sábado, outubro 30, 2021

Centrão vê Pacheco como ‘picolé de chuchu’ e tem estratégia para reagir à CPI da Covid


Anastasia defende Rodrigo Pacheco como terceira via | PSD 55 - Partido  Social DemocráticoPSD 55 – Partido Social Democrático

Centrão tenta boicotar Rodrigo Pacheco, que está em alta

Vera Rosa
Estadão

O presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), está inconformado com o pedido de indiciamento de deputados por crimes na condução da pandemia do novo coronavírus, apresentado pela CPI da Covid. Em público, joga a culpa no relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL), seu adversário político. Mas não é só.

Lira também avalia, nos bastidores, que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), recém-filiado ao PSD, fez corpo mole e só agiu para evitar a punição de seus próprios colegas, deixando a CPI se voltar contra os bolsonaristas da Câmara.

“CAFÉ COM LEITE” – Pacheco é visto por integrantes do Centrão de Lira como uma espécie de “picolé de chuchu” mineiro, que tenta ressuscitar a política do café com leite.

O apelido foi dado há quase 20 anos ao ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin – hoje de saída do PSDB e também em negociação para se filiar ao PSD –, na tentativa de batizar o estilo do tucano como “insosso”. Pegou e virou até marketing de campanha.

O Centrão, aliás, apoiou oficialmente o picolé de chuchu “original” nas eleições de 2018 contra Jair Bolsonaro, mas as traições ao casamento de papel passado predominaram naquela disputa. Agora, no entanto, o cenário é muito diferente e o combate do Centrão, neste primeiro momento, é contra a chamada “terceira via”.

UM NOVO JK – A cerimônia de filiação de Pacheco ao PSD de Gilberto Kassab, nesta quarta-feira, 27, foi planejada em detalhes para vendê-lo como “um novo JK” na eleição de 2022 ao Palácio do Planalto. Ao som de “Peixe Vivo” – canção folclórica que virou hino da trajetória do ex-presidente Juscelino Kubitschek –, o advogado que comanda o Congresso foi apresentado no encontro como dono de um estilo apaziguador.

Mesmo sem assumir a candidatura à sucessão de Bolsonaro, Pacheco fez discurso de desafiante. “O caminho para solucionar as várias crises é a união. Passou da hora de buscarmos o diálogo e o equilíbrio”, disse ele, no Memorial JK, em Brasília. Nessa toada, o próximo passo será um Plano de Metas na linha dos “50 anos em 5”.

Bolsonaro e seus aliados do Centrão desconfiam do bom mocismo de Pacheco e acham que ele joga para a plateia, dando seta para a centro-direita e sinalizando para uma ala do PT.

DOBRADINHA COM ALCOLUMBRE – Há no Planalto a convicção de que o mineiro age agora em dobradinha com o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Davi Alcolumbre (DEM-AP), para barrar a indicação de André Mendonça a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre, por sinal, estava na solenidade de filiação de Pacheco ao PSD.

“O presidente da CCJ foi meu aliado por dois anos. Por que essa mudança? Não sei o que ele quer”, disse Bolsonaro a evangélicos da Assembleia de Deus, em Manaus, na noite desta quarta-feira, ao se referir à resistência de Alcolumbre em pautar a sabatina de Mendonça, ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça.

Para o grupo de Lira, Alcolumbre foi um dos “protegidos” pela CPI da Covid. Um deputado ligado ao presidente da Câmara lembrou, por exemplo, que o então diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias – indicado na gestão de Luiz Henrique Mandetta por Ricardo Barros (Progressistas-PR), hoje líder do governo na Câmara – só permaneceu no cargo porque Alcolumbre o bancou.

TELHADO DE VIDRO – Na avaliação de integrantes do Centrão, o Senado tem “muito telhado de vidro”, mas a CPI não os expôs. Com pedido de indiciamento no relatório da comissão, por defender tratamentos ineficazes contra o coronavírus, o senador Luiz Carlos Heinze (Progressistas-RS), por exemplo, teve o nome retirado do relatório na última hora, a pedido de Rodrigo Pacheco. A atitude foi vista como corporativista pelo presidente da Câmara, que é do mesmo partido de Heinze.

 “Não se pode aplicar dois pesos e duas medidas no mesmo relatório sobre parlamentares do Congresso Nacional”, criticou Lira, reclamando de tratamento desigual. Renan lembrou que o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), filho 01 do presidente, tem pedido de indiciamento no relatório.

“O papel de Arthur Lira é defender a Casa. Não é defender a impunidade”, reagiu.

NOVA ESTRATÉGIA – A Câmara articula uma estratégia para acionar o Supremo Tribunal Federal (STF), contestando o trecho do relatório que pede a punição de deputados. Além de Ricardo Barros, a lista dos alvos da CPI inclui Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Bia Kicis (PSL-DF), Carla Zambelli (PSL-SP), Carlos Jordy (PSL-RJ) e Osmar Terra (MDB-RS), que também aparecem no inquérito das fake news, em tramitação no Supremo.

Embora não se possa dizer que a passagem entre os salões Verde e Azul do Congresso tenha virado uma Faixa de Gaza, o contraponto entre Lira e Pacheco chama a atenção. Detalhe: o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (Progressistas-PI), é senador e foi alçado ao cargo no figurino de “amortecedor” político justamente para resolver a falta de interlocução do Salão Azul com o governo.

Nessa queda de braço, aliados do “picolé de chuchu” mineiro afirmam que o presidente do Senado “não leva a disputa eleitoral para o plenário” e veem uma tropa de choque bolsonarista, capitaneada por Lira, agindo cada vez com mais desenvoltura na Câmara. Na prática, porém, o modo eleição entrou há tempos na agenda do Congresso. O palanque de 2022 está em acelerado processo de montagem, tanto para um lado como para o outro. Com ou sem picolé de chuchu.

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas