segunda-feira, novembro 28, 2022

FIFA, corrupção e globalização.




A pouco e pouco o futebol foi-se tornando um grande negócio e a movimentar milhões. E com os milhões veio a corrupção de dirigentes desportivos e de “empresários” e o desbaratar de verbas públicas.

Por Paulo Trigo Pereira (foto)

Na minha infância o Estádio da Luz estava rodeado de buracos o que em dias de chuva era um problema. Mas lá dentro pontificavam o Eusébio, o Torres, o Simões ou o José Augusto e valia o esforço. Nessa altura, o futebol ainda era só futebol, na sua mistura de competição saudável, emoção e sentido de comunidade. Os jogadores estavam ligados aos clubes de forma duradoura, e podíamos fazer coleção de cromos que a caderneta não ficava desatualizada a cada seis meses ou um ano como agora. A pouco e pouco o futebol foi-se tornando um grande negócio e a movimentar milhões. E com os milhões veio a corrupção de dirigentes desportivos e de “empresários”, a fuga ao fisco de jogadores e treinadores, o desbaratar de verbas públicas, como nalguns estádios do Euro-2004 que, passados estes anos, continuam sem utilização e com dívida por pagar.

Vale a pena questionarmos porque é que no espaço de duas gerações o futebol assumiu a importância que tem hoje, sendo difundido primeiro de Inglaterra para a Europa e depois para todo o mundo. Há boas e más razões. As boas são as que são explicadas nas obras de Johan Huizinga (Homo Ludens) e de Norbert Elias e Eric Dunning (The quest for Excitment). O primeiro explicou a necessidade do jogo e da competição não apenas em diversas sociedades, mas em diferentes domínios da vida social. Os segundos explicaram como é que num processo civilizacional, em que os Estados passaram a assumir o monopólio do uso da força, se instauraram regimes parlamentares, e a competição entre Estados deixou de ser pelo uso militar da força, o futebol canalizou essas pulsões e essa necessidade de competição.

As más razões, é a forma como este alargamento do futebol esteve associado ao crescimento no negócio e da corrupção. O documentário da Netflix sobre a FIFA, mostra bem como se fez esta transição de uma organização respeitável e com poucos recursos para uma organização milionária, em que quem tem os direitos comerciais da transmissão das provas passou, com a difusão em massa da televisão, a ter lucros fabulosos e a poder corromper quem tem o poder na organização. As coisas começam sobretudo com João Havelange, no cargo 24 anos, e continuaram no seu sucessor Joseph Blatter que esteve 17 anos à frente da organização, resistiu à investigação do FBI, mas acabou sendo suspenso na sequência do escândalo de corrupção revelado em 2015 que levou à prisão muitos dirigentes da FIFA. Subornos, compra de votos para eleições internas da FIFA (quando Blatter vence o respeitado sueco Lennart Johansson) ou para a atribuição da localização do mundial a certos países (como foi presumivelmente quer o caso da Rússia e em 2018 quer agora do Catar em 2022), e esquemas com atribuição de bilhetes fizeram parte de grande parte da história da FIFA. O Catar é o que já sabemos em termos de direitos humanos…

A relação institucional que as três mais altas figuras do Estado português estabelecem com este mundial, ou seja, com a FIFA e o Catar, é claramente excessiva. Uma coisa seria a presença numa meia-final, ou final, onde certamente seria justificado a presença do Presidente da República, reforçando simbolicamente o apoio do povo português à seleção. Mas no jogo inaugural? Nada o justifica nem mesmo o desejo da federação portuguesa de futebol (e do poder político por arrasto) de co-organizar o mundial em parceria com a Espanha e a Ucrânia em 2030. Marcelo, salvou um pouco a face falando nos direitos humanos, mas a sua audiência deve ter sido bem diminuta.

A deslocação do Presidente da República, em particular, suscitou uma votação parlamentar, constitucionalmente exigida, sobre a viagem ao Catar e também sobre a razoabilidade e interpretação da norma constitucional que o exige. Vivemos num regime parlamentar, apesar do seu carácter semi-presidencial. Faz todo o sentido essa votação pois uma visita de um Presidente é sempre um ato político da maior relevância e, por isso, não deve ter a oposição dos representantes dos portugueses.

A estratégia de globalização mundial do futebol, promovida por Havelange e Blatter, está agora a ser continuada, com os países árabes (Catar), depois com o mundial de 2026 em nada mais do que três grandes países (EUA, Canadá, e México). É verdade que a COP27 já terminou, mas será que alguém ainda se lembra que há uma muito elevada pegada carbónica associada a estes eventos mundiais? Mais tarde ou mais cedo este modelo de mundiais terá de ser alterado e os europeus deveriam ser pioneiros nesta mudança. Duas coisas parecem certas: quanto mais o negócio do futebol se alargar à escala mundial maiores os riscos de corrupção e não será o futebol o motor do desenvolvimento em Portugal.

Observador (PT)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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