sábado, outubro 30, 2021

Bolsonaro com poucas cartas na mão

 



Alta de juros freia não só a inflação como a renda do eleitor

Por César Felício (foto)

De todas as variáveis da economia que podem afetar uma eleição presidencial, a alta da inflação parece a mais letal. Oposicionistas venceram a eleição em todas as ocasiões em que a trajetória da inflação era claramente ascendente no momento do pleito.

A começar em 1960, na sucessão de Juscelino Kubitschek, que a história consagrou como um dos melhores governos republicanos. Há um consenso de que a alta da inflação foi um dos principais fatores, ainda que não o único, a colaborar para a eleição de Jânio Quadros. Collor ganhou 29 anos depois prometendo dar um “ippon” na inflação. Lula em 2002 chegou ao poder em uma circunstância de inflação alta.

Neste sentido, o aperto na taxa de juros que o Banco Central promove pode neutralizar um fator com potencial de enterrar o projeto de reeleição de Bolsonaro. É claro que o Banco Central, como instituição independente, toma suas decisões “by the book” e o presidente mais atrapalha do que ajuda a autoridade monetária como guardiã da moeda. Mas se o arrocho monetário derrubar a taxa da inflação Bolsonaro não estará morto, é o que importa.

Um dos maiores críticos da política econômica de Bolsonaro no mercado, que é o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves, projeta a taxa da inflação no próximo ano em 5,2%. Muito acima do teto da meta, mas metade da atual, o que estanca uma sangria. E termina aí o que existe de boa notícia a Bolsonaro na economia de 2022.

O Auxílio Brasil que se avizinha está orçado em R$ 45 bilhões, talvez fique bem maior ao sair do Congresso, mas não terá o mesmo porte dos mais de R$ 500 bilhões derramados na ajuda emergencial de 2020, como destaca José Francisco.

O mega-auxílio de 2020, um dos maiores do mundo, mal conteve a catástrofe provocada pela pandemia na renda do brasileiro. Seu sucessor, já mais modesto, termina de ser pago neste domingo.

José Francisco elaborou um estudo sobre a renda real efetiva do brasileiro nos últimos anos. Entre 1º de abril de 2020, quando a pandemia acelerava para a força total, e 1º de agosto de 2021, último dado disponível, a renda real do que o cidadão efetivamente recebeu caiu 4%. Ou seja, ganhava-se em agosto, somando auxílios e que tais, menos do que se ganhava no auge da pandemia.

Caso a amostra seja em um horizonte de tempo mais curto, entre abril e outubro de 2020, quando vigorou o benefício de R$ 600, a renda mensal efetiva ficou 1% menor. O auxílio superlativo do ano passado impediu que as coisas ficassem ainda piores, mas não brecaram um processo de deterioração das possibilidades materiais da população.

Na curva da popularidade do presidente, os R$ 600 proporcionaram a Bolsonaro seu melhor momento no poder. Mas foi relativamente pouco. Bolsonaro fechou 2020 com 37% de bom e ótimo e 32% de ruim e péssimo, de acordo com o Datafolha. Sua taxa de aprovação tinha subido quatro pontos percentuais desde o início da pandemia e sua desaprovação recuado seis pontos.

Ainda que o quadro geral da economia no próximo ano prometa ser melhor do que o registrado em 2020, quando o PIB recuou 4,1%, um auxílio em proporções tão menores do que o anterior terá um efeito político compreensivelmente modesto. Mas será melhor do que nada. Se Bolsonaro não chegou a seu piso de intenção de voto, chegará em breve. Reverter rejeição é outra história.

José Francisco observa que o nível de desocupação está baixando, mas a melhora é tracionada pela economia informal. Sem reação de emprego formal, é pouco provável que o rendimento do trabalho reaja, mesmo com a desaceleração inflacionária que haverá no próximo ano.

E parte da razão para isso está justamente na ação do Banco Central. Para derrubar a inflação, a taxa de juros vai para cima e lá ficará por um bom tempo. Isso trava a recuperação do mercado de trabalho. Encarece os empréstimos. Breca investimentos produtivos. O efeito disso tudo na massa real de rendimentos tende a ser bastante negativo.

É bem verdade que em 1998 Fernando Henrique Cardoso se reelegeu ainda no primeiro turno, em uma conjuntura recessiva e juros no espaço sideral. Mas essa não é uma boa história para ser lembrada, dado o que aconteceu em 1999, quando a ilusão cambial foi desfeita e a inflação quadruplicou. Outra lembrança é a de 2014, quando Dilma Rousseff adiou um ajuste na economia cuja necessidade era premente. A fatura igualmente chegou no ano seguinte.

Tanto em 1998 quanto em 2014 mágicas foram feitas para se manter uma situação artificial na economia. Mas as mágicas eram para manter a inflação estável, não para reduzi-la. Não é o caso agora. As alternativas na mão de Bolsonaro são consideravelmente mais reduzidas.

Chile

A eleição presidencial no Chile é uma advertência aos interessados em uma terceira via. Para quem não gosta de polarização ideológica, o rumo da sucessão chilena é preocupante.

O país escolherá seu próximo presidente dia 21 de novembro. As mais recentes pesquisas mostram um político de extrema-direita, José Antonio Kast, liderando e em ascensão. O segundo colocado é Gabriel Boric, da esquerda. Três personagens dividem o campo da centro-esquerda à centro-direita: Yasna Provoste, Marco Ominami e Sebástian Sichel. Se estivessem unidos, estariam tecnicamente empatados com Kast. Desunidos, estão bem distantes do segundo turno.

No espectro político latino-americano, Kast é muito mais parecido com Bolsonaro do que outros presidentes conservadores, como o colombiano Ivan Duque ou o uruguaio Lacalle Pou. Boric foi um líder estudantil que se destacou nos protestos contra o governo em 2019. Um segundo turno entre os dois é o inverso da frase de Clausewitz: a política se tornará a continuação da guerra por outros meios.

Há, contudo, uma diferença notável entre a situação pré-eleitoral do Brasil e a eleitoral do Chile. Lá Kast e Boric, somados, reúnem cerca de 45% das intenções de voto. Aqui Lula e Bolsonaro, quando pontuam menos, somam de 60% a 65%.

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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