quinta-feira, julho 29, 2021

Déficit público provoca inflação ou elevação de impostos, mas o governo pouco se interessa

Publicado em 29 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Eurípedes Alcântara
O Globo

O jornalista Thomas Traumann publicou seu livro “O pior emprego do mundo” em setembro de 2018, pouco antes da eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República. Traumann se referia não ao emprego do presidente, mas ao de seu ministro da Economia, Paulo Guedes.

A obra analisa a ascensão e queda de 14 ministros encarregados da economia brasileira de 1967 a 2014. Todos foram assombrados por uma resistente endemia nacional, a incapacidade de controlar o déficit público e fazer o ajuste fiscal.

OUTRO FANTASMA – O fantasma continua rondando o Brasil. Acaba de sair um livro essencial para a compreensão desse enorme desafio. O autor é Fabio Giambiagi, talvez o maior especialista em finanças públicas do Brasil, que escreve uma coluna no GLOBO. O livro se chama “Tudo sobre o déficit público”.

Não é um livro fácil para quem não é do ramo, mas é imprescindível para nós, que vivemos num país onde o Estado fica com 40% de toda a riqueza criada por quem trabalha, dá empregos e corre riscos investindo na criação de empresas. O Estado brasileiro cobra caro pelo pouco que faz para os cidadãos, e seu funcionamento precisa ser conhecido, entendido e vigiado.

O livro de Giambiagi abre a caixa-preta de um mecanismo fundamental para entendermos as razões por que, não importa a ideologia do partido no poder, o governo só aumenta de tamanho, gasta cada vez mais e, assim, asfixia a sociedade civil, inibe o empreendedorismo e aumenta a dependência dos cidadãos de um núcleo burocrático que não presta contas a ninguém.

PAGANDO PELO ERRO  – Caricaturando uma situação verdadeira, se eu cometer muitos erros nas minhas colunas ou tratar de assuntos sem interesse, enfim, se passar a desagradar a você, leitor, o jornal acabará por dar um fim a nosso contrato, e serei demitido. Eu erro, eu pago pelo erro.

Um alto burocrata pode errar à vontade em suas formulações de política pública, e nada de ruim acontece com ele, pois o culpado sempre seremos nós, os cidadãos, os contribuintes.

Assim é com o tema central do livro de Giambiagi. O Estado arrecada muito, gasta sempre mais do que arrecada, produz um déficit cujas consequências serão pagas por nós na forma de inflação alta ou de impostos ainda mais pesados para financiar a dívida pública.

SOLUÇÕES MÁGICAS – Muita gente acha que, para resolver o problema, basta imprimir mais dinheiro ou expropriar o patrimônio dos bilionários. Não é assim. Isso nunca funcionou na História. Quanto mais dinheiro o governo imprime, menos ele vale.

Os bilionários são ricos em relação à classe média, mas toda a fortuna deles não faz cócegas nas necessidades reais do Tesouro de um país como o Brasil. Para complicar mais as coisas, são enormes as chances de o patrimônio financeiro de um bilionário ser formado, em grande parte, por títulos públicos, ou seja, papéis emitidos pelo próprio governo. Ao desapropriá-lo, o governo estaria tentando a façanha impossível de alguém se alçar do chão puxando pelos cadarços dos sapatos.

“A arrecadação [de impostos] não se tornou o resultado da pujança das atividades locais, e sim o mecanismo de sustentação de uma casta, muitas vezes com mecanismos de transferência de poder entre gerações, em benefício de famílias que iam se sucedendo nos palácios.” Assim o autor descreve o vício fundador do Estado brasileiro.

TETO DE GASTOS – A história democrática recente do país amenizou um pouco esse ciclo concentrador de riqueza e poder, mas não muito. O teto de gastos, conquista do efêmero governo de Michel Temer, foi um passo na direção correta de mostrar aos burocratas que a exploração das classes produtoras pelo Estado tem um limite.

A pandemia obrigou o governo a mais do que pode. Isso se somou à já precária situação deixada pela irresponsabilidade fiscal do governo de Dilma Rousseff. Essa conta chegará neste ano e nos próximos. O livro de Giambiagi traça o perfil e mostra os predicados exigidos de um governante capaz de atacar com sucesso esse enorme e resistente desafio.

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas