sábado, outubro 30, 2021

Brasil envia uma enorme delegação, mas chegará de mãos vazias à Conferência do Clima

Publicado em 29 de outubro de 2021 por Tribuna da Internet

COP26: What is it and why is it happening in Glasgow in 2021? - CBBC  Newsround

Conferência do Clima começa neste domingo em Glasgow

Carlos Bocuhy
Estadão

O governo do Brasil chegará em Glasgow, na Escócia, com a segunda maior delegação da COP26, mas de mãos vazias. A conferência sobre mudanças climáticas acontece entre 31 de outubro e 12 de novembro.

Com um discurso cosmético de economia verde e em busca de recursos, o Brasil, antecipadamente, gera desconfianças e prevenção diante do desmonte da política ambiental promovido pelo governo Bolsonaro. A boa notícia é que a sociedade civil, governos supranacionais e setores empresariais mais lúcidos poderão dar mais credibilidade à presença nacional.

SEM BOLSONARO – A presença de Jair Bolsonaro fica mais improvável diante das acusações da extensa CPI da Covid. A ética e a diplomacia aconselhariam delegar a missão para alguém com lastro institucional e político, mas a delegação será chefiada pelo atual ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, indicado por seu predecessor, Ricardo Salles. Assim como o anterior, Leite tem longa trajetória de ligações com o agronegócio, especialmente seu setor mais retrógrado, que representa a base do governo.

Seja pelo fato de ser preposto do desastroso ministro anterior, seja pela falta de história na área ambiental, Leite não conta com apoio das forças ambientais lúcidas da sociedade brasileira nem do exterior, portanto seu trânsito internacional será limitadíssimo.

Com um portifólio vazio, a missão brasileira só poderá lastrear sua participação em discursos, não em fatos. Promessas já assistimos várias, desde a Cúpula do Clima convocada pelo presidente americano Joe Biden, onde Bolsonaro desfiou intenções. No dia seguinte cortou duramente verbas destinadas ao Ministério do Meio Ambiente.

ARTIFÍCIO CONTÁBIL – Desta vez teremos mais do mesmo. Além da mala vazia, sem concretude, a delegação oficial levará para a COP26 apenas o engôdo da pedalada climática que Ricardo Salles protagonizou em passado recente. Ao tomar por base o segundo relatório brasileiro de emissões de gases efeito estufa (GEE), Salles deixou de considerar dados mais precisos do terceiro relatório.

Assim, o Brasil chegará a Glasgow com contas malfeitas, com um artifício contábil que retira a obrigatoriedade em conter aproximadamente 400 milhões de toneladas de carbono até 2030, o que mereceu uma dura crítica da ONU, por ser o único país do G20 a recuar em sua promessa de cortes na emissão de GEE.

Até a rainha Elisabeth II queixou-se recentemente, em particular, sobre aqueles que, em matéria climática, falam e nada fazem. Relações diplomáticas são baseadas em confiança recíproca. Sem entrar no mérito das motivações e interesses envolvidos, de lado a lado, o fato é que, em meados do século XIX o Brasil só fez a lição de casa para interromper o tráfico de escravos depois de sérios percalços com a Inglaterra que ameaçava o bloqueio de nossos portos.

FUTURO DO HOMEM – O momento traduz uma seriedade ímpar. O que está em jogo é o próprio futuro da espécie humana e sua sobrevivência em condições saudáveis. As negociações em curso tiveram início a partir da Conferência Rio 92, quando o Brasil era protagonista lúcido, demonstrando ética, identificação com o território e a realidade natural.

Naquele momento surgiram os tratados de Diversidade Biológica, de Combate à Desertificação e da Mudança do Clima e nos últimos anos acirrou-se o passivo decorrente do tratamento irresponsável para com a Amazônia e sua biodiversidade, além de avanços na desertização.

Assemelhado ao comportamento frente à Covid, a área ambiental brasileira andou em descompasso e desvario no exercício de suas atribuições, recebendo um tratamento repleto de cinismo e irresponsabilidade. Sob falsos ou nenhum argumento foram devastados os meios operacionais, normativos, científicos e de participação social.

CONFLITOS DE INTERESSES – Essa anomalia e disfuncionalidade da gestão ambiental estatal, em sentido contrário aos dispositivos constitucionais, abrigou enormes conflitos de interesse ligados à degradação do meio ambiente. Ao favorecer um estado contínuo de ilegalidades, configurou-se um estado de desacordo com as funções precípuas não só do ministério, mas também da Presidência da República.

Com que base histórica o atual governo do Brasil poderá prometer, na COP26, que trilhará o caminho da construção de agendas propositivas? Com que histórico demonstrará interesse no estabelecimento de uma infraestrutura social voltada à construção da sustentabilidade, de modo a priorizar transformações voltadas ao bom uso da ciência e da participação social?

Bolsonaro tornou-se a antítese do ambientalismo internacional. Sobreviveu politicamente completamente apartado dos princípios da ciência e da democracia. Conseguiu, em apenas um ano de mandato, descontruir a boa imagem do Brasil no exterior.

TRAÇADO SOMBRIO – Podemos afirmar que existe uma tendência inercial irrefutável, um traçado sombrio porém lógico, conduzido por Bolsonaro desde 2019, quando se recusou a sediar a Conferência do Clima. Desde então, e até o momento, o presidente professou a negação da ciência, da participação social, da ecologia e das boas práticas democráticas.

Nem Freud auxiliaria, uma vez que ao analista cabe a verdade do desejo para que o analisado o reconheça como tal. Como fazer aflorar as reais motivações, a intencionalidade de tal destrutividade dotada de poder, com grande capacidade articulada em simulações e figurações?

É um momento obscuro. Prenuncia-se mais um duro golpe para o Itamaraty, um duro golpe para o Brasil. É lastimável que isso aconteça com a histórica e notável diplomacia brasileira, que constituiu limites aos esplendidos rincões deste país. É especialmente triste para todos nós brasileiros, que seremos submetidos a mais este vexame internacional.

Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental


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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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