivado da desigualdade e da pobreza, além de demandas para reduzir a insegurança nas cidades e a violência nas áreas rurais onde operam grupos armados ilegais dedicados ao narcotráfico.

Mais de 85% dos colombianos acham que o país está no caminho errado. Desde a década de 1990, o momento mais agudo do conflito armado, números tão altos de pessimismo não foram relatados.

'Cansaço'

A votação surpreendente em Hernández revela, segundo analistas, o "cansaço" dos colombianos com os políticos e o sistema atual. A eleição deixou de fora da corrida eleitoral, pela primeira vez em décadas, os partidos tradicionais, o que também confirmaria este "cansaço" e a busca dos colombianos por "mudanças", num país com longa trajetória de governos de direita e conservadores.

"Vencemos e ampliamos nossa votação em relação às eleições anteriores. E nossa disputa é pelas mudanças", disse Petro, famoso por sua oratória em tom de conversa, no fim da noite de domingo. Ele disse, porém, em claros recados para Hernández e seus eleitores, que existem "mudanças que podem ser suicídio" e que "a corrupção não se combate com frases de Tik-Tok". Foi aplaudido por seus seguidores 'petristas' (como seus apoiadores são chamados).

Na sua fala, Petro citou o escritor colombiano Gabriel García Márquez. Foi da obra 'Cem Anos de Solidão' que Petro tirou seu pseudônimo nos tempos de jovem guerrilheiro — Aureliano, em referência ao coronel Aureliano Buendía, considerado, por estudiosos, o principal personagem do livro.

'Gustavo Petro comemorou o resultado do primeiro turno'

'Voto envergonhado'?

Hernández foi a grande surpresa eleitoral. Até cerca de um mês, ele tinha 10% das intenções de voto e era levado pouco a sério entre políticos e analistas que viam suas declarações como "exóticas", "politicamente incorretas", "machistas" ou "brutas". Ele era interpretado como o "lanterninha" e com pouquíssimas chances de chegar ao segundo turno. Alguns setores o chamam 'Trump colombiano' e outros o comparam com o italiano Silvio Berlusconi por seu cabelo pintado e penteado.

O que foi considerado "voto envergonhado" em Hernández foi decisivo para que ele chegasse ao segundo turno, como observou a professora de ciências políticas Luaciana Manfredi, da universidade ICESI, de Cali.

Em seu discurso, após o resultado de domingo, Hernández voltou a falar em "acabar com a politicagem" e disse que sabe que, caso eleito, terá grandes desafios, mas que contará com "o apoio do povo". Durante a campanha, Hernández foi autor de declarações reprováveis. Ele disse, por exemplo, ter "confundido" Hitler com o cientista Albert Einstein, após ter sido criticado por elogiar o ditador alemão durante uma entrevista.

Empresário e engenheiro, Hernández fala palavrões, sem rodeios, e durante uma entrevista ao canal CNN em espanhol, reconheceu que estava de pijama. Durante a entrevista de vídeo, o jornalista lhe perguntou se ele usava uma camisa de seda ou pijama. Ao que Hernández respondeu: "Estou de pijama. É que já estava no meu terceiro sono. Eu durmo cedo, por volta das sete da noite", disse.

Analistas dizem que seu programa de governo é "vazio" ou "revela poucos detalhes" do que realmente pretende concretizar, caso seja eleito para suceder o atual presidente Iván Duque. Ter sido prefeito de Bucaramanga, com menos de 600 mil habitantes, foi sua única experiência num cargo político. Ele deixou o cargo com mais de 80% de popularidade.

'Rodolfo Hernández estava em terceiro nas pesquisas mas conseguiu chegar no segundo turno'

Acordo de paz, tragédias e desemprego

A vida de Hernández é marcada também por tragédias. Sua filha, contou ele durante a campanha, foi sequestrada e morta pelo grupo guerrilheiro ELN, ainda em ação, e seu pai esteve sequestrado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) durante mais de cem dias.

O drama de décadas de guerrilhas no país não esteve no centro dos debates no primeiro turno da campanha eleitoral, mas foi lembrado por opositores de Petro, que deixou o grupo armado M-19 ainda na juventude e foi a favor do Acordo de Paz, assinado em 2016. Hernández foi contra o entendimento, realizado durante o governo de Juan Manuel Santos, que levou as FARC a entregarem as armas, mas disse que levaria o acordo adiante, caso seja eleito.

Os focos desta campanha são o desemprego e a pobreza, entre outros males evidenciados durante a pandemia de coronavírus.

País com cerca de 50 milhões de habitantes, a Colômbia registra mais de 30% de pessoas em situação de pobreza, além de alto índice de trabalhadores informais. Além desse quadro social, não muito diferente de outros da América Latina, a sociedade colombiana aponta a violência — principalmente no interior do território colombiano, onde o tráfico de drogas e outros problemas geram temores — entre as maiores preocupações no país.

Quase aliados

Apesar de opositores, Petro e Hernández quase formaram a mesma chapa à Presidência, como lembraram analistas ouvidos pela BBC News Brasil, mas terminaram a campanha, no primeiro turno, com troca de farpas públicas. "Milionário corrupto", disse Petro sobre Hernández, que reagiu, lembrando que quase foram aliados. "Agora, não sirvo mais, senhor Petro", disse.

Na votação, no primeiro turno, Petro recebeu ampla diferença de votos em relação aos demais candidatos, mas não o suficiente para evitar o segundo turno. Com 99,32% das mesas apuradas, ele, que foi prefeito de Bogotá, teve 40,31% da votação, e Hernández, que foi prefeito de Bucaramanga, 28,2%.

Esta é a primeira vez, na história recente do país, que os candidatos que representavam a direita clássica, respaldados pelos partidos tradicionais, não disputarão a cadeira presidencial.

Derrota de Uribe e Duque

O resultado do primeiro turno foi a maior derrota dos partidos tradicionais e dos políticos Álvaro Uribe, ex-presidente, e do atual presidente Iván Duque, que apoiaram Federico 'Fico' Gutiérrez, que ficou em terceiro lugar.

A era do 'uribismo' está há vinte anos no poder. Na noite de domingo, 'Fico' anunciou que apoiará Hernández e, até aquele momento, a expectativa era que a direita e a centro-direita em peso seguissem o mesmo caminho — não exatamente por simpatia pelo candidato, mas, principalmente, por aversão a Petro.

Em 19 de junho, os colombianos vão decidir quem governará o país por quatro anos.

BBC Brasil

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas