domingo, fevereiro 28, 2021

Bolsonaro adota tática do 'morde e assopra' para manter Guedes no governo

por Bernardo Caram e Gustavo Uribe | Folhapress

Bolsonaro adota tática do 'morde e assopra' para manter Guedes no governo
Foto: Alan Santos/ PR

“O homem que decide economia no Brasil é um só: chama-se Paulo Guedes.” A deferência feita em abril do ano passado ao ministro da Economia é frequente nos discursos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Ele [Guedes] que é meu patrão nessa questão [da economia], não eu o patrão dele”, ressaltou no ano retrasado.

 

A retórica repetida de tempos em tempos de que o ministro é quem dá a palavra final sobre decisões econômicas, no entanto, não tem se confirmado na prática.

 

Ao longo do mandato, Bolsonaro coleciona episódios em que desautoriza ou rejeita propostas apresentadas pelo Ministério da Economia. Se em público atesta que o ministro é o seu patrão, no privado o discurso é outro.

 

Segundo assessores presidenciais, em reuniões com Guedes, Bolsonaro já disse que é ele próprio quem dá a palavra final em seu governo e que, apesar de o ministro conhecer as demandas do mercado financeiro e do setor produtivo, é ele quem sabe o que a sociedade precisa. O argumento foi usado por Bolsonaro na decisão de intervenção na Petrobras.

 

Em reunião, Guedes foi contra a troca de Roberto Castello Branco do comando da empresa sob o argumento de que o governo seria acusado de intervenção indevida. Bolsonaro alegou, porém, que o ministro não levava em conta o aspecto social do preço do combustível. Além de criar turbulência no mercado financeiro, a intervenção gerou incômodo na equipe econômica e levou técnicos a questionar a permanência de Guedes no cargo.

 

O ministro decidiu ficar no posto, mas trata a PEC (proposta de emenda à Constituição) Emergencial, que traz medidas de ajuste fiscal, como um teste para avaliar sua situação no governo. A relação de Bolsonaro e Guedes é descrita por assessores do governo como de “morde e assopra”. Depois desautorizar o ministro, o presidente costuma fazer deferências a ele.

 

Após a intervenção na Petrobras, por exemplo, Bolsonaro fez questão de atribuir em público a Guedes a aprovação da proposta de independência do Banco Central. Os gestos de apoio, segundo assessores palacianos, devem-se ao receio de Bolsonaro de perder o ministro.

 

Em conversas reservadas, o presidente já disse que uma saída de Guedes, sobretudo às vésperas de uma campanha à reeleição, poderia afetar o apoio à sua candidatura de setores da economia, muitos dos quais foram pilares de sua vitória. Apesar de ter sido eleito com uma agenda liberal, Bolsonaro mantém uma essência estatizante.

 

A contradição é o que motiva os embates entre o presidente e o ministro e fazem com que o mandatário tenha como hábito sempre consultar o núcleo militar sobre questões econômicas.

 

A proposta recente de isenção de tributos sobre o diesel e o gás de cozinha, por exemplo, foi uma sugestão da cúpula fardada. Ela foi comunicada, porém, sem que a equipe econômica tivesse encontrado uma forma de compensar a perda de arrecadação. A medida deve entrar em vigor nesta segunda-feira (1º), mas uma solução ainda não foi apresentada.

 

Sob influência de ministros militares, Bolsonaro tem feito pressão também em outras frentes econômicas, como na tentativa de segurar tarifas de energia elétrica e na ameaça de demissão de indicados de Guedes. O presidente não desistiu de afastar o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, que irritou Bolsonaro no ano passado. O presidente chegou a pedir ao ministro que o executivo fosse demitido por ter levado adiante um plano de enxugamento em meio a uma crise econômica.

 

Com a mudança na Petrobras, Brandão ganhou sobrevida no cargo. Bolsonaro preferiu não criar agora novo desgaste com Guedes sob o risco de ele sair do governo. Na sexta-feira (26), porém, Brandão se antecipou e avisou Bolsonaro que não quer continuar no cargo.

 

No histórico de conflitos entre Bolsonaro e Guedes, a consolidação de programas sociais pelo Ministério da Economia foi outro episódio que levou o presidente a desautorizar o ministro, causando desconforto. O plano do ministro da Economia previa a fusão de programas existentes hoje para criar um Bolsa Família rebatizado e mais robusto. A ideia, no entanto, foi vetada por Bolsonaro.

 

Em agosto, ao ser informado sobre a ideia do ministro, o presidente afirmou em discurso ter recusado o plano. Em setembro, outra iniciativa do ministro que poderia criar espaço para o programa social foi travada por Bolsonaro. Uma nova crise foi aberta no governo.

 

Em entrevista, o secretário especial da Fazenda, Waldery Rodrigues, disse que a equipe econômica defendia que benefícios previdenciários, como aposentadorias e pensões, fossem desvinculados do salário mínimo. Na prática, a medida congelaria os pagamentos, deixando-os sem reajustes. A desindexação de benefícios é uma das pautas defendidas por Guedes desde o início do governo.

 

Mas Bolsonaro disse que a ideia é um devaneio. O presidente então ameaçou demitir quem viesse a propor uma medida desse tipo. A estratégia do ministro era interligar o fim do auxílio emergencial, em dezembro de 2020, ao novo programa social, mais encorpado. Diante da resistência do presidente, o plano foi colocado na gaveta, e agora o governo se vê pressionado a liberar mais parcelas do auxílio emergencial.

 

Nárea tributária, um dos principais desejos de Guedes é reduzir encargos trabalhistas, medida que seria compensada pela criação de um imposto sobre transações aos moldes da extinta CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Bolsonaro, contudo, é contrário à iniciativa.

 

Em 2019, ele pediu a demissão do então secretário da Receita, Marcos Cintra, diante do desgaste gerado pela informação de que o tributo seria criado. No ano passado, Bolsonaro deu aval para Guedes testar a ideia com líderes partidários. Desde então, o Planalto não se empenhou em negociar a proposta, que segue sem perspectiva de envio ao Congresso. O presidente também segurou por meses a reforma administrativa, que reestrutura carreiras, salário e avaliação de servidores públicos. No final do ano passado, após a pressão da equipe econômica, a proposta foi enviada ao Legislativo, mas ela ainda sofre com resistência dos núcleos político e militar.

 

Apesar da série de derrotas, Guedes saiu vitorioso em algumas quedas de braço. Foi o caso do congelamento salarial de servidores. Bolsonaro era contra a medida, mas acabou convencido pelo ministro. Em outro exemplo, o governo federal acabou desistindo do chamado “Plano Pró-Brasil”, que previa a retomada da atividade após a pandemia por meio de investimentos em obras públicas. Defendido pelo núcleo militar, o plano foi criticado em público por Guedes e levou Bolsonaro a congelá-lo, com medo de perder seu “Posto Ipiranga”.

Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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