sexta-feira, outubro 29, 2021

O desafio de Pacheco




A política mineira é polarizada pelo governador Romeu Zema Neto (Novo) e o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que está no segundo mandato

Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Para bom entendedor, “Oh! Minas Gerais”, de José Duduca de Moraes, cantor e compositor mineiro, em parceria com Manoel Araújo, disse tudo. Inspirada na melodia da napolitana “Vieni Sur Mar”, que chegou ao Brasil no final do século 19, a canção embalou o ato de filiação do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ao PSD do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. A bancada mineira no Congresso compareceu em peso, mas o desafio de unir Minas para projetar sua candidatura à Presidência em nível nacional ainda é um longo caminho a percorrer.

Juntar os mineiros não é fácil, mas é possível, em torno de um projeto nacional. Entretanto, constitui um desafio à altura das figuras de Juscelino Kubitschek e de Tancredo Neves, o presidente eleito em 1985, no colégio eleitoral, para pôr fim ao regime militar e que não chegou a tomar posse. A canção é um bom exemplo de que os caminhos de Minas não são um passeio pelo Eixo Monumental, no qual se situa o Memorial JK, que abrigou o ato de filiação de Pacheco. Nunca se chegou a um acordo quanto ao hino oficial dos mineiros. Em 1985, um concurso desclassificou as 72 composições inscritas. Em 1992, o número de desclassificadas subiu para 570.

“Nós podemos construir as soluções do Brasil num único ambiente. O ambiente da união. Nós precisamos estar uni- dos, significa buscar as convergências e respeitar as diferenças. Quando tivermos esse sentimento de união, deixando para lá polarização, radicalização, ex- tremismo, e entender que a média do brasileiro é de pessoas de bem, dentro desse processo de união invocar algo fundamental: respeito. Está faltando respeito no Brasil, e nós precisamos provocar cada vez mais a respeitabilidade entre poderes, instituições, entre as pessoas”, conclamou Pacheco. A união precisa começar por Minas, o segundo maior colégio eleitoral do país, com 15,7 milhões de eleitores.

A política mineira hoje é polarizada pelo governador Romeu Zema Neto (Novo), eleito no segundo turno com 6,9 milhões de votos (72,80% dos votos válidos), e o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que está no segundo mandato e é um potencial candidato ao governo de Minas. O senador Antônio Anastasia, hoje no PSD, adversário de Zema em 2018, é aliado de Pacheco. Para alguns interlocutores, a saída de Pacheco do DEM muda o sistema de alianças no estado e o coloca em oposição ao governador Zema.

Folclore

É cedo para uma conclusão, o fato de não se lançar candidato formalmente indica que há muitas conversas a serem feitas. Ninguém ganha a eleição à Presidência da República sem o apoio da maioria dos mineiros. Aécio Neves (PSDB) que o diga: ganhou em São Paulo, mas perdeu para Dilma Rousseff em Minas, nas eleições de 2014. Minas pode alavancar uma candidatura robusta à Presidência.

Kassab exumou a velha legenda do PSD — Partido Social Democrático, criado por Getúlio Vargas para abrigar seus aliados conservadores. Os mineiros foram grandes expoentes da legenda, que gostava de poder. Reunia políticos refinados intelectualmente, como Gustavo Capanema e Virgílio de Melo Franco, e raposas políticas, como José Maria Alckmin, que foi vice de Castelo Branco, e Benedito Valadares, governador de Minas por 12 anos. Seus “causos” pontificam o folclore político mineiro.

Em 1933, quando morreu Olegário Maciel, governador de Minas, Getúlio Vargas escolheu um interventor para sucedê- lo. Capanema ocupava o cargo interinamente e imaginava que seria efetivado. Seu concorrente era Melo Franco. Boêmio e bon vivant, sem o mesmo brilho intelectual, Benedito Valadares era considerado carta fora do baralho. Getúlio anunciou o nome pela Rádio Nacional. A voz de Getúlio foi cortada por chiados.

–… Mineiro… sshhh… interventor é… sshhh… Valadares.

Ninguém esperava esse desfecho. Muita gente perguntava: “Mas será o Benedito?”

E assim surgiu a expressão usada quando alguma coisa acontece sem ser esperada.

Correio Braziliense

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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