sexta-feira, outubro 29, 2021

A CPI da Covid cumpriu seu papel - Editorial

 




Relatório final da comissão apresentou um retrato muito bem delineado do que foi a tenebrosa condução do País nestes tempos sofridos

Como era esperado, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid aprovou o relatório final do senador Renan Calheiros (MDBAL) por 7 votos a 4. Entre outras medidas, a CPI da Covid recomendou o indiciamento de 78 pessoas que, no entendimento da maioria dos membros da comissão do Senado, teriam cometido crimes que contribuíram decisivamente para transformar a emergência sanitária em uma tragédia sem precedentes na história do País – a começar pelo presidente Jair Bolsonaro. Ao final da última sessão da comissão, realizada no dia 26 passado, o Brasil havia ultrapassado a marca de 606 mil mortes em decorrência do coronavírus.

A aprovação do relatório de mais de 1.200 páginas é o epílogo de uma CPI cujo objetivo inicial era organizar as profusas evidências da inépcia de Bolsonaro e de outras autoridades para enfrentar a pandemia de covid-19. Ao final de seis meses de trabalho, a CPI cumpriu o seu papel ao demonstrar que, de fato, a irresponsabilidade de Bolsonaro ao lidar com a crise e seu patológico desdém pelas aflições de seus governados, por si sós, foram suficientemente graves por infligir à população um sofrimento muito além do que seria esperado no contexto de uma pandemia. Contudo, a comissão de inquérito foi além de suas pretensões originais e apurou fatos que, até sua instalação, eram desconhecidos do grande público.

Graças às investigações da CPI da Covid, por exemplo, tomou-se conhecimento das tramoias envolvendo servidores do Ministério da Saúde, agentes políticos e lobistas para aquisição das vacinas Astrazeneca/oxford e Covaxin por intermédio de empresas de fachada. É seguro afirmar que as negociatas – urdidas para enriquecer uns poucos sem qualquer garantia de que as vacinas, afinal, chegariam aos braços dos brasileiros – só não foram concretizadas pela ação incisiva da CPI da Covid.

A comissão de inquérito também lançou luz sobre a perigosa projeção que o chamado “gabinete paralelo” adquiriu no curso da pandemia. A pretexto de “assessorar” o presidente da República, o grupo formado por políticos, médicos e empresários sem cargo oficial no governo, como apurou a CPI, serviu apenas para passar um verniz de cientificismo fajuto nas mandingas que Bolsonaro receitou à população com o objetivo de falsear a gravidade da crise sanitária e estimular a volta ao trabalho e a retomada da atividade econômica. Agindo assim, o presidente sobrepôs seus interesses particulares à saúde e à vida dos brasileiros.

As consequências jurídicas da CPI da Covid dependem agora do tratamento que será dado ao relatório pela Procuradoria-geral da República e pelo Ministério Público dos Estados, para os casos que envolvem o indiciamento ou denúncia de pessoas sem foro especial por prerrogativa de função. Que houve crimes, não resta dúvida. Milhões de brasileiros os testemunharam. O País viu – e a CPI da Covid documentou – o atraso deliberado do governo federal para adotar medidas que poderiam ter salvado muitas vidas, como a aquisição das vacinas e o estímulo ao uso de máscara e ao distanciamento social. Entretanto, à CPI da Covid, como a qualquer outra, não cabe se ocupar dos desdobramentos jurídico-penais de seus achados. Naquilo que a concerne, ou seja, a investigação eminentemente política dos fatos que ensejaram sua instalação, a CPI da Covid foi muito bem-sucedida.

O relatório final da CPI da Covid é um monumento político erigido pelo diligente trabalho de seus membros. Em que pesem alguns tropeços dos senadores ao longo do caminho, como oitivas desnecessárias, arroubos de vaidade ou recomendações estapafúrdias, como o banimento de Bolsonaro das redes sociais, os parlamentares legaram ao Brasil um documento histórico. No futuro, a leitura das 1.288 páginas do relatório dará ao observador desapaixonado um retrato muito bem delineado do que foi a tenebrosa condução do País por Bolsonaro nestes tempos sofridos.

Agora está definitivamente registrado, com a força de um documento do Senado, que, durante um dos momentos mais dramáticos de sua história, o Brasil foi governado por um presidente não só incapaz, como nocivo. A despeito disso, o País começa a superar a pandemia – mas levará mais tempo para superar Bolsonaro.

O Estado de São Paulo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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