sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Bolsonaro autoriza demissão de Wajngarten do comando da Secom: “Não sabe respeitar a hierarquia”


Radical e  insubordinado, Wajngarten colecionou conflitos no governo

Jussara Soares
O Globo

 A coleção de atritos de Fabio Wajngarten com outros integrantes do governo foi decisiva para que o presidente Jair Bolsonaro autorizasse a demissão dele do comando da Secretaria Especial de Comunicação (Secom).

 Informado dos desentendimentos de Wajngarten com o ministro das Comunicações, Fábio Faria, Bolsonaro reagiu dizendo que o auxiliar “não sabe respeitar a hierarquia”, lembrando que já era o terceiro ministro com quem o secretário se desentendia.

SUBSTITUIÇÃO – Wajngarten deve ser substituído pelo secretário de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha, e pode ganhar um novo posto no governo. A mudança deve ser publicada em breve no Diário Oficial da União (DOU).

Antes de Faria, Wajngarten entrou em conflito com o ex-ministro da Secretaria de Governo (Segov) Carlos Alberto dos Santos Cruz e com o atual chefe da pasta, Luiz Eduardo Ramos, quando a Secom era subordinada ao ministério. Em junho do ano passado, a secretaria foi transferida para o Ministério das Comunicações, recriada para abrigar Faria. Na época, Wajngarten apoiou a mudança e a chegada do novo ministro ao governo.

Desde o início, integrantes do Planalto faziam uma bolsa de apostas para saber quanto tempo a boa relação entre ambos duraria, já que os dois têm personalidades diferentes.  As rusgas não demoraram aparecer. O principal motivo de atrito era, segundo interlocutores de ambos,  o radicalismo e a insubordinação de Wajngarten, que não aceitava Faria como seu superior.

PACIFICAÇÃO – O ministro das Comunicações chegou ao Executivo com o discurso que era “hora de pacificar país” e com a missão de apaziguar as relações do governo Bolsonaro tanto com a imprensa quanto com Legislativo e Judiciário.

No final de 2020, o atrito entre ambos chegou ao auge. Ao saber da briga, Bolsonaro, irritado, deixou nas mãos de Fábio Faria o poder de decidir destino de Wajngarten, lembrando o histórico de conflitos do chefe da Secom.  No começo deste ano, os dois voltaram a se entender, e o chefe da Secom ganhou sobrevida no cargo.

No final de janeiro, a interlocutores, Faria dizia que o episódio estava superado e que estavam alinhados novamente. Na festa de comemoração pela eleição do deputado Arthur Lira (PP-AL) , no dia 1 de fevereiro, Faria e Wajngarten conversavam animadamente e aparentavam um clima amigável.

PERFIL CONCILIADOR – No dia seguinte, em 2 de fevereiro, o ministro das Comunicações embarcou para uma viagem de dez dias por Suécia, Finlândia, Coreia do Sul, Japão e China para visitar empresas de tecnologia 5G.  O almirante Flávio Rocha esteve na comitiva. As conversas para que o militar, que comandou a comunicação da Marinha,  assumisse a Secom teriam começado durante este período.  Elogiado por ter um perfil conciliador, Rocha é considerado o oposto de Wajngarten.

Conflitos com ministros da área militar também contribuíram para Bolsonaro autorizar a demissão de Wajngarten . Além do ministro-chefe da Segov,  o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, também esteve no alvo. No ano passado, Wajngarten se colocou como interlocutor do governo com representantes da Pfizer para a compra das vacinas. Como a aquisição não avançou, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, passou a ser alvo de “fritura” do chefe da Secom. Bolsonaro também não gostou.

Wajngarten chegou ao governo em abril de 2019. Com perfil explosivo, ao longo de quase dois anos no governo, acumulou atritos com técnicos, militares e até mesmo com alguns integrantes da ala ideológica. A atuação dele também foi criticada pelo vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Ao chefe da Secom é atribuída a fritura que ajudou a derrubar o ex-ministro-chefe da Segov Santos Cruz,e o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros.  

INTERMEDIAÇÃO DE WASSEF – Apesar dos atritos, Wajngarten conseguiu se manter no cargo por ter construído uma relação próxima ao presidente, que conheceu durante a pré-campanha eleitoral de 2018 por intermédio do advogado Frederik Wassef,  atualmente à frente da defesa do senador Flávio Bolsonaro no caso envolvendo as “rachadinhas” no período em que o filho do presidente era deputado estadual no Rio.

Dono da empresa Controle da Concorrência, nome fantasia da FW Comunicação e Marketing, e ex-funcionário do SBT, Wajngarten foi apresentado como um homem capaz de abrir portas em emissoras de televisão para o então candidato. Acabou ganhando força após o Bolsonaro ter levado uma facada em um ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Wajngarten providenciou a transferência para o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

ACESSO LIVRE – Durante os 23 dias de internação, Wajngarten tinha acesso livre ao quarto do então candidato e se aproximou de Carlos Bolsonaro. Depois da eleição, se manteve distante. O contato com o presidente e Carlos foi retomado quando Bolsonaro passou 17 dias hospitalizado para a retirada da bolsa de colostomia , entre janeiro e fevereiro de 2019. Foi justamente nesta época que começou a se desenhar a crise que culminou, dias depois, com a demissão de Bebianno, então ministro-chefe da Secretaria-Geral.

Apesar dos conflitos, Wajngarten sempre contou com o apreço de Bolsonaro. Ele foi mantido no cargo mesmo após o jornal “Folha de S.Paulo” revelar que o chefe da Secom era sócio de uma empresa que recebia dinheiro de emissoras de TV e agências de publicidade contratadas pelo governo.  Agora, ao autorizar a demissão de Wajngarten, Bolsonaro acenou  com a chance do chefe da Secom seguir no governo como assessor especial da Presidência. Wajngarten ainda não respondeu.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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