quinta-feira, outubro 28, 2021

Mesmo com fim da pandemia, Covid permanecerá e deve causar gripe grave


por Cláudia Collucci | Folhapress

Mesmo com fim da pandemia, Covid permanecerá e deve causar gripe grave
Foto: Paula Fróes / GOVBA

Mesmo com o fim da pandemia, a Covid-19 ficará entre nós em forma de endemia. A doença vai continuar presente, mas sem um aumento significativo de casos. O Sars-CoV-2 será mais um dos vírus que causam a gripe grave.
 

A avaliação é do cirurgião Paulo Chapchap, que liderou um grupo de médicos e especialistas em saúde pública no Todos pela Saúde, uma iniciativa do Itaú-Unibanco que investiu mais de R$ 1,2 bilhão no combate à pandemia e agora virou tema de documentário.
 

Frustrações, dificuldades, desafios, erros e acertos desse trabalho compõem o filme "SARS-CoV-2/O Tempo da Pandemia", dirigido por Eduardo Escorel e Lauro Escorel. O longa estreia no próximo dia 30, no Cinesesc, durante a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
 

O grupo, composto por Drauzio Varella, Eugênio Vilaça, Gonzalo Vecina Neto, Maurício Ceschin, Pedro Barbosa e Sidney Klajner, reuniu-se diariamente em 2020 para decidir as medidas mais urgentes a serem tomadas durante a crise sanitária.
 

Dentre as inúmeras frentes, foram feitas campanhas de informação, a compra de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), respiradores e outros equipamentos hospitalares, de oxímetros para as unidades básicas de saúde, testes sorológicos, além da capacitação de profissionais.
 

"Não existe saúde pública sem informar as pessoas do que elas têm que fazer e quais são os direitos delas. Procure peças publicitárias do Estado [sobre medidas preventivas], não tem. Uma parte importante dos recursos [da iniciativa] foi para o pilar de informar", afirma o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto.
 

Assista ao trailer:
 

"Parecia que [as autoridades federais] estavam remando contra. Você faz ampla campanha de distanciamento físico e utilização de máscara, e as nossas autoridades se reúnem, aglomeram e não usam máscaras, dizem que isso é bobagem", lembra Chapchap sobre práticas negacionistas lideradas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
 

A mesma frustração, segundo ele, aconteceu em relação ao tratamento precoce com medicamentos sem eficácia para a Covid, rechaçado pelo grupo, mas incentivado pelo Planalto.
 

No início, não havia informação nem do que estava faltando, lembra Maurício Ceschin, ex-presidente da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). "Já tinha uma avalanche de doentes chegando aos serviços e a gente não tinha um retrato. Faltava leitos de UTI, faltava monitor, faltava luva. Quanto faltava? Aonde faltava? Nós não tínhamos essa informação, o Ministério não tinha, ninguém tinha."
 

O grupo enviou equipes para todos os estados do país e em um mês havia montado gabinetes de crise em todos eles. Em 186 hospitais referências em Covid, profissionais alocados pela iniciativa passaram a orientar equipes locais sobre o fluxo de pacientes, a identificação de casos graves e os melhores protocolos.
 

"Uma coisa é fazer gestão em tempos de bonança, a outra é a gestão quando no seu hospital você tem 15 ambulâncias e não tem um leito vago para internar", comenta Eugênio Vilaça, consultor em saúde pública.
 

A enfermeira Verlaine Alencar, administradora de saúde no Hospital Sírio-Libanês, foi uma das que se deslocaram até Manaus (AM) no auge das mortes para ajudar na gestão da crise. "Apesar da briga da família [que temia por sua segurança], do medo, eu disse 'eu vou'. Havia falta de leitos, Samu parado na porta sem o pessoal conseguir receber o paciente, pessoas morrendo numa situação bem complicada", lembra.
 

O grupo atuou também em várias instituições de longa permanência para idosos fazendo testes de Covid nos residentes e nos profissionais e implantando protocolos mais adequados de cuidado. Videochamadas entre os idosos e suas famílias, além de mimos como radinhos de pilha, também foram providenciados.
 

Algumas ações do grupo, porém, não se mostraram tão efetivas na prática. Um exemplo foi a transformação de escolas em alojamentos para abrigar infectados que não tinham condições de manter o isolamento porque vivem em moradias precárias com muitas pessoas em um mesmo cômodo.
 

"Foi um fracasso. As pessoas não querem ficar isoladas, querem ficar junto com a família. As mulheres com filhos, se forem para um abrigo, quem cozinha para eles, quem cuida deles? Deu errado, não funcionou, gastamos dinheiro à toa", diz o oncologista Drauzio Varella, colunista da Folha de S.Paulo.
 

Por meio de depoimentos do grupo gestor e de relatos de sete profissionais da linha de frente, o telespectador revive os momentos mais críticos da pandemia, como o esgotamento de leitos de terapia intensiva em Manaus (AM).
 

"Foi muito traumático. Chegava num setor e eram 20, 30 pacientes com indicação de UTI. O jeito era escolher aqueles com mais probabilidade de sobreviver. Internamos pessoas em cadeiras de roda, em macas no chão", lembra o médico intensivista Marcelo Ferreira, coordenador da UTI do Hospital Dr. João Lúcio.
 

Muitos dos depoimentos são carregados de emoção. "Tive mortes amigos próximos que me doeram muito porque poderiam ser evitadas [com decisões corretas dos governos]. O que me incomoda é a morte desnecessária", diz Ceschin, com olhos marejados e voz embargada.
 

Pedro Barbosa, diretor-presidente do Instituto de Biologia Molecular do Paraná, também se emocionou com as lembranças. "A sensação de impotência é muito ruim. É um misto de tristeza e de revolta. É um sofrimento de ver tanto negacionismo e a barbárie acontecendo."
 

Em outubro do ano passado, com os recursos praticamente esgotados, o grupo começou a ser desmobilizado e foi surpreendido com a segunda onda da pandemia, com Manaus vivendo, de novo, uma situação muito crítica, agravada por falta de oxigênio.
 

"Aquilo acontecer com uma população onde 76% das pessoas já tinham tido contato ou infecção por Covid um ano antes? Eu me senti um pouco no meio do filme do dia da marmota [Feitiço do Tempo, 1993] onde tudo acontece de novo. Só que numa situação em que os recursos humanos beiram à exaustão", comenta Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein e também colunista da Folha de S.Paulo.
 

Para os especialistas, o Brasil perdeu a guerra de enfrentamento da pandemia. "Poderia ter sido diferente se a autoridade federal tivesse entendido os vários de graus de sofrimento, o social, econômico, o educacional. Vimos famílias inteiras sendo dizimadas", afirma Chapchap.
 

Eugênio Vilaça se diz ainda impactado com toda a desgraça causada pela pandemia, mas otimista com o futuro. "Tenho esperança de que vão surgir retrovirais, vacinas melhores, mais oportunas, megaplataformas de exames, vamos conviver melhor com isso. A gente convive com a gripe."
 

O grupo é unânime em apontar que a pandemia mostrou que o SUS é fundamental, que sem ele o enfrentamento da pandemia teria sido um caos maior e que investir mais recursos no sistema público de saúde é a melhor forma de distribuição de renda e de reduzir as desigualdades sociais.
 

"O que mata não é o vírus, é a desigualdade. O preto que morre cinco vezes mais do que o branco, morre porque tem que buscar comida, porque não tem comida em casa, e não por causa do vírus", diz Vecina Neto. "Precisamos entender que a desigualdade social não é um destino final do Brasil", acrescenta Drauzio Varella.
 

"O problema do outro é o nosso problema. Se não atuarmos como sociedade organizada, resgatar essas comunidades do tráfico, do crime, das milícias, o Estado reconhecer essas pessoas e atuar, essa pandemia não vai servir de aprendizado para nada", resume Ceschin.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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